João Donato, a bossa e outras bossas

Nunca vi Donato errar uma nota. É perfeito.

(João Gilberto, sobre João Donato.)

Desde a morte de João Donato, nessa segunda-feira, aos 88 anos, finalmente a imprensa brasileira parece ter compreendido o que o pianista, acordeonista e arranjador musical acreano representou para a MPB, a concluir pelo significativo espaço que os grandes jornais dedicaram ao que terá sido uma das maiores perdas da música popular nesses muitos anos.

O fato, que, por um lado, repara o quase absoluto silêncio a que João Donato fora condenado nos últimos anos nos principais cadernos culturais do país, por outro, ensejou um insaciável desejo de enquadrar esteticamente um artista que sempre recusou rótulos ou classificações de superfície.

Daí a se querer negar sua participação em movimentos marcantes da música popular brasileira, a exemplo da bossa nova, no entanto, vai um abismo de diferença, mesmo porque, acima de tudo, João Donato não só esteve presente nos grandes eventos bossanovistas, como foi um dos responsáveis pela construção do movimento a partir de experiências musicais inovadoras: integração de melodia, harmonia, ritmo e contraponto nas composições; uso da pausa, do silêncio, como elemento sonoro, no que foi sublime; exploração de fraseados melódicos de origem jazzística, entre tantos outros aspectos característicos do estilo.

Nesse sentido, causou-me estranhamento o artigo do jornalista Luís Nassif, publicado em 18 de julho, no GGN, sob o título “João Donato não foi um dos pais da bossa nova”.

Amparando-se no escorregadio critério cronológico, o que dá evidência ao precipitado da avaliação, o articulista diz: “… Não foi [um dos pais da bossa nova]. Não participou do movimento, mudou-se para os Estados Unidos no ano do lançamento do LP pioneiro de João Gilberto”. Vai adiante no seu juízo equivocado e atribui à ignorância musical de Ruy Castro o entendimento de que João Donato participou da bossa nova. É que o nome de João Donato (afirmação minha) aparece 38 vezes no aclamado “Chega de Saudade, a História e as Histórias da Bossa Nova”, livro com que Ruy Castro faz um importante apanhado dos eventos que marcaram a gênese e o surgimento do movimento bossanovista.

Ora, a afirmação de Nassif (jornalista que admiro muito, diga-se em tempo), apoia-se, como disse, num critério há muito superado, o periodológico, que quase sempre ignora o que realmente deve definir um movimento artístico, o estético.

Em outras palavras, ao estabelecer o lançamento do disco de João Gilberto (“Chega de Saudade, março de 1959) como marco inaugural da bossa nova, Nassif leva a crer que os estilos sofrem rupturas abruptas, sem uma gestação, um processo de formação que pode levar anos e anos até definir-se esteticamente. A confusão, sabe-se, foi um dos gargalos da crítica literária, por exemplo, o que resultou em graves equívocos na historiografia da literatura brasileira, com enquadramentos imprecisos e duvidosos de parte da produção de autores de proa: o caso de Machado de Assis, para citar um dos mais significativos.

Voltemos a Donato.

Com seu artigo, insisto, Luís Nassif prestou um desserviço aos amantes da MPB, nomeadamente àqueles que não tiveram a oportunidade de ler textos incontornáveis sobre a bossa nova. Cito de memória, aqui, trabalhos notáveis, como os de Brasil Rocha Brito, Júlio Medaglia, Gilberto Mendes ou, mesmo, os que indiretamente trazem relevantes reflexões sobre o movimento, com destaque para os de José Ramos Tinhorão e Zuza Homem de Mello. Deste último, destaco “Amoroso, uma biografia de João Gilberto”, livro sobre o qual publiquei artigo neste espaço.

Se não é aconselhável emprestar-lhe o rótulo de bossanovista, pois que sempre foi maior que pechas de qualquer natureza, não se lhe faz justiça negar a João Donato os muitos méritos que teve como um dos precursores do movimento. Fundindo bases estéticas da bossa nova a ritmos caribenhos, indo do mambo à salsa, do cool jazz ao samba-canção, João Donato formou com João Gilberto, Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlinhos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Johnny Alf, Vinicius de Moraes, entre outros, o que se pode compreender como a gênese da bossa nova, e seu nome aparecerá com destaque em qualquer livro de história da música popular brasileira de todos os tempos.

Viva João Donato.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica