INTERLOCUÇÕES POSSÍVEIS: ARTE, CULTURA E SOCIEDADE SOB O OLHAR DE ARTISTAS TRANS CEARENSES (1ª PARTE)

Quando pensei em escrever neste espaço que disponho, quis usar de algum mecanismo de sensatez na hora de abordar questões da comunidade queer ou LGBTQIA+. Existe um lugar da perspectiva de cada uma/um que merece respeito. Não posso falar sobre pessoas trans em determinados níveis, pois todos nós temos nossas vozes, nossos discursos e direito a lugares de fala legítimos. Por isso mesmo, optei por elaborar perguntas para artistas trans do Ceará falarem um pouco sobre suas perspectivas em relação à arte, à cultura e às políticas públicas em nosso país, dentro e fora do atual contexto sociopolítico.

 

O Brasil é o país que lidera os casos mundiais de assassinatos de pessoas trans segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEu) divulgados em 2016. O horror é real e precisa ser conversado o tempo inteiro, ininterruptamente. Contudo, existe algo também que precisamos entender: nem tudo na vida da população trans é tragédia ou dor; há a beleza, há a arte, há cultura e vidas para além do discurso único. Existem espectros muito mais amplos e temos que, mais e mais, sair do senso comum para os novos olhares sobre o universo trans que, reforço, não é um universo paralelo, mas parte integrante do universo que todos deveríamos compartilhar naturalmente em sociedade. 

 

Elaborei, assim, algumas perguntas gerais as quais elenco a seguir juntamente às respostas dxs artistas entrevistadxs. 

 

Jair Cozta (S. O.):  O fazer e o pensar artísticos de algum modo ajudaram/ajudam você a estar no mundo enquanto pessoa trans? 

 

A jornalista e produtora cultural Alí Nacif, 33 anos, natural de João Pessoa (PB), mas residente em Fortaleza, considera que:

“De todas as formas, o fazer “arte” acaba sendo um verdadeiro refúgio para buscar opções racionais de viver em meio às crises existenciais. É com a multilinguagem da arte que consigo expressar a ira, a fobia e a alegria de existir que em vários momentos deixo de lado apenas pelo temor de agir perante as ações cruéis que a sociedade nos impõe. Com as atividades de transformação artísticas consigo liberar o sentimento de ser um corpo produtivo e feliz conseguindo me tornar parte do grupo que cria, refaz, transforma e fomenta. Esse é um dos pontos maiores que me faz entender que a arte é quem me impulsiona todos os dias a levantar da cama e perceber que sou, sim, um ser que respira e que tem todos os direitos iguais a qualquer outro ser humano.”

 

Beijamim Aragão, 23 anos, é natural de Sobral – CE, é Técnico em Audiovisual, Artista Visual e Gestor de Mídias e assessoria de Imprensa, esclarece que:

Inicialmente não. Sempre trabalhei com audiovisual, sou dessa área a 6 anos, e me formei como técnico. Quando comecei a trabalhar, mesmo nesse segmento, me dediquei em registrar ações culturais, shows, eventos e projetos no âmbito cultural/artístico. Depois parti pra pesquisar videodança e performance, e atuei  em um coletivo cultural aqui da cidade. Quando tive contato com a videodança comecei a investigar mais sobre o meu corpo, sobre o que me fazia bem. Mas só depois de conhecer outra pessoa trans comecei meu processo de transição (4 anos atrás), depois disso todos meus processos acabaram sendo direcionados também pras questões de gênero, não diretamente as de audiovisual, mas comecei a fazer ilustrações que retratam meus dilemas pessoais e espirituais, que têm como principal tema minha vivência com um corpo transmasculino na cidade.”

 

Segundo a artista Isadora Ravena Teixeira, 22 anos, residente em Fortaleza: 

“Eu entendo a arte como um campo de possibilidade de invenção de vida e esse fazer artístico está atrelado ao ponto de se confundir com a minha transição de gênero. Especificamente, na minha trajetória, foi a partir da cena artística, da performance, do teatro e da dança contemporânea que eu comecei a me transacionar ou que eu me entendi nesse lugar de transição, tendo em vista que transição não é a saída de um lugar para um outro fechado, mas a abertura de experimentações do corpo enquanto uma pessoa inconformada com os postos de gênero tradicionais. Esses modos de fazer arte me ajudaram e foram meu campo de possibilidade de invenção dessa transição, de invenção de um corpo travesti,  mas acho também que eles não me ajudaram a estar no mundo, entendendo o mundo como esse organismo pela Terra, esse sistema que é responsável pela nossa exclusão e pelo nosso apagamento. Então, acho que, enquanto pessoa trans, aprendi a odiar esse mundo através da arte e isso tem me possibilitado ter vida, não só no âmbito individual, mas coletivamente. A arte hoje está sendo contaminada por corpos, sexos e gêneros dissidentes, por corpos abjetos, por corpos estranhos, e eu acho que esse é o caminho. E esses corpos estão realmente a hackear esse sistema de arte e a arrancar da arte as verdades advindas de uma origem única, que é falocentrista e heterocentrada.”

 

Para Jupyra Carvalho, 24 anos, atriz e produtora cultural, natural de Fortaleza:

Os processos estão conectados de uma maneira tão imbricada que excluir a arte da minha vida, seria excluir os meus processos de transição que estão para além do gênero. Vejo a transição como possibilidade de existência, de continuar existindo criando e recriando o mundo, não para se mudar para algum lugar, mas sempre supondo que este lugar nunca não existe, sempre se encarando como o caminho e travessia. Dessa maneira, sempre me penso como um lugar de passagem para as experiências de gênero, de arte. Na medida que vou caminhando, vou elaborando pensamentos em fuga do que vou sendo e o que deixei de ser e compartilhando estes processos criativos na vida, no palco e fora do palco, com as outras pessoas que me acompanham, que acompanham o meu trabalho e as minhas travestilidades.”

 

Noá Bonoba é natural de Fortaleza, 29 anos, atriz, e nos diz que:

“É difícil responder essa pergunta, pois meu contato com o fazer artístico está diretamente ligado aos meus processos de vida. Acredito em uma não-dissociação entre arte e vida. O que acontece é que vivemos em um mundo onde a zona do sensível não encontra espaço para existir e ser, então a arte enquanto território auxilia no desvelamento das fragilidades individuais. É lugar de expressão e descoberta e também lugar de invenção e fabricação de corpo. Então, o que posso dizer (com muitas aspas) é que com a arte aprendi que posso conceder a mim mesma autorizações para me retirar das ficções que a cisnorma impôs a mim e, dessa forma, inventar um lugar de negociação para que o exercício de apropriar-me da minha carcaça física possa ser realizado na atividade de reduzir os danos de uma existência bastante marcada pela sensação de não-assimilação.”

 

Jair Cozta (S. O.): Fala-se muito de artista marginal, sempre incluindo mulheres, pessoas negras, homossexuais e também pessoas trans. Na busca por sair desse lugar pejorativo das margens, começou-se a criar categorias para se referir à arte produzida por grupos estigmatizados a fim de perpetuar um deslocamento desse discurso excludente.  É necessário categorizar a arte trans para que haja alguma quebra do sistema excludente?

 

Alí Nacif afirma: “Totalmente. Já existimos muito além desse século, nossa arte sempre esteve à frente de todas as margens e guetos. Nossa cultura musical, performática, nas maquiagens, nas cores transformadas em arte; vejo nosso processo hoje em tudo. Na criança que dança uma música de uma drag, na menina que se veste de menino em tudo. Ser trans e viver nesse sistema excludente é um sinônimo de como estamos sempre sendo excluídas das  discussões, em formas, veículos e espaços. É tão significativo que, na maioria, metade de um grupo de “mulheres trans” acaba se prostituindo por apenas poder viver, comer e se medicar, enquanto um grupo de homens trans procuram um corpo estético “padronizado” com músculo. Não estou afirmando que seja a condição de todos, mas se pararmos pra pensar, será que não estamos mais uma vez buscando nos enquadrar no “modo operante” para sermos aceitos como parte da sociedade? Não concordo com a “categorização” porque automaticamente estaremos mais uma vez nos colocando no sistema de exclusão, quando eu coloco um dos corpos da minoria no grupo de risco automaticamente estou afirmando que ele é menor que o branco e assim por diante. Percebo e entendo a necessidade do estudo de todo o sistema, para pensar melhorias e políticas, só que isso de alguma forma nos coloca no lugar de “coitados”, marginalizando nossas existência.”

 

Beijamim Aragão faz a seguinte consideração: “Eu acredito ser muito importante evidenciar o trabalho desenvolvido pelas pessoas trans, independente se o trabalho realizado por elas seja ligado às questões de gênero. As pessoas transgênero ainda são muito associadas à ideia de que só podem trabalhar na rua, ou na prostituição, e isso precisa ser quebrado; essa imagem de que o corpo trans é ‘’indevido”. A visibilidade também incentiva OUTRAS pessoas trans a atuarem em outras áreas dominadas pelas pessoas cis em sua maioria. Inclusive, na arte, ainda tem poucas pessoas transgênero atuando em filmes, expondo em galerias ou museus, conseguindo gravar músicas ou fazer qualquer outra coisa por simplesmente serem trans, por ainda serem vistas como corpos marginais que não podem ser assistidos durante a luz do dia. A indústria cinematográfica é um grande exemplo disso, quando ela aborda as questões transgênero utilizando pessoas cis nos papéis por ser mais ‘’lucrativo’’ e abordando assuntos com intuito unicamente comercial como as cirurgias de redesignação e intervenções corporais.”

 

Isadora Ravena Teixeira faz a seguinte reflexão: “Eu acho que essa pergunta não tem uma resposta única. Uma das coisas que a gente mais tem aprendido enquanto pessoas e artistas trans é a criar políticas do dissenso, é entender que não pretendemos ser uno, com uma só posição; a gente já está entrando de diversas formas neste sistema, escolhendo entrar pela saída de incêndio, pelas portas principais… Então eu acredito que esse dissenso, essas formas de fazer, são o que mais temos de potente nesse movimento. Para mim, como artista, eu entendo a nossa transição como uma fuga desse processo de categorização e catalogação. A gente busca, enquanto mundo ocidental, catalogar e categorizar todo tempo as coisas a partir de uma noção e de uma visão de mundo engessadas. A todo o tempo tentamos fugir disso, mas categorizar a arte trans é necessário em alguns espaços, porém, ao mesmo tempo em que a gente se afirma, a gente negocia com esses lugares. É preciso entender que criar categorias de arte trans também é excludente para nós, porque pressupõe que existe uma produção monovisual monocênica e monointelectual das nossas criações, como se caminhássemos sempre para o mesmo lugar. Quando falo sobre discentes, falo de produção de inúmeras coisas, inúmeros estados e inúmeros corpos diferentes. A arte que crio enquanto pessoa trans, produz mais acoplamentos com artistas cis com outros marcadores no corpo do que com outros artistas trans.”

 

Jupyra Carvalho, por sua vez, nos diz que: “Os processos de captura e de classificação nunca deixaram de existir dentro do território da arte em relação a outros corpos não majoritários, inclusive corpos marginalizados. Sempre usaram a nossa arte para renovar modelos ultrapassados e decadentes de produção artística.  É importante que tenhamos consciência de cada passo que estamos dando e as implicações desses passos, pois é um caminho que ao mesmo tempo pode limitar as nossas potências por nos classificarem, nos explorarem, pode nos oferecer modos de sobrevivência em relação ao dinheiro. Temos que ser espertas e, como diz Jota Mombaça, ter uma consciência dupla ou múltipla diante do sistema de arte. Tenho enormes dúvidas se essa categorização sobre os nossos corpos propõe uma quebra do sistema excludente; Se, de algum modo adentrarmos nesse sistema excludente através dessas categorias, ainda sim estaremos dentro desse sistema excludente, podendo até servir de argumento para justificar atitudes lgbtfóbicas desse mesmo sistema – “Passamos até uma travesti”. Até que nós travestis e trans estejamos, de fato, habitando e ocupando lugares de decisão, de curadoria, de poder, não vejo como sermos, de fato, incluídas, cuidadas e curadas pelo sistema de arte.”

 

Noá Bonoba reflete: “Sim e não. As categorias foram criadas para que possamos reivindicar o adentramento dos espaços e das estruturas dignas de existência em um diálogo constante que precisamos fazer para garantir a nossa sobrevivência. Então sim, precisamos nos utilizar das categorias identitárias para acessar espaços que também são nossos por direito e desde sempre nos foram negados. O que acontece, e por isso minha resposta também se permite ao não, é que as categorias são apropriações de reivindicação, mas funcionam também como armadilhas de aprisionamentos das nossas subjetividades e singularidades, ou seja, somos obrigadas a criar a partir das expectativas que a cisnormatividade lança sobre nossa produção e isso se torna um novo problema, pois se revela como mais um limite da cognição cisnormativa. Somos múltiplas e diversas e nossa permanência precisa ser garantida a partir dessa perspectiva.”

INTERLOCUÇÕES POSSÍVEIS: ARTE, CULTURA E SOCIEDADE SOB O OLHAR DE ARTISTAS TRANS CEARENSES (2ª PARTE)

 

Jair Cozta (S. O.): Como você descreveria a condição das pessoas trans no Brasil e no Ceará no atual contexto sociocultural? 

 

Alí Nacif considera: “Confusa, estranha e sem sentido. Existem vários focos, debates, ações, só que todas ainda são setoriais e não públicas. O maior exemplo é a falta do funcionamento do ambulatório que deveria operar desde 2016 e até hoje o debate tá em que ponto? Para nós ele “parece” estar parado nas redes de discussões, existem grupos de mães e ONGs que até hoje buscam por militância para fazer isso funcionar, mas o debate ainda não chegou na massa, precisa abrir o sistema, precisa pensar num todo que tá se marginalizando e buscando alternativas que nem sempre são as melhores, mas também são as únicas. Avançamos muito no Brasil tanto no debate como na abertura da nossa existência, hoje conseguimos sair na rua mesmo com o medo, conseguimos trabalhar (poucas) e estudar, mesmo assim a luta não pode ser vista como perfeita ou como “conseguimos”, por que ainda temos muito chão e muita coisa para evoluir e liberar.”

 

Beijamim Aragão, considera que: “Em todos os contextos, ser trans no Brasil é muito difícil. Primeiro por todo o ‘’CIStema’’ não ser preparado para entender as questões transgênero e muito menos ter interesse em atender a diversidade. O Brasil é homicida quando se trata de direitos de pessoas transgênero, embora de 2009 pra cá muita coisa avançou. A decisão de a retificação ser realizada diretamente nos cartórios foi uma grande conquista que conseguimos, mas depois de uma luta de quase 50 anos pra isso acontecer, e embora isso tenha acontecido, ainda são necessários ajustes para funcionar totalmente. No momento atual vai ser ainda mais difícil por esse governo fascista que estamos vivendo, e por todo sentimento de ódio que ele propaga principalmente em relação à população LGBTQIA+, o sucateamento do Sistema Único de Saúde também acarreta no abandono dos Ambulatórios Transexualizadores impedindo de eles continuarem funcionando, um local ESSENCIAL para garantir a saúde e o bem-estar das pessoas trans.”

 

Para Isadora Ravena Teixeira: “Acho que estamos cada vez mais contaminando esses espaços, adentrando lugares que há um século seria impossível, não apenas na arte mas em todos os lugares do campo social. Eu não acredito mais que nossa subversão ou nossa  tentativa revolucionária tenha que ocorrer fora do campo social, inclusive porque essa noção é um pensamento pré-concebido de que não cabemos nesse mundo, que precisamos criar uma comunidade alternativa, e isso é uma forma de nos apagar. Nós estamos adentrando no sistema de arte e nos espaços, mas me pergunto para que estamos entrando se não for com um motivo molecular de abrir fissuras ou propor desfiliações dos próprios espaços. Não é uma tentativa fácil, ela sempre traz inúmeros riscos para os nossos corpos, ela sempre causa inúmeras reverberações sociais de repulsa e, a partir disso, entendemos este escancarado avanço de uma política fascista, o que, sem dúvidas, ressoa ou faz surgir uma força de violência muito maior sobre corpos que historicamente já carregam violências, mesmo em um sistema que se propõe mais aberto politicamente. Então, sim, acredito que estamos, infelizmente, na linha de frente desse processo, como pessoas trans, negras, indígenas, etc.” 

 

Jupyra Carvalho faz a seguinte reflexão: “Sinto que está surgindo uma geração de trans e travestis que estão, cada vez mais, rasgando e habitando lugares dentro da arte e da cultura. Com isso, estamos vendo instaurar um outro lugar, um outro cenário, algo até mais includente. Os espaços, felizmente, estão se abrindo mais aos nossos corpos e isso é interessante, mas não devemos deixar de ter atenção e questionar a maneira que estão nos dando esses espaços. Por sermos trans e travestis, a visibilidade é sempre questionável. Os holofotes que colocam sobre os nossos corpos precisam ser questionados. Devemos ter muito cuidado para não passarmos (ou sermos) o pano em nenhuma violência cometida sobre nós. Sei que estamos atentas.”

 

Noá Bonoba explana a realidade de forma contundente: “Escassa. Precária. Excludente. Somos expropriadas. Roubadas constantemente. Mal pagas. Banidas. Vistas com bons olhos. Vistas com maus olhos. Estudadas como em um laboratório. Estudadas como em um zoológico. Assassinadas através das atualizações das zonas de morte. Lançadas de um lado pro outro para caber. Precisamos alargar os espaços e colocar para fora deles quem já tá criando musgo e mofo por não querer largar o osso.”

 

Jair Cozta (S. O.): Dos direitos já conquistados para LGBTQIA+, poucos são os que asseguram a vida e a existência digna para pessoas trans no Brasil. O que seria necessário para o Estado ouvir a população trans? 

 

Alí Nacif pontua:

“1. Políticas públicas voltadas à saúde, à educação e ao serviço básico de proteção ao indivíduo:

– acessos a hospitais, exames e a própria doação de sangue que até hoje estamos excluídas de doar, apenas por ser LGBTQI+.

  1. Uma ouvidoria e formação dos profissionais da segurança (policiais e delegados) preparados para receber as demandas dessas pessoas trans.

– formações semanais ou mensais de como abordar e principalmente como agir perante uma ação de denúncia de homofobia ou transfobia.

– sobre meu ponto 2: um exemplo foi a transfobia que passei no bar “xxx”, os policiais vieram e agiram perante as informação que eles tinham, pediram meu rg e nome de registro, falei que meu nome social era Alí Nacif e o policial nem sabia o que era isso (nome social). partindo desse ponto posso citar vários posicionamentos desses agentes.

– daí podemos analisar duas ações, a primeira sobre a formação desses profissionais, até o estado está realizando a formação desses profissionais? essa formação aconteceu? como e quando? quem ministrou? enfim, é um debate muito mais sobre o que o estado pensa sobre a proteção e trabalho “daqueles que devem nos proteger”.

– e eles, estão buscando conhecimento além do que o sistema oferece?

  1. Espaços culturais com oficinas e vagas de serviços (trabalhos), precisamos sim ser pensadas como margem de risco, que dia a dia estão sendo mortas, seja no literal da palavra morte ou em nossos sentimentos quando rejeitadas ou excluídas nos espaços.
  2. Nos editais sejam da cultura ou qualquer serviço do estado ou empresariais.”

 

Beijamim Aragão explica: “Inicialmente eu acredito que as Conferências e a reativação do conselho nacional LGBT com mais cadeiras para as pessoas transgênero com suas especificidades (mulheres trans, travestis, homens trans, não-binaries e outros), seria uma ótima forma de fortalecer as políticas públicas. Além disso, criar canais de contato e informação para esse público por meio de portais e aplicativos, e depois fomentar o mesmo para os estados e municípios. Preparar os profissionais de diferentes setores para atender pessoas trans além dos psicólogos e endocrinologistas, seria uma ótima forma de ampliar a escuta.”

 

Isadora Ravena Teixeira aponta: “Creio que a partir da segunda metade do século passado, nós avançamos muito em um quadro de políticas públicas para alguns grupos historicamente marginalizados no Brasil. Se pegarmos como exemplo a luta dos movimentos homossexuais organizados sobre uma reivindicação de políticas públicas, veremos várias conquistas, como o casamento, advindas dessa lógica do Estado. No entanto, é importante atentar-se para o fato de essa lógica estar produzindo inúmeras tecnologias de subjetivação e de assujeitamento, ou seja, ao mesmo tempo que o Estado libera uma migalha – porque, na verdade são conquistas mínimas – e cede a esses pequenos avanços, ele também está produzindo um sujeito a ser governado. Se pegarmos o grupo dos homossexuais ainda como exemplo, o Estado tem produzido uma imagem do homossexual que é o sujeito neoliberal, que pode construir sua família, que tem que trabalhar, que tem que ser limpinho, que tem práticas de saúde como seguras, e esse sujeito, além de neoliberal, é um sujeito heteronormativo, pois tem um modelo de vida semelhante à família heterossexual. Penso em como essas conquistas se dão a partir do nosso movimento trans. É lógico que essa comparação não está balanceada, pois estamos no país que mais mata pessoas trans e travestis e estamos muito atrasados nas conquistas de direitos. É necessário pensar se é preciso que o Estado ouça as populações trans e que respostas esperamos deste Estado. Antes de tudo, é preciso não esperar que esse Estado produza na gente um sujeito ciscentrado e que nós não nos adequamos a partir dessas tecnologias de assujeitamento à produção de corpos ciscentrados e de uma norma.” 

 

Jupyra Carvalho aponta o seguinte: “Quando nós, LGBTQIA+, estivermos nos lugares de decisão, nas pastas, secretarias, ministérios, seremos de FATO ouvidas. Seremos ouvidas porque estaremos lá para nos ouvir. Ouviremos os nossos e as nossas, mas também saberemos ouvir mais. A distância não é mesma da pessoa que ouve de cima para a que ouve de baixo. Este estado precisa ser acompanhado e consultado por nós. Para sermos ouvidos, não adianta falar, é necessário gritar, buscar ações que criem estrondos e que façam eles perceberem que nós estamos aqui, sempre estivemos e sempre estaremos.”

 

Noá Bonoba, então, fecha (literalmente): “Vou responder essa pergunta citando duas frases da Ventura Profana, na música Resplandecente: “Jup do Bairro nua, tomando a faixa presidencial” e “Travesti no comando da nação”. Quem catar, catou. Reverencio cada travesti que se levanta. E as que caem também. Travestis são os mundos que precisaram morrer para que elas ali estivessem. Um beijo pras trava.”

 

— 

 

Muito embora complexas as perguntas aqui propostas (tenho dificuldade em não ser prolixo, reconheço), não me surpreendeu em nenhum momento as respostas contundentes, consistentes, inteligentes e de uma propriedade lúcida que me levam constantemente a pensar: por que as instituições a cargo do Estado ou mesmo da iniciativa privada ainda “resistem” em conceder o espaço de direito para que profissionais trans com qualificação, como as pessoas aqui entrevistadas, por exemplo, as quais têm a capacidade de ampliar a rede de diálogo, escuta ativa e, principalmente, de oportunidades diversas para o restante da população trans em situação adversa ou vulnerável?

 

A pergunta talvez seja retórica, porque a resistência está exatamente disfarçando toda a estrutura excludente que perpassa as instituições. Artistas queers/LGBTQIA+ esporadicamente convocaxs e curadxs por pessoas hétero-cis-centrados brancos masculinos abastados, na maioria das vezes, e/ou apenas em ocasiões de efemérides sobre diversidade sexual e/ou cujas obras possuam temática com essa discussão, experimentam, na verdade, o esmagamento dos conceitos de diversidade e liberdade criativa, bem como o cerceamento do conhecimento de profissionais que, em verdade, estão além do pensamento medíocre institucionalizado à beira da falência social e humano.

 

Que possamos nos permitir à contaminação de uma reinvenção do pensamento artístico como antídoto para a caretice e para a frigidez retrógrada deste mundo, pois a doença da intolerância só possui um remédio: a liberdade dos corpos, dos afetos e da arte. Só assim haverá vida e futuro para este país.

 

 

Meu imenso agradecimento e reconhecimento por todxs que concederam estas entrevistas extraordinárias.

 

Para conhecer o trabalho dxs entrevistadxs, busque no Instagram:

@alinacif

@flordebeijaflor

@ravenaisadora

@jupyraa

@noabonoba

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é Produtor cultural, artista, ativista queer e revisor de textos em Língua Portuguesa. Às vezes é do tamanho da duração do instante. Cursou Letras na UECE e atuou como produtor em diversos espaços culturais de Fortaleza.

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