ISMAEL SILVA NASCEU EM AGOSTO E, COM ELE, O SAMBA MODERNO, AUTÊNTICO, ORIGINAL

Ismael Silva foi importante compositor brasileiro. Enriqueceu a MPB, quando concebeu uma configuração diferente para o samba. Deu-lhe um feição mais moderna e atual, a forma como o conhecemos hoje. Na verdade, ele supera os limites desse gênero, sem recorrer à tradição do chorinho, da polca, do tango  e tantos outros ritmos. Formou um grupo de compositores da Velha Guarda especializado em samba, como voz popular do morro e dos bairros periféricos.  

Nessa trajetória de especialização, está nos seus créditos a criação das escolas de sambas. Ele fundou o primeiro bloco a desfilar pelo Rio de Janeiro, puxado por um de suas composições: Deixa falar, sucesso na década de 30. Vale observar que o carnaval existe desde o final do século XIX e começo do XX (com a música até hoje executada: Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga, apenas para lembrar).

De origem humilde, Ismael era filho do cozinheiro Benjamim da Silva e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, sendo o mais novo de um grupo de cinco irmãos de uma família pobre. Após a morte do pai, mudou-se com a mãe da praia de Jurujuba (Niterói) para o bairro Estácio de Sá (Rio de Janeiro), ali concluindo a escola primária e o ginásio aos 18 anos, depois de morar em outros bairros cariocas como Rio Comprido e Catumbi.

Gênio precoce, aos 15 anos fez o samba Já desisti, considerado como a sua primeira composição. Em 1925 teve sua primeira gravação: o samba Me faz carinhos. Essa composição promoveu sua aproximação com Francisco Alves, o Chico Viola ou Rei da Voz, nome de muito prestígio. Ao lado de Nilton Bastos, juntamente com Chico Viola, Ismael formou o trio que ficou conhecido como Bambas do Estácio e que deu origem àquele que é considerado um dos mais bonitos sambas da nossa história: Se você jurar, um verdadeiro clássico popular, gravado por inúmeros artistas da velha guarda e da nova geração.

Em linhas gerais, Ismael Silva é um personagem que compõe aquele cenário boêmio do Rio de Janeiro nos anos 30, com um talento incomparável. Tinha a sensibilidade de um compositor pobre, negro e homossexual, o que formava um perfil controvertido para a época. Isso colocou-o, muitas vezes, em vivência com o submundo da contravenção, na rotina de bares pouco recomendados, zona de prostituição e malandragem carioca.

COMPRA DE AUTORIAS

O que se conta é que Ismael foi internado e seu amigo e compositor Bide, ao visitá-lo no hospital, serviu de portador para uma proposta de Francisco Alves, que queria comprar um de seus sambas. Mais tarde, “Me Faz Carinhos” foi lançado em disco pela Odeon, trazendo o nome de Francisco Alves como intérprete e autor. Logo depois, o samba “Amor de Malandro” era lançado nas mesmas condições, de compra e venda de autoria, e o êxito alcançado levou o intérprete a propor-lhe exclusividade na gravação de toda a sua produção.

No primeiro momento,  Ismael aceitou o acordo (mais tarde desfeito), com a condição de incluir seu parceiro Nilton Bastos. Assim, vários sambas como “Não “, “Nem É Bom Falar” e “Se Você Jurar“, lançados em 1931 pela dupla de intérpretes Francisco Alves/Mário Reis, tornaram-se conhecidos pelo público brasileiro.

Após a morte de Nilton, abandonou o trio e teve início sua parceria com Noel Rosa. As dezoito composições da dupla fazem de Ismael Silva o mais frequente parceiro do Poeta da Vila. Nessa época,  Ismael, com um grupo de sambistas do Estácio, fundou o bloco e escola de samba (Deixa falar), para os desfiles de 1929, 1930 e 1931, mas não prosseguiu nesse intento, após a morte de seu parceiro Nilton Bastos, trocando o Estácio pelo centro do Rio de Janeiro.

DE FRENTE PRO CRIME

Nessa quadra, Ismael é condenado a cinco anos de reclusão. Por bom comportamento, só cumprira dois, no presídio da Rua Frei Caneca. Ele deu um tiro na bunda de um folgado, de nome Edu Motorneiro, que, segundo testemunhas, tentara estuprar sua irmã Orestina, em circunstâncias pouco esclarecedoras. 

Acontece que o crime, considerado um  “tresloucado gesto”, como anotaram os jornais dos anos 30, deu-se à porta do Café Pauliceia, esquina das Ruas Gomes Freire e Visconde do Rio Branco, portanto, á vista de todos os frequentadores. Há quem afirme que o compositor sequer acertou o tal Motorneiro. Como nos bangue-bangues, o teco passou raspando. Em suma, teria sido a tentativa dar a dimensão de um perigoso atentando ao que foram crimes contra os costumes.  

Depois deste episódio, envergonhado, ele se tornou recluso e só retornou à cena carioca na década de cinquenta. Sabe-se que durante esse período ele atravessou enormes dificuldades financeiras, embora o compositor negue essa fase negra e difícil de sua vida, em entrevistas que concederia a diversas emissoras, jornais e revistas. 

ANTONICO

A carreira do artista degringolou, consequência da onda negativa, com  a pena  que cumpriu e os compromissos com a condicional. Reconhecer essa tragédia pessoal, aceitar a própria fraqueza, rir de si mesmo, talvez fosse o que lhe restava  fazer — o que não passa de virtude do ser humano, pois a vida é normalmente a experiência de muitos fracassos. Imaginem uma figura como Ismael: pobre, afrodescendente , gay, e agora criminoso, talvez até por preconceito (veja que foi crime de tentativa e não de delito consumado). Assim, Ismael teria que fazer do limão uma doce limonada e, da queda, uma dança.   

O fato é que, saindo da prisão, na pior, desempregado, sem dinheiro, ele procurou Pixinguinha para ajudá-lo. Este, segundo testemunhos insuspeitos, era um santo, a pessoa certa e ideal. Na sequência, o autor de Carinhoso, na melhor das intenções, redigiu na máquina de escrever um pedido de colocação. Ismael omite essa solidariedade em entrevista que concedeu quando voltou a cena. Mas o arquivo do museólogo Mozart de Araújo, incorporado ao acervo do Centro Cultural Banco do Brasil, traz um bilhete datilografado de Pixinguinha ao próprio Mozart, escrito num misto de linguagem de repartição com rasgos de sentimentalismo. 

Nesse documento, o que interessa é o trecho final: “(…) razão pela qual lembrei-me de solicitar ao velho amigo para interceder junto ao Luís Simões Lopes, a fim de conseguir uma colocação para o popular sambista, que tem lutado com dificuldade de vida. Sem mais, sendo você músico e o Luís Lopes, cantor, espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim”.

Assim, como portador do bilhete, lendo suas palavras, Ismael Silva compôs uma da mais belas composições populares que o país teve oportunidade de ouvir: “Oh Antonico, vou lhe pedir um favor/ que só depende da sua boa vontade /é necessário uma viração pro Nestor/ que está vivendo em grande dificuldade/ ele está mesmo dançando na corda bamba/ele é aquele que na escola de samba/toca cuíca, toca surdo e tamborim/ faça por ele como se fosse por mim”

CHICO PRESENTEIA O IDOLO

Em 1950, com o samba Antonico, retorna à música, como artista e compositor de relativo sucesso nas duas décadas seguintes. Em 1969, prestou depoimento ao Museu da Imagem e do Som, entrevistado pelo pesquisador R. C. Albin. No mesmo ano, seu samba “Tristezas não pagam dívidas” foi gravado por Cyro Monteiro no LP “Meu samba, minha vida”, da gravadora Copacabana. Em 1970, participou de show na boate Jogral em São Paulo. Em 1971, Gal Costa regravou com êxito seu autobiográfico “Antonico” (já esquecido dos anos cinquenta), no LP “Gal fatal”. 

Ismael Silva talvez tenha sido um dos sambistas brasileiros mais reconhecidos. Tanto que em 1972, em seu aniversário, recebeu um bilhete do laureado compositor Chico Buarque. Dizia: “Ismael, você está cansado de saber da minha admiração pelos seus sambas. Você sabe o quanto lhe devo por toda sua obra. O Sérgio Cabral está lhe entregando o meu presente pelo seu aniversário. É muito menos do que você merece. Um grande abraço, de coração”. 

A estima do grande compositor foi além: Chico Buarque juntou ao bilhete, um prêmio que recebera do Governo do Estado da Guanabara, entregando-lhe um cheque que ele, embora vivendo modestamente, demorou a descontar, preferindo exibir aos amigos a assinatura de Chico Buarque, como prova de admiração e carinho recíprocos.

Ismael Silva morreu em 1978, vítima de ataque cardíaco, por complicações surgidas após uma cirurgia para tratar de uma úlcera. Deixou um importante legado de compositor, um dos mais talentosos, autênticos  e originais. E de sambista e carnavalesco, criador dos primeiros blocos dessa admirável festa popular.

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.

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