INFERNO DE DANTE

No Inferno de Dante reinam a mentira e a ausência de esperança. Quando a luz se apaga ou bruxuleia no tempo presente, o pensamento sombrio que havia sido expulso pelo Iluminismo sorri e retorna com uma volta triunfante visando à instalação do inferno na terra, onde posa como poderoso. Os representantes destas sombras detestam, por exemplo, pensadores límpidos como Paulo Freire, o pedagogo da esperança, da autonomia, da libertação e da comunhão humana.

Hades, para os gregos antigos, significa o invisível. Ele era mais conhecido como Plutão, o detentor de riquezas subterrâneas. Do qual deriva o termo plutocracia. Hades era o rei do Tártaro: um lugar invisível, um destino final, imerso nas trevas, escondendo monstros e demônios. Para o poeta épico Homero, seria o espaço horripilante, cheio de bolor e podridão (Ilíada, Canto XX).

Na escatologia cristã, o Inferno é o estado final dos impenitentes. Lá há ausência de Deus, como também se dissolve a comunhão, o que leva à ruína da personalidade humana. Devido à mentira, o eu não se reconhece em si nem na relação com os outros.

Para Platão, em seu último diálogo “As Leis, o Inferno seria menos um lugar e mais uma disposição da menteconduzindo o comportamento humano em suas armações contra si e contra os outros. No campo político, para o filósofo, um Estado nacional deve ser livre, racional e amigo de si mesmo.

A partir destas imagens e concepções, o poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321) arvorou-se, tendo como pano de fundo a adversidade entre guelfos e gibelinos, na empreitada de elaborarA Divina Comédia”, com a qual destilou sua revolta e indignação em relação à corrupção e mediocridade do seu tempo, defendendo com unhas e dentes a justiça e a dignidade humana, por meio de uma competente expressão dos enigmas e simbolismos dos quais as imagens são portadoras.

Dante fundou-se na cosmologia aristotélico-tomista para a qual as quatro modalidades de transgressão seriam a incontinência (descontrole), a violência, a fraude e a traição. Aristóteles já afirmara, em sua “Ética a Nicômaco”, que humanos eram incontinentes quando estavam ligados à cólera, ao lucro e à honra. Para ele, humanos incontinentes são aqueles que sabem a verdade, mas não a colocam em prática.

De onde se indaga: qual a maior aflição para um mentiroso incontinente? A possibilidade da revelação da verdadecom suas consequentes implicações.

Ontem, 12/05, um momento histórico transmitido pela TV Senado foi a arguição, na CPI do Genocídio, do ex-chefe da Secretaria de Comunicação (SECOM) do governo Bolsonaro, Fábio Wajngarten, um encontro entre “o grotesco e o sublime”, como disse Goethe (1749-1832) sobre a monumental obra toscana.

Wajngarten chegou ao governo em abril de 2019, após haver apoiado ostensivamente Bolsonaro na campanha de 2018, ajudando-o a se aproximar da comunidade judaica. Entre muitas situações controversas, como principal sócio (95% das cotas) da empresa FW Comunicação e Marketing, prestadora de consultorias às redes de televisão, sua empresa recebeu dinheiro destas redes de tv e escritórios de publicidade contratados  pela própria SECOM por ele comandada desde então, o que implica em aberto conflito de interesses.

Em março de 2020, já em plena pandemia, em vez de produzir uma campanha alertando a população sobre o perigo da Covid-19 com a consequente necessidade de mudança de hábitos sociais, a SECOM de Wajngarten lançou a peça publicitária “O Brasil não pode parar”, incentivando a flexibilização do distanciamento social, defendida por Bolsonaro. Em ação civil pública, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro pediu o fim imediato da campanha, requerendo que o governo federal reconhecesse, entre outras coisas, que a publicidade não possuía embasamento científico.

O lema da campanha indecente colocou em evidência a estratégia decidida do governo federal em induzir a população brasileira à infecção aberta e intensa do coronavírus. O que ocorreu ao longo de todo ano de 2020, tanto pela divulgação continuada da cloroquina, por parte de Bolsonaro em suas manifestações públicas, como pela postergação na contratação de vacinas.

Se não fosse a atuação de prefeitos e governadores, resistindo a esta política genocida do governo federal, hoje estaríamos lastimando muito mais do que os 430 mil mortos (pelos dados oficiais). Para registro, na semana passada faleceram o tio de minha nora, a esposa de um amigo de meu filho deixando órfã uma filha com cinco de idade e está agonizando num leito de hospital, em Curitiba-PR, entre a vida e a morte, um grande amigo focolarino.

Em 12 de setembro de 2020, o presidente mundial da farmacêutica estadunidense Pfizer endereçou uma carta ao Presidente da República do Brasil (com cópias para o ministro da Saúde, entre outras autoridades), na qual afirmava que a potencial vacina da Pfizer e BioNTech é uma opção  muito promissora para ajudar seu governo a mitigar esta pandemia. Quero fazer todos os esforços possíveis para garantir que doses de nossa futura vacina sejam reservadas para a população brasileira, porém a celeridade é crucial devido à alta demanda de outros países e ao número limitado de doses em 2020”. Este documento ficou esquecido pelo presidente e seus ministros por pelo menos dois meses, sem nenhuma resposta célere sendo encaminhada.

Não obstante essas e outras comprovações, o ex-secretário Wajngarten durante o interrogatório tergiversou, mentindo, iludindo, esquivando-se de revelar a verdade dos fatos indagada serenamente pelo Relator.

Todavia, o momento mais revelador foi a chegada ao plenário da CPI de um grotesco e conhecido personagem incontinente: Flávio Bolsonaro, vulgo Zero Um. Como é notório entre os incontinentes, não possuem argumentos racionais e verossímeis; quando acossados, carregam nas agressões. Não deu outra: claramente transtornado, ciente da ameaça que a CPI do Genocídio representa para a revelação dos atos nefastos do seu pai, Zero Um chamou o senador Renan Calheiros de vagabundo.

Tal pai, tal filho. Em 2020, a organização jornalística Repórteres Sem Fronteiras registrou 580 ataques incontinentes de Jair Bolsonaro contra a imprensa. Em janeiro de 2021, o pai disse em vídeo que era para “enfiar o leite condensado no rabo da imprensa”.

Para Dante Alighieri, a saída do Inferno se dá pelas mãos de Beatriz, aquela peregrina comprometida em trazer a felicidade para os outros. E talvez essa seja a grande prova histórica brasileira” do tempo presente, como bem a denominou o Papa Francisco na mensagem ao encontro da CNBB em abril último: reencontrar subjetividades,valores, sociabilidades e estruturas capazes de produzir bem comum, onde os incontinentes mentirosos não ocupem os postos de poder. O desafio está por reencontrar Beatriz.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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