Juventudes e o Movimento PT LÁ E CÁ

Do ensinamento contido no Prefácio do livro “Para a Crítica da Economia Política” (Marx, Karl. Abril Cultural, 1982), aprende-se que na produção social da vida, os humanos contraem relações de produção determinadas, necessárias e independentes de sua vontade. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas determinadas de consciência e de comportamentos. O modo de produção da vida material condiciona o processo geral da vida social, político e espiritual.

Para Marx, não é a consciência que determina o ser concreto, mas é o ser social que determina sua consciência. Assim, como não se julga o que um indivíduo é a partir do julgamento que ele faz de si mesmo (auto-referência), da mesma maneira não se pode julgar uma época a partir de sua própria consciência de si. Ao contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.

A classe dominante, com o seu poder político-econômico-cultural, procura instituir como universal algo que é particular (a sua ideologia) por meio de uma malha de instituições com efeitos normativos e repressivos. A hegemonia na sociedade civil é assegurada pela difusão de práticas sociais que configuram representações e valores de classe. Sua metamorfose em universais dificulta a identificação e a sinalização da dominação de classe. Portanto, a hegemonia da classe dominante não é uma coisa vazia, abstrata ou só relacionada a ideias; possui materialidade e expressão institucional por meio dos aparelhos da hegemonia: escolas, igrejas, meios de comunicação, partidos políticos etc. O senso comum seria então a assimilação do discurso ideológico dominante pelas classes subalternas, que procura submetê-las a sua concepção particular de mundo imposta como universal. (PERRUSI, Artur. Sobre a noção de ideologia em Gramsci. Estudos de Sociologia, Recife, 2015, Vol. 2, n. 21).

O Golpe de 2016 apresenta-se dentro da luta de classes como um movimento do bloco capitalista na busca de retomada de sua hegemonia, enfraquecida pela derrota da ditadura militar (1964-1985) e pela conquista democrática materializada na Constituição de 1988. A partir de 2002, com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), colocou-se em andamento um projeto político-democrático-popular e soberano de país que visava à conquista pelo Brasil de uma posição estratégica como ator destacado na geopolítica internacional, juntamente com a radicalização da democracia brasileira ao criar condições internas para o acesso das massas populares a melhores condições de salário, moradia, educação, lazer, alimentação, saúde, acesso ao crédito e participação política. O Golpe de 2016 mirou justamente o aniquilamento deste projeto político popular para implantar o sistema de interesses econômicos e políticos (neoliberalismo) da classe dominante nacional aliada aos interesses do Capital internacional e das grandes petrolíferas multinacionais, de olho nas riquezas do Brasil, por meio das contrarreformas previdenciárias, trabalhistas, pela entrega do patrimônio nacional mediante privatizações de empresas estratégicas e do meio ambiente.

Ocorre, como lembra Casara, que para atender aos fins impostos pelo neoliberalismo econômico, sistema no qual tudo é transformado em mercadoria, para o qual a finalidade da existência humana consiste na obtenção da maximização do Valor, um Estado necessita assumir a feição de um Estado penal, cada vez mais forte no campo do controle social e voltado à consecução dos fins almejados pelos detentores do poder econômico. Fins que levam à exclusão social de grande parcela da população, ao aumento de todas as formas de exploração e violência, incluindo a violência estrutural produzida pelo próprio Estado neoliberal. (CASARA, Rubens Roberto Rebello. Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017).

Neste tipo de Estado, chamado por muitos autores de “Estado pós-democrático”, ao se tornar instrumento de materialização desse novo paradigma que não tem nenhuma preocupação com a democracia nem com o exercício do poder limitado pela Constituição, o Poder Judiciário passa a ter um modo de ação mais voltado à proteção dos interesses da classe dominante em detrimento do texto constitucional que se torna um mero e simples detalhe na realidade jurídica. (RODRIGUES, Eder Bomfim. Estado pós-democrático, lawfare e a decisão do TRF-4 contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. https://www.jstor.org/stable/j.ctvn96ggq.13. Último acesso em 30/12/2021).

Portanto, eis a gravidade do momento histórico, requerendo da base da sociedade brasileira uma tomada de posição corajosa e decidida no sentido fortalecer a luta pelo retorno em 2022 do projeto político democrático e popular, elegendo novamente Lula Presidente. O Partido dos Trabalhadores, fundado por Lula, nasceu da necessidade, sentida por milhões de brasileiros e brasileiras, de ter uma representação própria, independente dos partidos da classe dominante, para intervir na vida política, mirando a transformação do país numa democracia socialmente avançada, baseada no desenvolvimento econômico sustentável, vinculado a um amplo processo de distribuição da renda e da riqueza produzida coletivamente pela classe trabalhadora das cidades e dos campos.

Partindo das análises acima, nasceu aqui no Ceará, em agosto de 2021, o Movimento PT LÁ E CÁ, buscando ser um espaço de reflexão e ação, aglutinador da militância petista aguerrida e de diversas tendências internas, em torno da necessidade da retomada do projeto político democrático e popular. A centralidade do PT LÁ E CÁ reside na determinação de eleger não somente Lula presidente do Brasil, mas simultaneamente eleger um Governo Petista no Ceará, capaz de garantir aprofundamento da democracia e a dinamização da participação popular nas decisões que dizem respeito às suas vidas, colocando em movimento o modo petista de governar.

Neste final de ano, tivemos a oportunidade de conversar com três lideranças de juventudes integrantes do Movimento PT LÁ E CÁ. Passamos agora a registrar alguns pontos de destaque desses nossos colóquios.

Para Matheus Figueiredo, de Fortaleza, coordenador estadual do Núcleo Popular, “é a juventude brasileira a geração mais agredida, oprimida, presa e morta pelo recrudescimento do Estado policial. Justamente por ser a geração mais atingida por tais violências, é a que mais resiste e enfrenta as contradições impostas pela conjuntura golpista. Sobrevivendo, resistindo, mas encontrando forças para contra-atacar e contribuir na construção de um mundo onde se possa sonhar com novos e melhores dias”.

Destaque-se também a avaliação que Matheus possui do governo Camilo Santana: “Aqui no Ceará vivemos um governo conservador, com alguns lampejos progressistas. Portanto, menos ruim que o cenário nacional, mas ainda muito distante de uma realidade desejável. É preciso avançar bastante”.

E conclui: “O Movimento PT LÁ E CÁ afirma, para  toda a militância que convive com tais contradições, que não podemos ficar parados. É possível eleger Lula e ao mesmo tempo eleger um Governador petista, sem depender dos Ferreira Gomes que se utilizam da corrente majoritária para a manutenção dos seus interesses. Afirmamos que é possível semear novos tempos quando são cultivados pelas mãos do povo”.

O outro jovem é Rafael Silva, liderança do município de Juazeiro do Norte. Segundo ele, “a importância do Movimento PT LÁ E CÁ está no resgate histórico da conexão da base partidária em todos os níveis: tanto a base mais orgânica quanto a base apenas simpatizante do partido, uma vez que estão se reabrindo os espaços para as opiniões, os debates, a produção e partilha das ideias. É um movimento que nos enche de esperança no debate libertador para o conjunto das forças que propugnam o fortalecimento da democracia interna do partido. Infelizmente ainda hoje, no Ceará, constata-se que apenas duas ou três figuras detêm as decisões do partido”.

Por fim, segue a impressão de Pedro Silva, de Fortaleza, membro do Conselho Nacional de Formação de Juventude do PT: “O que fazer em 2022? Avancemos. Precisamos ampliar o debate e levar as ideias adiante. Não ter uma candidatura própria ao governo do Ceará é abrir mão de algo que é nosso, seria uma irresponsabilidade histórica. Todas as pesquisas apontam que a população quer de volta o PT no poder. Querem a nossa forma de cuidar das pessoas, de todas as pessoas. Portanto, nossa obrigação é avançar. É isso que o Movimento PT LÁ E CÁ vem nos provocar a agir, a partir das bases”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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