Instante-já – JAIR COZTA

O instante é tão curto que poderia ser o amor ali passando.

Escorou-se ao meu lado, na barra de ferro revestida de um tipo de liga amarela. O ônibus estava meio cheio, que nem eu da vida. De modo periférico, senti que me olhava enquanto eu estava distraído, mas não percebeu que eu o percebi. Numa coragem de pessoa louca, tive que olhar descaradamente. Ele parou e fitou a janela num ato mais aparentemente automático do que propriamente para admirar a paisagem – esta, que não me orgulho em descrever, composta por concreto vertical e horizontal, árvores parcas – pingadas aqui e acolá, com sede – e pessoas correndo nas ruas mais preocupadas com a vida autômata, com o trabalho, com o almoço por fazer, com o atraso para bater o ponto ou mesmo com o ônibus que passará às doze e quarenta. Ali, perguntei-me se ele achava belo aquele recorte de mundo, a correria; se era sensível ao mundo a ponto de ver a poesia ali. Apesar de ser possível encontrar beleza em muitos cantos, dentro da gente, nos outros, nos não ditos, tal indagação vai caminhar comigo em forma de inquietação de estimação.

Ele, do meu lado, disse-me mais do que qualquer um presente naquela condução; falou-me de sua solidão através do olhar meio perdido, mas que buscava algo, talvez um outro, talvez nada… talvez eu estivesse só enganado e não fosse nada disso! Poderia ser só incapacidade semiótica minha ou excesso de signos me confundindo, mas, sem disfarçar, pus-me a olhar mais fixamente e seus cabelos falavam que há tempos não eram afagados por mãos. E tinha uma boca que murmurava algo como anunciação. Convite. Canto de sereia. Eu marinheiro, náufrago. Como é possível? De repente me perdi num devaneio meio tolo. O sociólogo da liquidez riria de mim naquele instante. Certamente diria, se cearense fosse: “Abestado! Só dura até você dar o sinal de parada e descer!”. Mas me veio a náusea descrita em Amor, de Clarice, e então voltei a mim, engolindo, a seco, meu medo e o enjoo.

Mantive-me quieto. Não ausente, mas quieto como uma praia à noite ou como um cão dormindo na esquina – apenas a orelha em pé. Nosso silêncio compactuado era como um flerte. Flertamos silenciosos. Isso! Em pensamentos, com o ritmo da respiração impaciente, olhos em fuga constante, com os movimentos premeditados a fim de que um notasse o outro, a mise-en-scène do corpo amante, com o incômodo causado pelo suor devido a mais um dia-caldeira de verão eterno desta cidade; tudo a fim de que houvesse uma correspondência mútua. Naquela espécie de coexistência banal houve uma relação possível, ou qualquer outra palavra execrada por mim, mas, covardes, não ultrapassamos o limiar da loucura, que seria pisar na linha tênue que nos separa dos demais, limite este que é viver na clandestinidade, a mais incômoda e ordinária das condições quando não se é assumidamente perverso.

Interação mínima e um medo mútuo do não foi existindo entre nós. Seguimos adiante enamorados, porque a correspondência era certa, como o canto  das sereias para os marinheiros é fatal. Quem iria se arriscar a cruzar a fronteira da loucura? Quem ousaria ser marinheiro desamarrado do mastro?

Minha aura tocou-o. Nos afagamos por meio desse mecanismo cósmico invisível de que minha vó de umbigo costumava falar. Ela dizia que aura possuía tamanho, cor, densidade, mas não se via a olho nu. A minha é amarela, eu suponho. Nos apaixonamos durante aqueles vinte e poucos minutos um do lado do outro dentro do ônibus, um pouco mais cheio, que nem eu estivera da vida.

Ali, de fato, nos enamoramos pelos minutos que se sucederam. Sem palavras, sem toques, mas por meio da loucura assombrosa ou por meio da existência que testa, todos os dias, o nosso conhecimento sobre nós mesmos. Somos um poço profundo à noite, uma cacimba escura, cujo fundo e cuja água não podemos enxergar, a não ser, talvez, se a lua estiver a pino e nos debruçarmos na beirada para admirar nosso reflexo no fundo iluminado.

“Houve paixão?”, pergunta-me eu-inseguro.

Paixão… algo que eu não saberia descrever muito bem. Confesso meus limites. Não saberia descrever a paixão. Algo como desejo? Ou algo como querer por querer? Sem amor? Ou mais uma forma de amor não perene? E quem constatou à humanidade que o amor não finda, que não é líquido? Paixão é amor derivado? Um laço se desfaz, se desata, se refaz, vira nó-cego. Eternidade é sucessão (outro, outro e outro…)? Mesmo eu, mesmo amor para outros objetos de afeto? Somos objetos?

Paixão, assim como amor, é perguntar-se. É? É a dúvida, a motivação, é? É, talvez, este estado de não saber ao certo o que se sente, mas se permitir sentir, ainda que soe piegas! (e o é!), mesmo que por alguns minutos, dentro de um ônibus, com um desconhecido. É o desconhecido. Seja talvez o único estado possivelmente bondoso de se preconceituar (e eu que odeio tal câncer existencial pasmo-me, agora, ante a esta epifania aterradora – e faz calor e eu sou plasma). O medo e a atração por aquilo que se desconhece ou que não se tem pleno, porque não se tem. Pode ser, inclusive, o equívoco total e a inaptidão para lidar com o desconhecido. O amor pode ser a crueza lírica da vida.

Ou provavelmente eu esteja deveras equivocado, sendo evasivo para não falar o que realmente acho que seja a paixão ou o amor. Porque gosto de colecionar indagações; gosto de digeri-las a longo prazo para ver sentido nas coisas que, em verdade, não serão explicadas por nossas mentes lógicas demais. O amor é atravessar a fronteira da loucura com paixão ou fazer o caminho de volta, resignado, em completa redenção.

Eis que chega a parada dele, sua hora de partir, de me dizer adeus. Notei um sorriso nele ao apertar o botão de sinal da parada (seria seu adeus ou um convite?). Ali mesmo, enquanto meu amado desconhecido descia os degraus e se afastava; ali, local que eu nem poderia descrever em verbetes; ali ambos rompemos. Findamos nosso relacionamento indigente. Ali, enquanto as portas fechavam e nos afastávamos gradativamente, terminamos. Eu levado pelo ônibus lerdo, e ele levado por seus passos lentos, femíneos (delicadeza que me arrouba desejos e arrebata ternuras primitivas). O instante já era outro – tudo mudara. Eu o amava da forma mais ridícula e crua e em glória desavergonhada.

Meus sentimentos são os mesmos existindo comigo – fluidos como um rio que, talvez ao desaguar no mar, nunca se reencontre novamente no leito. Os dele? Nem sei por onde andam ou para quem, agora, vivem. Talvez me esperem rever em algum trajeto qualquer de um ônibus qualquer em um horário qualquer ou virem memória ou polução noturna precedida de um sonho ardoso.

O amor é tão curto que se faz no instante mais ínfimo.

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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