LÍRICA LUSITANA

Pois também já fui paneleiro, ora,
Que para ser teu amante completo
Era preciso que, feminino, me pusesse
No teu lugar e na tua posição. Pois,
Passivo, ativo, aéreo, fui também
Paneleiro. E senti na face nua
O cuspe rançoso e grosso da chamada sociedade
E ouvi o murmúrio maldoso
Do que diziam após minha passagem.
Ó becos medievais da saudosa Lisboa,
Quantas trocas secretas, de comércio,
já não testemunhaste? Calaste, pétrea,
Os tantos segredos de entre-machos
Sob os também pétreos olhos chorosos dos santos.
Viste a despedida para nunca mais
Do gordo e leve Sá-Carneiro,
De todos o mais feminina.
Viste o próprio Fernando Pessoa
Embriagar-se até o esquecimento
E escrever aos garranchos seus últimos poemas.
Pois, como ele, ficarei na mansarda, sem camisa,
E ocultarei, como quem guarda num cofre de parede,
Sob senha, o mais belo dos diamantes falsos. Era
O peito nu que um ousado oferecimento
Do pequeno mamilo duro, um ponto no universo,
A uma boca de barba farpada, também muito masculina.
Depois da camisa serão as calças e as ceroulas,
A consciência e a palavra escrita. Belo moço de fretes,
Maior que todos os poemas, minha mulher e meu homem,
Belo Fred, como dizes que te chamas, ainda
Que nada que tu digas acredite,
Que eras loiro e a quem chamava baby,
Até quando aqui não estava e, furioso, eu
Sacudia genitais e manuscritos.
Submeti-me ao peso peludo e à masculina arrogância
E indiferença e mesmo ódio:
Ele quer me destruir sim, pensei, cheio de medo e de desejo,
Mesmo depois de uma enxurrada de carinhos e doações.
Fui sobre ele em dedos de borboleta
Como o antigo maremoto sobre a cidade na hora do refluxo,
O maremoto contra o qual Voltaire se revoltou,
Pois não era possível, ele dizia, que fosse irracional
Nem mesmo a natureza, num século racional. A natureza,
Voltaire, pobre Voltaire, das eróticas ilustrações,
De vara fina e longa,
E sempre vestido da cintura para cima; Voltaire,
A natureza é a natureza é a natureza,
Um coração pulsante no peito de uma criança assustada
Ou mesmo calma, um membro alheio, imprevisível,
Ereto e exigente preso entre dedos coagidos,
Uma glande marcial preparada para a guerra. Amor,
Para ser o teu perfeito amante, sim,
Fui até paneleiro. Mas me desculpe o dia de hoje,
E a noite,
Que tenho outros compromissos.
Não me espere.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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