A jararaca está viva, por Álder Teixeira

É de dar pena a angústia que a grande imprensa brasileira, ecoando parte de uma elite despudorada do país, vive a cada pesquisa de intenção de voto para presidente. Agora, mal divulgados os números do Ibope, que apontam um novo crescimento do ex-presidente Lula em relação ao segundo colocado, Jair Bolsonaro  —  37% e 18%, respectivamente  —, foi a vez do jornal O Globo, cuja manchete da edição de hoje, 21 de agosto de 2018,  reproduzo aqui: “Sem Lula, Bolsonaro lidera corrida eleitoral”.

Desfaçatez à parte, o jornal manipula a notícia a fim de tirar qualquer vantagem disso na sua incontida ojeriza ao candidato do PT, pisoteando os mais elementares princípios do bom jornalismo. Para a corriola de Roberto Marinho, o importante é passar para o leitor a impressão de que a disputa se dará entre Bolsonaro e um outro candidato da direita, afastada, pois, a hipótese de que Lula, como tudo indica, confirmará a presença de Fernando Haddad no segundo turno. Isso, claro, porque todos sabem: o esquema, um gigantesco conluio envolvendo imprensa, elite empresarial e o Judiciário, jamais deixará o líder de todas as pesquisas concorrer.

Na mesma edição, a propósito, O Globo traz um artigo, assinado por Carlos Andreazza, que faço questão de comentar em palavras ligeiras, imperdível que é a baboseira do articulista ao tecer considerações sobre o que considera “a estratégia político-eleitoral de Lula”. Em favor do jornalista, diga-se em tempo, a sua “análise” parte de um princípio que seu próprio patrão teima em não aceitar: Lula, mais uma vez, revela-se um político hábil, e, como que tirando leite de pedra, poderá mesmo, com certa folga, levar o seu substituto ao segundo turno.

Até aí tudo bem; o articulista trabalha com um raciocínio lógico, e, na contramão da Globo, reconhece o que vem se configurando como a única certeza do espectro político brasileiro hoje: tudo o que se fez, por mais inconfessáveis que tenham sido as “convicções” por que se orientaram imprensa, elite empresarial e Judiciário, no sentido de apagar a presença de Lula no processo, foi pouco. Mais do que nunca, ainda que preso sem uma causa que eticamente se sustente, Luiz Inácio Lula da Silva é “senhor e âncora do tabuleiro”, para usar das palavras do próprio Andreazza.

Mas o jornalista vai além. Mente, distorce, interpreta como bem entende o plano de governo do PT; considera Haddad “uma superfície plana”, como a insinuar que, eleito, Fernando Haddad trairá o que chama, apropriando-se de André Singer, de lulopetismo. Desce às profundezas da maldade; como um réptil peçonhento, cospe a um lado e outro, a fim de ser fiel ao jornal O Globo e tentar tirar proveito de sua maldade e do seu jornalismo desavergonhado. Quanto mais mexe, pior fica.

Acossado em meio às mais impensáveis maquinações para alijá-lo da seleção brasileira, há coisa de pouco mais de vinte anos, o técnico Jorge Lobo Zagallo proferiu a inusitada sentença:  — “Eles vão ter que me aturar”. Mais simples, conhecendo a linguagem do seu povo, Lula, em circunstâncias e por razões diferentes, há pouco tempo não ficou atrás:  —  “A jararaca está viva”.

E como está!

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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