Interessante e oportuno

 

Leitores indagam por que não fiz aqui qualquer comentário sobre o aclamado Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up), do cineasta americano Adam McKay. Nada contra o filme, a que assisti tão-logo lançado no cair do pano de 2021, e considero, ressalto, a melhor comédia do ano no contexto de produções frágeis como o de 2021.

Em duas palavras, é esta a sinopse: cientistas descobrem a aproximação ameaçadora de um meteorito que destruirá a terra. Chamados à Casa Branca, tentam convencer a presidente americana de que é urgente que se adotem medidas que possam evitar a catástrofe, mas são tratados com indiferença, pois o governo está absorto com a rejeição de um indicado seu para a Suprema Corte. Segue-se uma comédia burlesca em meio à campanha para eleições legislativas no país.

O filme, aliás, tem uma qualidade que me parece fundamental numa grande obra: a capacidade de ressignificar-se para além das fronteiras do país a que se reporta em sua crítica central, no caso o nacionalismo imbecilizado dos americanos emblematicamente representado pelos seguidores do ex-presidente Donald Trump.

Daí, claro, decorrem subtramas que fazem do filme uma impiedosa crítica à superficialidade que impera no mundo midiático, hoje, diante das grandes ameaças, o que insere o filme num subgênero de catástrofe já explorado em produções muito aplaudidas, a exemplo de Independence Day, do cineasta e roteirista alemão Roland Emmerich, 2016.

Sob este aspecto, por sinal, é que o filme de Adam McKay tem para nós brasileiros um significado imenso: se não nos ocorreu a infelicidade de descobrir a aproximação de um cometa que destruirá o planeta, é como se o tivéssemos feito desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República  para conduzir o país à beira do abismo.

Como os protagonistas de Não Olhe Para Cima, os cientistas Randal Mindy e Kate Dibiasky, interpretados brilhantemente por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, que relutam em convencer a presidente Orlean (Meryl Streep em mais um desempenho soberbo) a adotar medidas que possam evitar a catástrofe, cientistas brasileiros vivem há dois anos a luta infinda de tentar levar o governo a encarar com responsabilidades uma doença que já levou à morte mais de 600 mil pessoas. Lá, como aqui, mistura-se alho com bugalho: a diretora-geral da Nasa é uma anestesiologista indicada pela presidente por ser a maior doadora de sua campanha.

No mais, o filme constitui, como toda comédia inteligente, uma sátira mordaz contra a insensatez dos tempos atuais: a burrice humana é o fulcro temático do filme em suas diferentes camadas, o que se reflete na própria estrutura da narrativa. A montagem é intencionalmente fracionada, o que, se por um lado resulta um tanto cansativo, tornou possível a inserção de numerosos subtemas num filme com pouco mais de duas horas de duração.

Nada que se aproxime, por exemplo, do insuperável Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick, de que o filme de Adam McKay guarda um certo perfume. A aproximá-los, quando menos, o nacionalismo insano que perpassa toda a ação de Não Olhe Para Cima às vésperas de uma eleição proporcional nos Estados Unidos. No filme de Kubrick, é esse mesmo nacionalismo desenfreado e insano que leva um general a querer bombardear a Rússia na convicção de que os comunistas planejam dominar o mundo. O filme continua atual, como se pode ver.

Num e noutro, por caminhos diversos, o espectador depara-se com o absurdo que paira sobre a realidade humana, e que nos faz rir com motivos de sobra para cair em prantos.

As sequências do “talk show”, no filme de Adam McKay, são impagáveis, explorando o non-sense das situações que envolvem, no mesmo pacote, celebridades vazias e homens pensantes, numa crítica que extrapola o formato do programa televisivo para atingir em cheio a própria imprensa contemporânea, não menos tendenciosa e superficial, como a não permitir ao telespectador pensar criticamente a realidade. É feliz a metáfora criada em torno do poder de sedução da mídia na figura da jornalista interpretada por Cate Blanchett, a quem ficamos a dever momentos hilários do filme.

Mas, se diverte e adverte com relativa competência cinematográfica, Não Olhe Para Cima é pouco exigente esteticamente falando: trata-se de um filme demasiadamente óbvio para se pretender uma denúncia daquilo que se pode ver às claras nos dias de hoje. No Brasil, em proporções paroxísticas, diga-se em tempo.

Um filme interessante e oportuno.

 

Imagem: arquivo de internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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