« Je ne suis pas un homme facile » ou da inversão dos papeis de gênero, por Luana Monteiro

O filme dirigido por Éléonore Pourriat e lançado em 2018 pela plataforma de streaming Netflix – que no português recebeu o título “Eu não sou um homem fácil” – trata de um olhar desafiador e sagaz de um mundo às avessas onde a dominação de gênero é realizada pelas mulheres.

Na inversão descrita na obra fílmica, todos os aspectos reconhecidamente machistas expressados no cotidiano são mantidos, mas é a mulher que profere um machismo egocêntrico enquanto os homens repetem-no de modo servil.

O ponto de partida do filme se dá ainda na realidade dominada pelos homens com a contextualização da história de Damian, o protagonista que, no auge de seus trinta anos, trabalha numa agência desenvolvendo aplicativos misóginos para relacionamento. Um homem que traz, desde a infância, o trauma de ter sido rejeitado e passa a pautar todo o seu “potencial masculino” na quantidade de mulheres com as quais consegue sair.

Damian desconhece o feminino e muitas das principais questões que permeiam os diferentes processos de seu desenvolvimento social. Como um recalque, seu trauma de infância o persegue feito sua sombra.

À medida que ele investe na aproximação, consegue o distanciamento com as mulheres, uma vez que encena constantemente o papel do “conquistador” com aquelas que cruzam seu caminho. O personagem representa a figura dos que desenvolveram um desejo egoísta pautado nas relações do consumo imediato e do descarte estabelecidos na sociedade da informação. Estranhamente, Damian trata com indiferença o que mais busca: a conquista do sexo oposto.

No enredo, após bater a cabeça e acordar em uma realidade dominada pelas mulheres, o protagonista se apaixona por alguém que o havia rejeitado no mundo normativo masculino. Alexandra, no mundo avesso, é uma pessoa aproveitadora e insensível que faz de suas relações números.

Alexandra e Damian vivenciam processos de estranhamento diante da postura do outro ao longo do filme. Nota-se que o romance dificilmente se desenvolverá entre os dois enquanto ambos mantiverem posturas que subjugam seu diferente. O comportamento dominador não muda com a mera troca de papeis.

Alexandra e Damian se veem em realidades onde a exploração sexual do corpo é o imperativo social. A sexualidade aflorada no sentido do mercado, itens infindáveis utilizando-se dos corpos para vender simbolismos em formato de perfumes, roupas, sapatos, lingeries, maquiagens etc.

É somente quando Damian vivencia a cobrança impositiva e violenta, a perseguição, o assédio, o menosprezo e culpa por ocupar o lugar do “sexo frágil” que passa a desenvolver rasgos de empatia para com aquelas com quem ele também assumia uma conduta dominadora.

No mundo às avessas, em uma das conversas com sua terapeuta, diz – “Me tornei vítima”. Ela questiona sobre o que ele era antes. “– Um abusador”, responde. No mundo masculino, enquanto Damian prescindia daquilo que ele mais buscava, esquecia de si mesmo e se concentrava apenas na possibilidade de um status social alcançado através da conquista de muitas mulheres.

Na realidade invertida, a terapeuta continua:

 

– “E não existe meio termo? Um mundo em que homens e mulheres se apoiam?”

– Silêncio.

 

Por fim, uma lição: Damian precisou vivenciar as problemáticas enfrentadas cotidianamente pelo feminino para compreender a violência que há por trás da divisão entre os sexos. A grande questão é como gerar empatia sem que necessariamente as pessoas precisem passar por situações traumáticas e violentas.

Os papeis trocados mostram-nos como a ideia da mudança do domínio de um sexo para o outro não é suficiente para romper as problemáticas e os paradigmas vivenciados por ambos. A questão que se coloca não é quem ocupa a posição de dominante ou dominado, mas o fato de ambos estarem presos numa mesma lógica polarizada que se auto sustenta. É problemático, então, defender uma postura de dominação historicamente identificada com o padrão de ação masculino para todo aquele que compartilha do feminino, porque o que não deve ser aceito é a existência de indivíduos subjugados.

Na história narrada, a experiência vivenciada pelos dois foi geratriz de processos de mudança no modo de se colocar enquanto indivíduo e de enxergar o outro. É assim que Damian, o menino que cresceu sem empatia pelo feminino, surge da multidão e convida Alexandra (quando a realidade normativa se reestabelece) a se solidarizar com as “mulheres do mundo inteiro” unindo-se aos diferentes indivíduos para transformar modos de pensar.

É um bom filme que, além de retirar aquele que o assiste da zona de conforto, ainda problematiza pequenas atitudes cotidianas dominadoras oriundas dos diferentes sexos.

 

Por Luana Monteiro.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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