Jesus Cristo, o revolucionário de Deus

“Não são os que têm saúde que precisam de médicos, mas sim os doentes; eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”

Jesus Cristo

​Sim, Jesus Cristo era filho de Deus! Assim como eu e você que neste momento lê este artigo, e tantos outros que já não estão mais entre nós. Para mim o Universo é Deus, e como sou uma ínfima partícula deste universo, sou também filho de Deus. Os demônios são os erros meus.
​Em assim sendo, nós somos, todos, parte em constante mutação desse universo cósmico cujo mistério da criação e existência não nos é permitido formatar de modo absolutamente preciso (ou até mesmo em conjectura).

​As religiões, nos seus mais diversos dogmas e doutrinas teológicas, encarregam-se de formatar Deus e seus critérios existenciais; a mim, no primarismo teológico de incredulidade materialista, não me cabe adentrar por esta seara.
​Mas o nascimento de Jesus Cristo, cuja data se aproxima de 2021 anos, é o fenômeno social mais significativo da humanidade desde a civilização grego-romana, tanto no campo religioso (criação da religião monoteísta) como no campo social, vez que contestou as relações sociais escravistas de produção vigentes para refletir sobre a subjetividade da vida e valores comportamentais de então.
Jesus Cristo foi um revolucionário, ainda que se queira abstrair o conteúdo tido pelos cristãos como sagrado do seu surgimento, até porque a religião e a vida social, desde há muito, e ainda agora, andam de mãos dadas definindo regras comportamentais e modos de relações sociais humanas.

​Mas aqui quero me ater ao conteúdo revolucionário de Jesus Cristo diante da poderio bélico romano contra o qual se insurgiu com teorias de partilha da produção social e convivência pacífica e tolerante, e que pelas quais foi condenado à morte e crucificado, com o beneplácito popular manipulado pelo poder imperial romano.

​O que dizer do conteúdo metafórico desdenhoso de quem diz que o poder de César, representado pela força bélica, pela propriedade (o direito romano já era suficientemente desenvolvido e capaz de criar firulas jurídicas injustas e opressoras) e pelo dinheiro dos impostos, lhe era estranho, justamente porque o conceito de vida que queria exaltar era diverso daquele, e propunha fraterna partilha da riqueza socialmente produzida, daí a frase “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”?

​O que dizer de alguém que condenou a hipocrisia machista de então que permitia aos homens o direito a um harém de mulheres e concedia a estes o direito de apedrejar a mulher adúltera, quando pediu que quem não tivesse pecado atirasse a primeira pedra?

​O que dizer de alguém que pugnou pela proteção das crianças quando disse “deixai vir a mim as criancinhas, pois é delas o reino dos Céus”?

​O que dizer de alguém que sabendo do poderio militar das legiões romanas que a todos subjugavam (na cidade de Roma, com cerca de 1 milhão de habitantes, 80% era composta por escravos) e diante da impotência militar dos oprimidos pregou uma teoria pacifista minando a credibilidade da força militar dizendo que se desse o outro lado da face quando esta fosse atingida, consciente do poder de uma nova força oriunda da consciência libertadora que estava a pregar?
​O que dizer de alguém que colocou desconfiança na cabeça dos opressores, num mundo marcado pela crendice religiosa, quando disse que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no reino dos Céus”?

​O que dizer da inteligente metáfora sobre a hipocrisia na parábola sobre o cisco no olho quando disse “… Por que vês o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que tens no teu? Ou como poderás dizer a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão”?

​Nada mais hipócrita na sociedade atual do que o conceito de honestidade, vez que sob a sociedade do capital vige uma desonestidade oficial, amparada por lei, que permite que alguém possa acumular para si toda a riqueza abstrata produzida pelos trabalhadores que emprega, e ainda se jactar de benfeitor dizendo proporcionar empregos salvadores, mas pune quem rouba comida para alimentar um filho faminto?
​Há uma parábola de Jesus Cristo que trata do mal da ambiguidade de quem quer servir a todos os lados, até os aparentemente antagônicos, e que na verdade somente serve a um deles, como alguém que ganha a confiança de um dos lados para servir verdadeiramente ao outro.

​No sindicalismo se cunhou a expressão “pelego” (manta usada pelos montadores de cavalos no sul do Brasil para amortecer o choque com o lombo do animal) para caracterizar o dirigente sindical que aparece como defensor dos direitos do trabalhadores, mas apenas amortece o choque na disputa pelo dinheiro que envolve a relação capital/trabalho dentro de um mesmo espectro de natureza existencial.

​Os sociais democratas burgueses, que se dizem anticapitalistas, são o melhor exemplo da ambiguidade nociva condenada por Jesus Cristo na parábola sobre o tema, quando afirmou “ninguém pode servir a dois Senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza”.

​Metaforicamente dizia Jesus Cristo: ou se serve a César ou se é contra ele.
​Atualmente, todos nós somos subjugados a viver e produzir sob regras capitalistas, trabalhando e produzindo o valor que vai ser apropriado pelo capital, sob pena de não podermos nos sustentar economicamente e materialmente.

​Mas podemos, tal qual fez Jesus Cristo, subverter essa lógica inteligentemente, praticamente, conscientizando-nos sobre a negatividade dos conceitos vigentes e condenando-a, e solaparmos aquilo que hoje representa uma tragédia para a humanidade, que sequer se apercebe do razão do ser do mal que a aflige transferindo para questões de mau gerenciamento político uma questão que diz respeito à natureza de um modo de mediação social que chegou ao seu limite de saturação.

​Defender o desenvolvimento econômico, como todos fazem, é não ter consciência do mal em si, ou agir conscientemente do mal que isto é capaz de produzir, o que é bem pior.

​É como se Jesus Cristo dissesse: posicione-se, ou você é opressor e faz o jogo do império romano (agora o capitalismo), ou vai servir a outro Deus que contesta a riqueza abstrata (a emancipação sob outro modo de produção social).

Os partidos políticos de esquerda não podem continuar servindo ao capital sob a farsa (bem intencionada ou não) de combatê-lo.

A pretensa defesa dos interesses trabalhadores sob a institucionalidade burguesa, mantendo tal categoria sob a subjugação intrínseca ao capital sem questioná-la na sua essência, é a traição à verdadeira emancipação humana, pois apenas representa a servidão velada, consensual, útil à manutenção da opressão contida nessa relação.

​É claro que o contexto social sob o qual viveu Jesus Cisto era profundamente místico e o poder usava as crendices populares como forma de se afirmar supra-humano. A concepção divina de que seriam dotados os governantes era uma forma de se impor obediência aos súditos diante de uma poder sobrenatural capaz punir quem não obedecesse.

​Assim, Jesus Cristo, ousou contrariar as divindades estabelecidas para afirmar uma divindade de justiça social, de amor ao próximo, de virtudes humanas coadunadas com o senso de justiça baseado numa moral atemporal, fazendo uma correlação disso com exemplos práticos por parábolas.
​Para tanto criou a ideia de um reino no qual a verdadeira riqueza é imperecível e impossível de ser roubada pelos poderosos, tratados por ele como vermes.
Ora, numa sociedade da partilha da riqueza material produzida e apropriada coletivamente, igualitariamente, como pregava Jesus Cristo, haveria uma imunização consistente contra a tirania de alguns poucos, e tal ideia foi expressa metaforicamente na frase “procurai também vós o tesouro imperecível, que se encontra lá onde as traças não se aproximam para comê-lo nem os vermes o destroem.”
Os ensinamentos de Jesus Cristo eram de tal forma revolucionariamente fortes que apesar de toda a perseguição do império romano, forjou-se em encontros furtivos, conspiratórios, marcados pela simbologia de senhas (como o desenho dos peixes), muitas vezes em lugares não vigiados (como as catacumbas dos cemitérios), e sobreviveu pela séculos seguintes à sua morte numa propagação missionária do bem.
A institucionalidade do poder escravista somente pode ser subvertida fora dela.
É por isso que há uma máxima da guerra que diz: se não podes com o inimigo junte-se a ele. Foi assim que trezentos anos após a morte de Jesus Cristo, o cristianismo se tornou religião cristã oficializada pelo poder institucional do Estado, e de modo a que os conceitos revolucionários contidos nas parábolas de Jesus Cristo pudessem ser eficientemente manipulados, como fora a sua própria condenação à morte por crucificação.

Jesus cristo foi o maior fenômeno da chamada moderna civilização (que ainda está fincada na pré-modernidade e no atraso moral e ético) e o conteúdo de suas parábolas, entendidas como metáforas libertadoras, têm conteúdo atualíssimo.
Mas, sob o domínio das religiões, creio que se ele pudesse reencarnar atualmente, e voltasse a fazer as suas pregações revolucionárias contra a decadência atual, seria novamente crucificado, inclusive por aqueles que usam o seu nome em vão.
Da mesma forma, entendo que se Karl Marx pudesse ressuscitar, expulsaria do templo os deturpadores vendilhões de seus ensinamentos, e certamente seria mandado para o desterro pelo Partido Comunista.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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