La Divina

É provável que muitos dos leitores desta coluna não gostem de ópera, mesmo quando faço esta referência, não ao espetáculo propriamente dito, mas à música, ao canto operístico a que se pode ter acesso com facilidade, independentemente da região em que se vive, em diferentes mídias. Poucos, no entanto, haverão de ignorar o nome da soprano nova-iorquina Maria Callas.

Dona de uma voz inconfundível, com uma extensão aguda que a notabiliza como intérprete de grandes clássicos do gênero, Maria Sophia Cecília Anna Kalogeropoulos, seu verdadeiro nome, nasceu em Nova Yorque, Estados Unidos, há exatos cem anos.

Dotada de uma beleza um tanto exótica, lábios carnudos, queixo fino e cabelos pretos que lhe conferiam uma identidade marcante, Maria Callas é nome que extrapola os limites meramente artísticos, no que se sabe foi inigualável, muito pelos traços de sua personalidade transgressora e mais ainda pelos casos passionais em que esteve envolvida, a exemplo de sua conturbada relação extraconjugal com o magnata Aristóteles Onassis.

No caso, é conhecida a história: no verão de 1959, ao lado do marido, Callas embarcaria no iate do bilionário grego, também ele acompanhado da mulher, Athina Livanos. Na viagem, a soprano revelaria ao marido sua incontrolada paixão por Onassis, com quem passaria a viver uma tórrida relação amorosa, até o dia em que este a trocaria por ninguém menos que Jacqueline Kennedy, a ex-primeira dama dos Estados Unidos, com quem se casou. Para não falar do amor não-correspondido pelo cineasta homossexual Luchino Visconti.

Foi na vida artística, no entanto, que Maria Callas conquistou o prestígio que a imortalizaria, protagonizando uma das maiores revoluções estéticas nos palcos da grande ópera. Isto porque, desde os primórdios, a ópera era venerada enquanto gênero predominantemente musical, pouco destacando-se como espetáculo dramático.

Comenta-se, sob este aspecto, que o público habitualmente mantinha os olhos fechados durante as apresentações, como a tentar concentrar os sentidos na audição do canto. Callas associa à interpretação vocal, no que foi absolutamente genial, sua forte presença física no palco, elevando a ópera à condição de tragédia, de espetáculo teatral, para o que terá sido decisivo o paroxismo de sua própria vida, também ela sob muitos aspectos marcada pela hybris (arrogância ou orgulho funesto) recorrentes na linguagem operística da Antiguidade.

Pelo sim, pelo não, o melhor é sopesar esse registro como mera especulação, leve-se em conta o fato de que a ópera é uma arte para a qual convergem as mais diferentes estéticas, com destaque para a música, a dança e o teatro.

Seja como for, esta é a arte em que a soprano Maria Callas sempre sobressaiu, mas é de sua voz que vem o brilho de uma verdadeira deusa. Não à toa, tornar-se-ia conhecida como “La Divina”.

À sua vocação dramática, contudo, de contornos quase místicos, deve-se atribuir muito do seu enorme talento e do reconhecimento de sua arte sublime, a que se prendem, por certo, alguns “toques” da cantora-atriz instantes antes de adentrar o espaço cênico, como o costume de ajoelhar-se e esmurrar o chão para invocar a ajuda dos deuses.

Além desses atributos, força vocal, extensão, resistência, virtuosismo e vocação trágica, sobressaem na figura de Maria Callas um nítido sentimento de realidade dramática e uma coerência estilística poucas vezes vistos num só intérprete.

É emblemático, sob este aspecto, sua atuação como Norma, a esférica personagem da ópera homônima de Bellini, felizmente acessível ao grande público em DVD e nos canais de streaming.

Sem esquecer o único filme em que atuou, emblematicamente bem, diga-se em tempo, no papel de “Medéia”, na releitura do clássico de Eurípedes para o cinema, por Pier Paolo Pasolini.

Aos curiosos sobre a arte de Maria Callas — ou verdadeiros amantes —, além do Youtube, pode-se escutar no Spotify o recém disponibilizado “100 Best Maria Callas – Her Hundred Greatest Classics”, 2023.

Imperdível.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica