Jornalista diz que temporada de caça começou

(Trecho final de artigo publicado em www.jornalggn.com.br sobre a prisão de Garotinho por um delegado da Polícia Federal de Campos)

“…Campos já foi uma das maiores produtoras de cana de açúcar e estive lá em 1996, para uma reportagem sobre trabalho infantil que acabaria recebendo o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.

Encontrei crianças no canavial, comandada por feitores que se deslocavam de cavalo, enquanto elas, de facão na mão, deitava as canas, sob sol inclemente.

Algumas delas tinham dois anos de escolaridade. Foram justamente os anos em que vigorou na cidade um programa patrocinado por uma fundação alemã, em parceria com a prefeitura de Campos.

A prefeitura repassava aos pais dos alunos um dólar doado pela fundação alemã para cada dia de frequência das crianças na escola. Graças a isso, pais tiraram os filhos do canavial e a colocaram no banco da escola.

Fiz as contas e escrevi que era relativamente barato tirar as crianças do trabalho – 22 dólares por mês. O assunto ganhou repercussão nacional e o bolsa escola, pioneiro em Campos, já em vigor no Distrito Federal, se expandiu até virar o bolsa família.

O prefeito que fez esse convênio com a fundação alemã era Garotinho, que depois se elegeria governador do Rio de Janeiro – programa social dá voto. O prefeito que veio em seguida não deu sequência ao programa, naquela ocasião.

O que aconteceu em Campos agora, com a prisão de Garotinho e o engajamento do delegado da PF na campanha eleitoral, é o reflexo do que acontece num plano maior.

O delegado que chefia a Lava Jato, em Curitiba, participava de um grupo no Facebook, antes da eleição presidencial de 2014, chamado Organização de Combate à Corrupção, que tinha como símbolo a caricatura de Dilma e uma faixa vermelha com a frase “Fora, PT!”.

Um subordinado desse delegado postou foto ao lado de um alvo cravejado de balas. No centro do alvo, o rosto da então presidente da República.

Quem pensa que a Lava Jato era um assunto local, restrito a Curitiba, se enganou. Quem acha que Garotinho é um assunto paroquial, restrito a Campos, também pode estar equivocado. A caça já começou. Quem será o próximo alvo?

Jornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquim.gil@ig.com.br

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