Liberdade de expressão: Monica se retirou e o estuprador voltou pra casa, por Hérika Vale

Em tempos de tantas opiniões sobre tudo, em que as redes sociais ditam uma espécie de comportamento padrão pautando discussões necessárias e ao mesmo tempo destruindo relações pelo simples fato de não haver concordância em opiniões próprias, meu senso de justiça e empatia sofreu um grande golpe esses dias. Uma das mulheres mais inteligentes e sagazes que surgiram de uns anos pra cá, na cena pública brasileira, apareceu em entrevista em rede nacional falando com tristeza de como a existência da liberdade de expressão no Brasil é questionável. Engana-se quem pensa o contrário.Essa fala é minha.

Monica Iozzi, figura pública questionadora e muito bem humorada ousou manifestar sua opinião , a respeito do grande absurdo que foi a mudança da pena concedida pelo STF a um estuprador confesso, que carrega em seus ombros e em sua cara, a mácula de 48 estupros comprovados, o ex-médico Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão.O que acontece é que, como mulher, Monica se indignou porque o Ministro Gilmar Mendes concedeu um habeas corpus liberando o sujeito para cumprir pena desfrutando o conforto de sua residência.O erro de Monica não foi se indignar com o fato em si, mas manifestar em rede social tal opinião, o que não agradou ao Ministro que plantou-lhe um processo por calúnia e difamação. Em entrevista concedida a Pedro Bial, Monica deixa transparecer nas palavras uma tristeza e indignação que só entende o que está passando quem tem seu direito tolhido, como ela o teve.

O questionamento sobre liberdade de expressão é constantemente trazido à tona, mas as discussões ainda não obtiveram força suficiente para abrir os olhos daqueles que fazem as Leis. Poderíamos olhar em volta e diminuir facilmente esses questionamentos: Monica como figura pública estaria certa em manifestar sua opinião?O melindre do Ministro foi uma punição por ter sua “honra maculada” ou apenas uma jogada esperta para deixar o recado no bom estilo “não mexam comigo que eu explodo vocês” ?

Monica é mulher, inteligente, manteve-se firme quando lhe propuseram um acordo, ela não arredou o pé.Mais do que figura pública, ela segurou o tranco por questões de honra, como tantas não têm medo, ela não teve de mostrar o que pensa, suas posições reafirmaram que a luta das figuras públicas deve sim, ser clara.Figuras públicas, certamente sabem do poder que exercem na formação de opinião , ela sabiamente usou o seu.Não vi uma manifestação de apoio sequer de colegas, posso ter deixado passar batido.Parece que não deram a visibilidade que o caso merecia…então ela, acabrunhada , meio sem jeito resolveu se retirar das redes sociais.Uma pena enorme, porque os fãs já estão sentindo a sua falta, e sabem como é importante uma mulher em tempos como esses se empoderar da sua condição, abrir a boca pra dizer o que pensa e defender suas posições.

Esse episódio deixa uma série de perguntas, lacunas, ansiedades. O período está tenso no país desgovernado, os olhares da sociedade estão em tantos lugares e ao mesmo tempo em nenhum se fixam. A resistência feminina é constantemente posta à prova, os direitos reduzidos aos gritos dos que seguram as rédeas das leis e muito provavelmente temos uma justiça tendenciosa que continuará intimidando e apontando para nós a mordaça. Em tempos como esses de tantos entendimentos diferentes sobre o que é liberdade de expressão, minha admiração para as mulheres que à exemplo de Monica não declinam de sua opinião, por acreditarem que a liberdade é defender o direito de se expressar, sem ferir o direito de o outro fazê-lo e que defendem a luta pela igualdade de direitos e que de quebra reafirmam a importância da figura pública em debates sejam eles quais forem, que agreguem poder e visem diminuir o preconceito, seja ele de que ordem for.Monica Iozzi se indignou ao ver um estuprador “livre” e por isso pagou o preço.Viva o Brasil e a sua escancarada inversão de valores.

Hérika Vale

Hérika Vale

Jornalista, Graduada em Língua Portuguesa , apaixonada por educação,pela cultura do meu sertão e pela boa política. Feminista com "F" maiúsculo ,com causa e propriedade, e colunista do Segunda Opinião.

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