João: Silêncio – por RENATO ÂNGELO

– Bim bom, bim bim…
O meu coração pediu assim…

Um eloqüente silêncio
Soou qual estrondo
Em meio ao buzinar frenético
Cacarejar de ocas mentes

Lembrou-nos de outrora
Tempo da Colônia Grande
Equilibrando no talento da arte
A torta balança do império

O violão-pandeiro…
O sussurro ganhara o mundo

– Bim bim, bim bom…
Sua batida deu o tom
Ao tom do Tom…
O delicado de sua voz
Ainda mais amor levou
Aos versos do “poetinha
Amor, sorrisos… flores

Flores luzentes de alma
Arando terras inóspitas, sem espírito
Fertilizando na vala da palavra
Novos perfumes brasileiros
Na síncope de mãos artesãs

Era o samba que saiu da Bahia
Desceu o morro no Rio
Decolou do Corcovado
Deu corcovas à Metrópole
Que assim ao talento nativo
  [se prostrava

O homem-docilidade
Vivendo a arte total
Sendo, assim, integral
Violão e homem em fusão
Uma só coisa… uma coisa só
Uma nova espécie: Violomem
Que menos homem e mais artista sendo
Assim mesmo nos preenchia de humanidade

– Bim bom, bim bim…
O meu coração pediu assim…
Uma “pecha” de desafinado….
Voz “pequena”…
Gênio genioso?
Temperamental…
Temperamentando nossos ouvidos
Com raras especiarias da Bahia
A Rolleiflex sonora
Fotografando em um dia azul
O blues… nossa ingratidão

Mais graça, ainda, à moça deu
Fez universal o prosaico da zona sul
Ao seu estilo até deram nome
Crônica musical de um Brasil
(mas não de todos os Brasis –
Nem os com Z, nem os com fome)

Quando sem cantar estava
Estranhas as palavras lhe fugiam
No palco habitat
O artista brinca
Com acordes… com ritmos
Com dessincronia harmônico-melódica
Proposital…
Pura metáfora…

Aquela voz-sussurro
Esculpindo o som etéreo no ar
Com o cinzel do cochicho
Sem vibrato, fazendo vibrar
Os corações

É impossível ser feliz sozinho

– Bim bom, bim bim…
O meu coração pediu assim…

O homem é louco?
É louco o artista?
É eremita?

Louco é o homem
Que do mundo se isola?
Ou louco é aquele que finge ter sentido
A vida de gritos, vaidades… incivilidade?
Ninguém parece compreender o artista
E precisa?
Amemos sua obra!
Um remédio que se toma pelo ouvido…
O jovem de ontem
Adotou sua posologia
O de hoje apostasia

Mas o artista se depura
Mais essencial ainda seu canto torna
A ultra-técnica…
Crème de la crème
Longe das agruras da matéria
Aonde ia?
Ilha da arte?
De barquinho?
Do vil metal e do banco, fugia…
(Preferindo um banquinho?)

Com silêncio – surge para o mundo
Descortina sua fala diamantina
Pétalas em forma de som
Veludo comunicação

Com silêncio – viveu a fama
Desejo e desagrado ambíguo
De chamar atenção

Com silêncio – o ocaso viveu
Uma morte em vida
Uma oniausente lenda viva
O último da santíssima trindade
Uma divindade Bossa Nova

Vai! Meu Orixá do Silêncio!

Que com teu canto deixa meu país
Aquarelas em branco e preto…
Um país de berros autoritários…
Um séquito de falsos ídolos

A nação que, agora, segue o vazio
Que atenta só a quem alto grita
Hoje muda fica…

Vai minha tristeza!

Façam silêncio, por favor!
Aqui Jazz… Samba-Jazz…

– Bim, bom , bim bim
Meu coração pediu assim…

[Em silêncio]

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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