Iracema guardiã de sossego – Jessika Sampaio

Tic tac!

Quinta-feira, 14h:45.Meu horário é até às 15h, mas nunca saio às 15h. Nunca. Hoje vai ser diferente, preciso!

Click, click, click!

Então vamos lá!

Confere listas de afazeres:
Isso fica pra próxima semana, isso para amanhã, o e-mail finalizo agora e desligo o computador.
Vou evitar, inclusive, o contato visual com as pessoas, vai que me pedem algo.

*inspiro, expiro*

Desligo o computador, olho o relógio e faço o cálculo. Tenho 20 min para ir ao banheiro, encher minha garrafa de água, dar tchau e andar cinco quarteirões para pegar o ônibus na hora certa.
Vai dar tempo!

Bam!

Fecho a porta.

Tic tac, tic tac!
O relógio diz que é hora de apressar o passo. Ainda bem que sempre ando de tênis. A vida precisa ser confortável.

Biiii!

A moto passou fazendo zuada e tomei um susto. Pra quê tanta buzina em plena 15h?

AAAhhh!

Finalmente chego à parada e o ônibus está lá parado esperando todos subirem. Nada que uma apressada nos passos não me faça conseguir chegar lá.
Continuo odiando os horários desse ônibus, mas ele é sempre tão vago, tem ar condicionado, passa por ruas calmas e me deixa a passos de onde quero ir. Só que se eu não chego a tempo, só em 40 min.

Puf!

Finalmente sentada!

Ainda sinto que estou na cadeira do escritório. Olho o celular, o grupo do trabalho, passo os stories de algum desconhecido, fotografo a frase da cadeira da frente que foi escrita por alguém meio desiludido com a vida.
Tiro uma selfie e penso em postar com a legenda “quinta é a nova sexta?”

Mas para quem? Por que?

Apago a foto. Desnecessário.

Cof cof

Vixi, tem alguém doente no ônibus. Essa pessoa precisa pegar um sol e escolhe logo o lado da sombra, por que?

O maior porquê, na verdade, é por que me incomodo com a vida alheia?

Trriiiiiiimmm

Minha parada!

Uuuufff!

Ando alguns metros, tiro os tênis, sinto os grãos em meus pés e um alívio.

Aaaahhh!

Zip!

Tiro a canga da mochila e procuro as moedas para a água de coco.

Volto e afundo o corpo na canga. Deito, olho para o céu, viro o pescoço para a esquerda para alongar e avisto Iracema Guardiã, uma das poucas estátuas que não me põe medo. Vejo o sol passar dentro de seu arco. Tão bonito que merece uma foto, mas não hoje.

Glup glup glup

A água de coco está deliciosa, mais que nunca, ou deve ser só eu tentando ver milagre em tudo.
Splash splash!

O barulho das ondas. Como isso me acalma!

Olho para trás e lembro de minha mãe falar que o Tia Nair era para ocasiões especiais. “Muito caro para nós”, ela falava.
Agora será uma farmácia. Tudo em fortaleza vira farmácia que vende saúde. Com tanta saúde pra que tanta farmácia?

Cof cof

Merda! Agora sou eu tossindo.

Cof cof cof cof cof!

A água de côco desceu pelo buraco errado. Pelo menos não é doença!

Ih ih ih ih ih

Ok! Agora me vejo bem, rindo de mim mesma e não de stories aleatórios de pessoas que não sei quem são.

Splash! Splash!

É bom estar aqui, vou gravar esse som. Ele me acalma!

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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