A Incrível Aventura de Rick Baker: E os vastos contornos do ser paterno

O tema é um dos elementos-chave para o desenvolvimento de uma obra cinematográfica. E os melhores filmes tendem a ser aqueles que conseguem, a partir do seu tema, apresentar estórias originais e que utilizam toda a potencialidade que a linguagem cinematográfica a seu favor. Um dos realizadores que melhor faz isso na contemporaneidade é o neozelandês Taika Waititi. Em seu quarto longa metragem, “Hunt for the Wilderpeople”, que no Brasil recebeu o genérico título de A Incrível Aventura de Rick Baker, o diretor lança um olhar singular sobre a construção  dos laços familiares e os desafios da paternidade.

 

No longa, uma caçada nacional tem início após um garoto rebelde chamado Rick Baker (Julian Dennison) e seu tio-pai adotivo (Sam Neil) desaparecerem nas densas e selvagens florestas da Nova Zelândia. Simples, direto e refinadíssimo, o filme explora por meio de uma elaborada comédia dramática, uma viagem de descobertas. Esse descobrir é certeiramente trabalho pela obra por meio do desenvolvimento das relações a partir de tudo aquilo o que esses personagens não partilham ou (em tese) não o são.

 

Mas esqueçamos as convenções. Porque aqui os contornos da maternidade e da paternidade são desenhados de um modo muito particular. Taika dispensa o uso de clichês que poderiam certamente minar o tom da obra, como a opção por mesclar melodrama e comédia, em detrimento a uma ideia de unidade e fluxo contínuo do humor-direto.

 

Ou seja, mesmo quando um evento de contorno mais dramático ocorre no filme, ele o vem para lançar a narrativa para frente. E se perdemos um personagem que é uma das chaves na estória, essa ausência é precedida por toda uma abordagem inicial e de desenvolvimento desse elemento. E por isso mesmo, entendemos a intenção do diretor em deixar essa figura para trás.

Apesar de ser uma comédia, o longa se utiliza de elementos dramáticos para dar consistência à sua estrutura.

Dito isto, o longa segue com Rick e Hec enquanto as duas personas responsáveis pela criação do elo parental que a estória acompanha. E como é interessante (e divertido) vermos uma perspectiva de um relacionamento entre “pai” e “filho” que parte de uma ideia não convencional. Porque Rick inicialmente não queria ser filho. E Hec não possui muito jeito para ser pai. Entretanto, a partir das adversidades que ambos terão de enfrentar no curso da narrativa, uma teia afetiva é criada sem que eles (e nós também, enquanto espectadores) percebamos.

 

E esse é o ponto de ignição do bom exercício cinematográfico. Da obra que discute temas, nesse caso, a paternidade e a construção complexa de seus laços; e também o fazer metalinguístico do cinema se potencializando a partir de tudo aquilo o que sua rica gramática oferta. Entendendo que se há um tema, ele deve e é tratado com muito carinho por quem o realiza pela arte. E aí cabe entrarmos um pouco no sentido do filme. Porque pode-se haver o filme e sua intenção, mas também há de se considerar as limitações advindas das variáveis controláveis e incontroláveis do exercício de realização no audiovisual.

 

O foco temático, nesse sentido, resvala diretamente (para o bem ou mal) no coeficiente final do filme. Positivamente, entretanto, em Hunt for the Wilderpeople a linha mestra é a investigação em torno da evolução daqueles personagens. E de como eles crescem em cima dos conceitos que vão absorvendo em meio às suas jornadas. Hec, o “pai” em treinamento aprende lições riquíssimas com o jovem Rick como a alteridade, por exemplo. E Rick descobre, por outra mão, sobre a responsabilidade em torno dos nossos atos.

Todos esses pontos são trabalhados sem que o gênero que guia o filme, no caso, a comédia, seja subvertida ou subaproveitada. Como autor que leva assinatura em suas obras, Taika mostra um domínio extremo na narrativa que conta. Ele mescla sempre a construção naturalista dos eventos que seguem no longa com variações tonais de gêneros da própria comédia e dos filmes de aventura. E isso se percebe com o uso de uma trilha que acompanha cada um dos personagens até o tom de absurdo e nonsense em que estes se envolvem.

 

Um homem que pede para tirar selfies com Rick por reconhecê-lo como o garoto foragido da lei. Ou uma força tática que persegue Rick e Hec como se estivéssemos a ver uma sequência de Velozes e Furiosos são alguns dos exemplos de como o humor são autênticos e reforçam, por meio da chacota, um tom leve e simpaticíssimo ao filme. Essa leveza, entretanto (repito) nada tem a ver com displicência no fazer cinematográfico. São, na verdade, a marca que faz o cinema de Taika Waititi um dos mais ricos da experiência cinematográfica na contemporaneidade.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Hunt for the Wilderpeople

Tempo de Duração: 101 minutos

Ano de Lançamento (Nova Zelândia): 2016

Gênero:  Comédia, Aventura, Drama

Direção: Taika Waititi

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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