La ciudad de los mitos petrificados – Sérgio Costa

Para quem vai ao Museu do Louvre em Paris, é sensacional poder ver esculturas lendárias como a “Vênus de Milo”, a “Vitória de Samotrácia” ou o “Escriba Sentado” de forma tão próxima que é quase possível sentir o espírito de quem as esculpiu bem ali ao seu lado. Bastante agradável também é, logo após sair da visita, tomar a Rue Saint-Honoré, pegar uma mesa no famoso Chez Claude e degustar uma bouteille de uma boa safra de algum pinot noir produzido ali pertinho, em Nantes.

 

Pena que esse não é meu caso! Nunca fui à França e muito menos ao Louvre ou a esse restaurante que pesquisei no Google Maps. Até o final da edição deste texto, a segunda via do meu passaporte infelizmente não ficou pronta. E não teve promoção de passagem aérea boa pra lá. Nem meu cartão tava com limite. Enfim, triste fim! Mas tudo bem, algum dia chego lá e ostento no meu documento favorito algum carimbo do país dos croissants.

 

Prossigamos. Apesar da Vênus de Milo ainda estar do outro lado do Atlântico, vou localizar melhor aqui uma boa oportunidade de ver esculturas incríveis bem mais pertinho. Assim, para este tema, vou acabar falando novamente (mas com uma inegável nostalgia) do único destino internacional que já conheci: a Argentina. Minhas duas idas a Buenos Aires me permitiram observar com muita surpresa e admiração o quanto eles valorizam a arte da escultura por lá. Sim, pois em cada praça, em cada point da cidade, há uma estátua sobre alguém ou alguma coisa que conta uma história. Há inúmeros (e encantadores) fragmentos da narrativa portenha espalhados por toda a cidade, e descobri-los é uma deliciosa aventura.

 

E é em passeios assim que a gente aprende que a História não é apenas oral ou escrita. Ela é sólida, imagética, resiste bravamente às intempéries do tempo e do Tempo. Permanece de pé, em pedestais de pura rocha ou de coragem e resiliência insistindo em afirmar “Sim, continuo aqui! Sim: significo!” a qualquer época, a qualquer governo ou desgoverno. O que nos faz admirar tanto um Aleijadinho, ou um Rodin é justamente essa capacidade que esses homens de carne e osso tinham para dar vida a uma rocha, a um elemento inorgânico, num ofício que parece até algo de muito, muito poético. E é. Basta ver o quanto artistas importantes como Michelângelo ou Giovanni Strazza (com sua inacreditável “A Virgem Velada”) conseguiram extrair leveza, sentimento e humanidade dos pedaços de mármore onde cinzelavam efeitos de tecido, volume e expressões faciais.

 

Voltando à capital argentina, me vem à mente a necessidade de destacar três esculturas que mais chamam atenção ao passear pelas calles de Buenos Aires.

 

A primeira de uma importância histórica tanto para a política local quanto para a arte mundial. Trata-se da estátua feita em bronze de um dos heróis argentinos mais celebrados: o presidente Domingo Faustino Sarmiento. Localizada entre as avenidas Sarmiento e Libertador, o “Monumento a Sarmiento” foi inaugurado em 1911 e sua importância artística se dá pelo fato dela ter sido feita por um dos maiores representantes deste movimento: o escultor-autor é Auguste Rodin (1840-1917). O francês foi considerado um dos precursores da escultura moderna, mas nunca teve uma educação formal (tornou-se autodidata após ser recusado por três vezes pela Escola de Belas Artes). A estátua de Sarmiento possui uma imponente base feita em mármore com singelos 5 metros de altura. A figura do presidente em si, mede apenas 2 metros, mas mesmo assim ostenta a imponência de sua imagem e também o privilégio da capital ser a única cidade do continente a ter uma obra de Rodin feita especialmente para ela. Buenos Aires também pode se gabar de ter um dos oito originais da famosíssima “O Pensador”, erigida durante a vida de Rodin, posicionada bem em frente ao prédio do Congresso Nacional.

 

A segunda, é um monumento mais sutil, sem um aparente significado histórico (e precisa?) mas de uma doçura e inspiração que vertem lágrimas até do mais fervoroso crítico de qualquer gênero de arte. Localizada no Cemiterio de la Recoleta (se fosse falar dele, poderia citar inúmeros monumentos fúnebres ali postos), uma estátua de uma mulher com um cão a seu lado chama a atenção  – sim, lá o cemitério é ponto turístico, e dos mais legais. A mulher à qual a estátua é dedicada chamava-se Liliana, e era filha de um italiano que morava na Argentina. A moça faleceu muito nova, em 1970, com apenas 26 anos enquanto passava sua lua-de-mel na Áustria e seu quarto de hotel fora atingido por uma avalanche, matando-a. Seus pais encomendaram uma estátua em tamanho real da jovem e a colocaram num mausoléu que representava seu quarto e que guardaria ali seus restos mortais. A estátua foi esculpida por Wíeredovol Viladrich que, anos depois, quando da morte de Sabú – o fiel cachorro de Liliana – também acrescentou ao lado da imagem da moça uma outra estátua representando seu amigo de patas. Mas o que mais emociona é uma placa aos pés da estátua inscrita com o poema “A Mia Figlia”, escrito pelo pai da jovem. No texto, o destroçado pai se questiona “per che” repetidamente, questionando a Deus e a si mesmo a razão daquela tragédia, culpando até mesmo a Natureza, invejosa pela beleza de sua filha, que a destruiu.

 

Por fim, para não precisar rodar a cidade inteira, existe uma obra também grandiosa – artística e historicamente – logo em frente ao Centro Cultural Kirschner, bem atrás da famosa Casa Rosada. Bem de longe já é possível ver um absurdamente grande monumento de uma mulher empunhando uma espada em posição de corrida e praticamente carregando todo um povo a seus pés. Trata-se de um monumento em homenagem a Juana Azurduy (1780-1862),  importante personagem de origem indígena que lutou bravamente nas guerras pela independência do século XIX, e que foi postumamente elevada ao posto de general da nação. Pesando 25 toneladas, o monumento tem 6 metros de altura e mais 9 de profundidade. Cercada, porém, de muitas polêmicas, sua construção ainda no governo Kirchner quase levou à falência a fundição que o artista Andrés Zerneri usou para fazê-la, fato este que não diminui nem um pouco a suntuosidade do monumento.

 

Mas se também pudermos citar um inusitado bônus, não é só da arte clássica e da escultura tradicional que a capital argentina vive. Até mesmo as histórias em quadrinhos são valorizadas e nos presenteiam com divertidas esculturas coloridas e cartunescas. O chamado Passeio de la Historieta é um circuito que atravessa os bairros de San Telmo e Montserrat com simpáticas estátuas dos personagens mais populares da nação. Estão nelas a queridíssima Mafalda com sua turma e muitos outros como Gaturro e Don Fulgencio. Vale a pena parar e tirar uma foto com todos que você puder encontrar!

 

Um espetáculo de monumentos, em uma ode à arte da escultura: é essa reflexão que o berço do Tango nos oferece, tornando-se uma cidade dos mitos petrificados pela qual vale muito a pena se perder. Quem sabe qual estátua mais bonita e surpreendente você vai encontrar ao virar cada esquina?

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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