Inteligência Artificial (IA) e a Verdade Artificial (VA)

Há um fenômeno novo mundo afora: a aceitação da verdade artificial, que nada mais é do que a mentira amplamente e instantaneamente difundida que se torna verdade e que termina acreditada até pelo próprio mentiroso.  

O uso da Inteligência Artificial (IA) na manipulação política incidente sobre uma população politicamente e socialmente inconsciente de si mesma resulta numa cegueira coletiva à qual denomino de Verdade Artificial (VA).

Trump, Bolsonaro e Milei são a resultante de uma depressão econômica do capital cuja culpa é colocada pela VA nos ombros dos que defendem os direitos civilizatórios e humanistas como se estes representassem o mal em si a ser extirpado.  

Afinal, para estes discípulos do Milton Friedman, que pregava a doutrina capitalista de que não há almoço grátis, como se tudo tivesse que ser pago em dinheiro e a vida a isto se resumisse, e que querem o estado mínimo apenas voltado para a defesa do capital.

São os representantes políticos da tese do Estado antissocial, bem mais opressor do que o Estado pretensamente do bem-estar social (que também é opressor) e da competência da raposa na administração do galinheiro.  

Aproveitam-se da fragilidade da socialdemocracia enquanto forma capitalista pretensamente humanista para repetir uma mentira até que ela se transforme em verdade, pelo menos no processo eleitoral em turnos cíclicos ou ditatoriais longos.

Ambos, direita totalitária capitalista liberal irascível e esquerda institucional bem-comportada e bem-intencionada, atuando sob os ditames contraditórios e em rota de colapso da relação social sob a forma valor, são a um só tempo algozes e cúmplices na manipulação eletrônica de comunicação.  

Hoje a inteligência artificial (IA) tem capacidade de manipular vozes e imagens como se fossem reais e juntamente com a capacidade comunicativa instantânea e mundial da internet estão fazendo um estrago nas consciências populares desesperadas por conta da debacle capitalista insuportável.  

A virtude vira defeito; o bem se torna antevéspera do mal; a loucura passa a ser considerada como expressão de sanidade e lucidez; e no altar das finanças públicas e privadas em depressão a rigidez da contabilidade financeira estatal prepondera sobre a vida humana.
Ajuste fiscal e teto do orçamento são critérios de administração pública sacralizados pela lógica do capital que não aguenta “abusos humanistas”… A esquerda zelosa da boa administração da falência capitalista embarca nessa cantilena visando as eleições a cada ciclo eleitoral.

Muito antes era eram as religiões e seus cânones testamentários que diziam a verdade segundo suas interpretações sempre facciosas, ainda que o fundamentalismo religioso ainda persista nos dias de hoje e se misture com a mentira política eletrônica e a use por charlatões da boa-fé das pessoas.

Há 100 anos o rádio foi o primeiro meio de difusão da informação que pode falsificar a verdade, como ocorreu com o nazismo e sua doutrina capitalista racista e xenófoba veiculada pelo então Ministro das Comunicações, o sinistro Joseph Goebbels, que se tornou tão importante a ponto de ser a figura alemã mais influente na Alemanha a iludir o povo germânico e ser o mais próximo cúmplice de Adolf Hitler.
O culto povo alemão, raciocinando pelo bolso após anos de penúria do pós-primeira guerra mundial, e experimentando um certo progresso tecnológico e bem-estar que lhe propiciou melhorias no padrão de renda, foi presa fácil para a cantilena política belicista nazifascista totalitária que se apresentava como responsável pelo restauro da pretensa competência e superioridade alemãs supremacistas.

A internet é um instrumento de comunicação instantânea internacional que pode usada para instruir ou destruir, tal qual um bisturi que pode ser usado para fazer uma cirurgia ou cortar um vaso sanguíneo e provocar uma hemorragia matando o paciente.  

A direita foi quem melhor se apropriou desse mecanismo de comunicação que arrebentou com o antigo controle sobre os vários veículos de comunicação somente possíveis de existir nas mãos do capital, dificultando os conceitos emancipatórios dos que sofrem a tirania do dito cujo.  
Assim, aliou a comunicação imediata e mundial via satélite quase sem filtros a um processo de robotização de veiculação automática de conceitos deturpados e mentiras absurdas pelos celulares que de tanto martelarem as mentes vidradas nas telinhas passam a ser acreditadas (numa fila de 10 pessoas, oito delas, hoje, invariavelmente, estão manipulando celulares).

Nominei como “Verdade Artificial” esse fenômeno no qual a mentira prospera e/ou o mentiroso passa a acreditar na própria mentira como se verdade fosse. Pontuemos alguns fatos resultantes da VA.
Uma pessoa detentora de comorbidade participa de um ato golpista no qual se reivindica:
– o fechamento do Superior Tribunal Federal;  
– o fechamento do Congresso Nacional;  
– a tomada do poder pelos militares;  
– a destituição de um Presidente recém eleito, e em nome da democracia pretensamente conspurcada!!!  
Preso, o manifestante termina por falecer no cárcere no curso do processo que certamente o condenaria.
Nas redes sociais e via internet aparece instantaneamente uma avalanche de pronunciamentos reverberados que vão desde a tribuna do Congresso (onde estão presentes os adeptos do seu fechamento, não pela sua conhecida ineficácia ou eficácia negativa, mas porque querem o mutismo totalitário), até os mais diferentes personagens numa tentativa de transformar o morto em mártir patriótico.  
Velório de pretenso mártir da democracia com direito a choros emocionados de parlamentares que deixariam qualquer bom ator com inveja de tal interpretação; jovens pseudos revolucionários de direita e velhinhas inocentes, todos(as) vestidos(as) de verde amarelo patriótico a pronunciar vitupérios indignados contra a ordem capitalista em desordem e ao judiciário, como se houvesse possibilidade de haver ordem sob o capitalismo, desde que protegido pela força militar que defendem, completam o quadro.

No atual estágio agônico do capital, até um candidato patético como Javier Milei na Argentina (ou justamente por isto) consegue ser eleito com bravatas absurdas fruto de um niilismo generalizado.
O recém-eleito Presidente da Argentina é uma personagem criada para responder ao desespero argentino.  

Não é o palhaço debiloide que vive com alguns cachorros clonados e diz que com eles se inspira e se autointitula como anarco-libertário, dizendo exatamente as bravatas do liberalismo clássico como se fosse algo novo e detivesse a varinha de condão capaz de resgatar a maioria dos portenhos da miséria e reintroduzi-los ao fausto de 100 anos atrás.

Sem jamais ter escrito qualquer texto mais consistente sobre como se define tal exótica e originalíssima intitulação ou doutrina, sabemos que ele tem doutorado em economia e na respeitada Universidade de Belgrano, situada num bairro chique nos arredores de Buenos Aires
Dele sabemos também que é um rico empresário do mercado de capitais com patrimônio de U$ 100 milhões (ou R$ 500 milhões), fato apresentado como virtude administrativa aos eleitores, e que tem um presente recente de político (é Deputado Federal) que se diz apolítico (os outsiders costumam comer no prato que cospem).  

Milei é o mais genuíno produto resultante da VA – Verdade Artificial manipulada pela Inteligência Artificial que comanda o senso coletivo inconsciente de si mesmo.  
Cito como exemplo mais evidente da Verdade Artificial induzida pela loucura coletiva eletrônica, a pretensão argentina de adoção das criptomoedas como padrão monetário da população em defesa segura e permanente da sua crise.

Tal critério pode até amenizar momentaneamente a hiperinflação, mas jamais poderá fazer a Argentina retomar o antigo posto de Suíça da América do Sul. Crer nas criptomoedas é algo assim como buscar no próprio veneno o soro capaz de neutralizar a intoxicação venenosa.  
As criptomoedas são a especulação mercadológica de cestas de padrões monetários falidos que produzem lucros aos seus detentores a partir de si mesmas pela simples lei da oferta e da procura, sem produção de mercadorias e extração de mais valia pelo capital, tal como as espécies de vidas de insetos assexuados que se reproduzem e crescem em patogênese, ou seja, por si mesmos.

A falência das criptomoedas no futuro vai ocorrer (se antes disso não ficar evidenciadas as suas inconsistências) num estrondo falimentar concomitante à falência dos créditos bancários sustentados pelas dívidas públicas impagáveis e descréditos dos seus padrões monetários.

Qualquer país com a grandeza da Argentina, dona de grande riqueza material (alimentos e minerais) e de um povo com níveis de escolaridade bem acima da média da América Latina, mas vivendo sob a subtrativa regra da mediação social capitalista (e somente a partir dela é que desenvolvo o raciocínio que ora afirmo), não pode prescindir de seu próprio padrão monetário, pois isso pode fazer com que o fundo do poço por lá fique ainda mais abaixo do que está.  

Talvez sirva apenas para a privatização das grandes empresas estatais argentinas, e da sua recém-descoberta de reservas energéticas de gás e petróleo como querem os capitalistas internacionais que Milei representa.

A Argentina pode ser a ponta do iceberg de uma eclosão mundial de falências estatais em cadeia e do próprio sistema bancário internacional cujo capital fictício nunca foi tão fictício como agora, justamente porque as atividades mercantis já não dão os lucros capazes de remunerar os juros correspondentes e devolva aos credores o próprio capital emprestado (que vem tendo prorrogações de quitações constantemente renovadas) acrescido dos juros.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;