JOÃO CANDANGO – por Duarte Dias

Homem de gestos calmos e fala mansa, compassada, João Candango completou 84 anos em maio último, numa celebração modesta ao lado da esposa Janaína e do único filho do casal, Raimundo, dono de um pequeno supermercado em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal.

Natural de Quixeramobim, cidade do interior do Ceará, João Candango – que assina oficialmente João Expedito de Sousa – não teria absolutamente nada que o distinguisse dos milhares de trabalhadores que vieram de todas as partes do país para a construção de Brasília nos idos de 1950, isso se não fosse um único e exclusivo detalhe: ele foi o primeiro trabalhador nordestino a por, literalmente, os pés no solo da futura capital do país, segundo seu próprio testemunho.

“É verdade que o transporte em que cheguei vinha cheio de nordestinos, a maioria jovem que nem eu, mas fui o primeiro a pular do caminhão e a botar o pé nessa terra, que nem aquele astronauta americano fez lá na lua. E o que vale é isso, não é?” – diz, com ar tranquilo e soberano.

Bem alojado em uma rede disposta na ampla varanda de sua casa, João Candango não parece incomodado com os vários equipamentos de gravação que lhe circundam, tampouco com a equipe ou mesmo com a minha presença inquisitorial,  dada a intenção de colher uma boa história de um personagem que me chegou através da dica de um amigo em comum que sabia do meu interesse em fazer um documentário sobre os primeiros habitantes de Brasília.

“Veja bem, quando eu cheguei aqui não tinha nada, nada mesmo, nem mesmo um lugar pra tomar banho. A gente teve que erguer barracão pra se abrigar e improvisar um banheiro no meio do mato seco. Era um poeiral só, mas, vindo de onde eu vim, isso era fácil de suportar.” – diz João, parando em seguida para tomar um longo gole de água em sua caneca de alumínio.

“E como era o lugar de onde o senhor veio?”, pergunto.

“Um lugar difícil, de trabalho duro, pouca água e quase nenhum dinheiro. Mas de um povo muito trabalhador, sabe? Lá era assim. E a gente tinha a sorte de ter um patrão bom, honesto. Quando foi pra eu vir embora fui falar com ele, que também era o doutor da região, cuidava de todo mundo. Ele era amigo do meu falecido pai e de um tio meu chamado Jônatas. Eles tinham sido muito unidos na juventude, tão unidos que meu pai pediu para ele ser meu padrinho e ele aceitou. Fui falar com ele pra pedir permissão pra vir pra cá.”

“E precisava de permissão?”

“Naquele tempo precisava sim. Era uma época de muito respeito dos mais moços com os mais velhos, e além do mais ele era meu padrinho e também meu patrão, então eu devia satisfação a ele. Como o meu pai já tinha me liberado, fui falar com ele. Eu tinha escutado no rádio que o governo tava precisando de trabalhador pra fazer a nova capital da república, que era Brasília. Tinha uma promessa de muito trabalho e de um salário muito bom. Era uma grande oportunidade pra quem só tinha 20 anos que nem eu e ainda não tinha filho pra criar, só uma namoradinha, a Rita, que acabou ficando por lá.”

“E o seu patrão reagiu bem quando o senhor disse que queria ir embora pra trabalhar na construção de Brasília?”

“Sim, reagiu bem. Era meu padrinho, queria meu sucesso. Me viu nascer, né? Viu que eu era um rapaz sério, gostava de trabalhar, não bebia, não tinha vício, não fazia molecagem. Então só me deu uns conselhos que eu nunca esqueci, além de um dinheiro para bancar minha viagem e alimentação.”

“Que tipo de conselhos ele lhe deu?”

“Falou pra não me iludir muito com essas histórias do governo, de nova capital, nova vida, salário bom, essas coisas. E pra servir de exemplo ele falou do meu tio Jônatas, que ainda jovem tinha ido embora de lá com a promessa do governo de que ele ia ganhar muito dinheiro nos seringais da Amazônia, isso na época daquela guerra grande que teve, quando os americanos vieram pra cá. Esse meu tio se destacou do sertão direto pra selva, pra virar ‘Soldado da Borracha’. Nunca mais ninguém teve notícia dele. Nem dele nem dos outros de lá que foram com ele. Depois ficamos sabendo que a maioria morreu de doença da floresta, alguns com flechada de índio, outros comidos pelos bichos, um tanto de acidente, tudo sem amparo nenhum do governo, que sequer pagou indenização pras famílias. Meu tio deve ter sido um desses que morreram cedo e foi por isso que meu padrinho disse que eu devia sempre me lembrar disso, pra não cair nas mentiras que o governo gosta de inventar pra enganar os bestas, que nem tá fazendo agora.”

“E quando você chegou aqui e não viu nada, achou que ia ser enganado como o seu tio Jônatas?”

“Mais ou menos. Cheguei desconfiado, mas eu sabia que tudo ainda ia ser feito. Só não imaginei que não tivesse nada ainda, nem um banheiro pra dar privacidade, se bem que no começo aqui só tinha homem, não tinha um pé de mulher. Aí, nesse primeiro momento fiquei preocupado, mas depois a coisa foi acontecendo, foi chegando mais gente, as máquinas foram sendo trazidas pra cá, os engenheiros começaram a organizar aquela confusão toda, o pagamento saía em dia e aí a gente viu que a coisa ia realmente acontecer.”

Dona Janaína entra em cena trazendo uma bandeja com café e algumas tapiocas com nata, herança que trouxe das terras do Norte, de onde veio aos 16 anos, já no início dos anos de 1960.

“E nesse começo de tudo, o que o senhor fazia?”

“Eu fazia de tudo, né? Quer dizer, no começo mesmo eu só fazia trabalho pesado, já que não sabia fazer nada de especial. Então eu carregava areia, tijolo, madeira, misturava massa, cortava árvore… O que fosse preciso fazer eu fazia. Depois, com o passar do tempo, fui aprendendo algumas coisas mais difíceis, que precisavam de um certo jeito, e aí passei a rebocar parede. Era muito bom nisso. Eu prestava muita atenção, era forte, disposto, e logo me destaquei no meio da peãozada. Nessa época fui chamado pra trabalhar no barracão principal, onde ficavam os chefes da engenharia e os arquitetos.”

“O senhor chegou a conhecer alguém importante nesse período?”

“Pra mim todo mundo era importante, mas naquele tempo tinha uns mais importantes do que os outros, como o doutor Oscar (Niemeyer) e o presidente Juscelino (Kubitschek), que sempre que vinham pra Brasília ficavam praticamente o dia inteiro no barracão, ou então andando pra vistoriar as obras.”

“O senhor teve contato com eles?”

“Tive sim.”

“E como eles eram?”

“Era tudo gente boa. Eram sérios, ficavam dizendo como as coisas deviam ser feitas, eram exigentes, mas depois do serviço gostavam de trocar prosa com todo mundo, perguntando de onde vinha cada um, qual era a idade, do que gostava, se tinha filhos. O seu Oscar era o que mais queria saber das coisas. Já o seu Juscelino, quando demorava um pouco, mais ouvia do que perguntava, sempre com um sorriso no rosto. Acho que tinha um certo medo de que o pessoal começasse a pedir as coisas pra ele, daí ele falar menos que o doutor Oscar. É natural, né?”

“Qual era a sensação de fazer parte da construção da capital do Brasil?”

“Boa. A gente entendeu que era uma coisa importante. E quando os prédios começaram a subir aí foi que deu pra ver que ia ser uma coisa diferente mesmo, assim meio estranha, um negócio esquisito, muito grande, mas bacana. E eu tenho pra mim que pelo menos um dos prédios de Brasília nasceu por conta de uma experiência que eu tive em um passeio que fiz de noite, lá nas margens do rio Paranoá.”

“Como assim?” – pergunto, curioso.

“Era uma noite de lua cheia, céu claro, e naquela época o céu ficava ainda mais claro do que hoje, pois aqui não havia nada. Eu tinha ido dar uma volta lá pelos lados do rio, tinha ido com uns amigos que gostavam de pescar. Eles tinham entrado num barco e, como eu não sei nadar, resolvi dar uma volta alí por perto, pra passar o tempo. De repente, assim como do nada, surgiu um bicho medonho no céu, tipo um liquidificador voador, afunilado e cheio de luzes, girando ao redor dele mesmo. Eu, de tão espantado com aquilo, fiquei paralisado, sem saber o que fazer. Até que pensei em correr, mas cadê que eu tinha perna pra isso?!”

“O senhor tá dizendo que viu um disco voador às margens do rio Paranoá?”

“Se era um disco voador eu não sei, até porque parecia mais um liquidificador, mas que era coisa de outro mundo, era, pois nunca vi nada igual nem antes e nem depois daquele dia. Eu me lembro como se fosse hoje: o bicho lá, suspenso no céu, girando e girando com aquelas luzes coloridas, até que de repente subiu duma vez, numa ligeireza que não é desse mundo, e sumiu no céu! O pior é que eu pensei que todo mundo tinha visto aquilo, já que era um troço muito grande e cheio de luzes, né? Que nada! Quando fui perguntar pros meus amigos, ninguém tinha visto coisa nenhuma e ficaram foi debochando de mim, dizendo que eu tinha bebido, sendo que eu nunca bebi na vida. Depois disso eles passaram a fazer troça comigo e me apelidaram de ‘João Liquidificador’. Ainda bem que o apelido não pegou, mas fiquei marcado com essa história.”

“O senhor me perdoe, mas o que isso tem a ver com a sua influência na criação de um prédio aqui em Brasília?”

“É que de tanto o povo fazer troça comigo a conversa acabou chegando no ouvido do doutor Oscar. Ele, que sempre que podia gostava de trocar umas ideias com todo mundo, veio me procurar e pediu pra eu contar a história toda pra ele, o que fiz assim meio que envergonhado, né? Afinal de contas eu tava diante do doutor Oscar, o homem que tinha pensado aqueles prédios todos, que tinha muita sabedoria e muito poder nas mãos… Vai que ele achasse que eu era doido ou mentiroso, né? Podia me mandar embora dali e eu não queria mais voltar pro Ceará, apesar de amar a minha terra. Seria uma desmoralização grande se isso acontecesse, de voltar com o rabo abanando, sem ter conseguido nada.”

“E qual foi a reação do Oscar quando você contou o acontecido?”

“Foi de muito respeito. Ele prestou muita atenção, quis saber os detalhes, o lugar onde eu tinha avistado a coisa, o horário, o tamanho, o formato… Pediu até pra que eu desenhasse pra ele, pra ele ter uma ideia de como era aquele negócio todo.”

“E o senhor desenhou?”

“Desenhar desenhar eu não desenhei não, porque sou muito ruim de traço, mas fiz lá uns riscos no chão, mostrando mais ou menos o que eu tinha visto, e ele prestou muita atenção, ficou muito impressionado. Aí depois eu vi que ele tinha tomado aquilo tudo como uma ideia, porque depois ele apareceu com o desenho de um prédio novo que era muito parecido com os garranchos que eu tinha riscado pra ele.”

“E que prédio era esse?”

“A catedral de Brasília! É ela todinha, igualzinho ao negócio que eu vi rodando no céu! O senhor pode reparar como ela se parece com um liquidificador, com aquela parte de baixo mais larga, que vai afinando enquanto sobe, e com aquelas colunas separando os vidros coloridos que estão no lugar das luzes que eu vi. Ele, com o talento que Deus lhe deu, transformou minha assombração numa igreja! O melhor é que depois do dia que ele mostrou o desenho lá no barracão nunca mais ninguém me chamou de ‘João Ventilador’. Virei João Candango.” – diz, pensativo. “Doutor Oscar… aquele sim, era um grande artista.”

Duarte Dias

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador, fotógrafo, cantor e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum, "Jardim do Invento" (https://goo.gl/Ha3mZh), em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, atualmente desempenha as funções de programador e curador do cinema do Cineteatro São Luiz e de Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

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