Isso é a cara de Fortaleza – HADASSA CAVALCANTE

A cidade acorda e já tem seu Zé vendendo tapioca com leite de côco na calçada, já tem galo cantando no quintal da vizinha, já tem TV ligada no telejornal, já tem cuscuz no fogo pra merenda, já tem a mãe gritando no pé do ouvido dos meninos pra ir pra escola. A rua esburacada, o ponto de ônibus cheio, a topic lotada, gente frescando no sinal, o motorista apressado, uma “ruma” de moto, o buzinaço no ouvido, o valha no meio da conversa entre amigas, é a cara de Fortaleza.

Só é Fortaleza se tiver a caranguejada na quinta-feira, a Praia do Futuro lotada no domingo, a feira de madrugada na José Avelino, a terceira idade sentada nos bancos da Praça do Ferreira, a moça entregando panfleto no Centro, o vendedor de chip tentando ganhar seu pão. Os meninos correndo para as águas da Barra do Ceará, o encontro dos namorados na Ponte do Ingleses, uma reca atrás de pegar arraia caindo nos telhados.

O inverno é a cara de Fortaleza, o banho de bica, a Avenida Heráclito Graça virar lagoa, a vó brigando pra gente não tomar sereno porque pode gripar, o balde aparando a água que cai da goteira, o estudante com os livros encapados de saco plástico, a jaqueta de frio usada raramente, o banho de lama que os carros dão na gente, o bueiro entupido, a vontade que dá de passar o dia deitado na rede. Se isso não é a cara de Fortaleza, o que mais é?

De tardezinha as calçadas se enchem de famílias e amigos conversando, falando da novela, do vizinho corno, da conta de energia que aumentou. Os cachorros latem, as meninas passam com a barriga de fora e os pivetes assoviam como se tivessem chance, “vai tirar a catinga do mijo menino”. Na mesa tem café e bruaca, tem piada e o cansaço pelo dia de peleja no meio do mundo ou de quem ficou em casa cuidando dos filhos.

Quando anoitece brota gente correndo no calçadão da Avenida Beira Mar, vem artista de rua, vem turista pra assistir show de humor, vem gente tentando enfiar pacote de viagem goela abaixo. Os restaurantes lotados, os carros de luxo estacionados, o flanelinha cobrando real. Nessa parte da cidade tem beleza, mas também tem desigualdade, tem madame comprando bolsa de quinhentos reais e tem mãe de cinco pedindo esmola pra conseguir sobreviver.

Nessa cidade feita de gente do riso frouxo, de mar e sol rachando, de casarões antigos e grandes prédios modernos, de José de Alencar, Raquel de Queiroz e Maria da Penha, terra de povo que tem força e fortalece, isso é a cara de Fortaleza.

 

 

 

 

 

Hadassa Cavalcante

Hadassa Cavalcante

Graduada em Jornalismo, Mãe de dois, Vegetariana,Cristã.

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