Império dos Sonhos: o cinema que rompe as fronteiras do real

A experiência do cinema se potencializa no rompimento das fronteiras da realidade. Godard nos cantou isso e o tem feito ao longo de toda sua carreira como realizador. Mas não apenas ele. Porque quando pensamos a cinematografia norte-americana, vemos algo além da proposta do entretenimento toda vez que nos deparamos com o cinema de um autor como David Lynch.

E na difícil tarefa de filtrar sua obra, vale considerarmos cada filme seu, dentre os 9 longa metragens que compõem sua carreira, como parte da proposta de um cinema iminentemente pensante. E assim nos debruçamos sobre Império dos Sonhos (2006).

Na estória, Nick Grace é uma atriz casada que é convidada para estrelar um filme sob a direção de Kingsley Stewart (Jeremy Irons). O trabalho seria uma refilmagem de uma produção polonesa cujos protagonistas morreram durante as gravações. Aos poucos, Grace vai se envolvendo com Devon Berk (Justin Theroux), ator principal do filme. E dá início a uma trama onde realidade e ficção se misturam.

Apesar de termos a sinopse como fio condutor de uma relação fílmica, ela, na verdade, apenas nos lança na experiência cinematográfica da maravilhosa corrente surrealista. E o que se coloca em jogo nessa importante vertente, que tem em Luis Bunnuel seu maior expoente, é a forma como o filme nos desloca enquanto espectadores. E no modo como deixamos de somente sê-lo à medida que nos expomos a ele.

Falar desse cinema como “sensação” relutantemente soa vago. Mas, em uma busca por refletirmos os sentidos da arte de Lynch, esse seria um ponto básico. Partirmos do que sentimos, então. E nesse sentir, o que vale é deixarmos que o filme nos guie aonde nossa percepção acredite que ele possa nos levar. E essa é uma viagem no mundo do onírico e das próprias referências de Lynch.

O filme é uma viagem no mundo do onírico e das próprias referências de Lynch.

Assim, somos apresentados a uma narrativa que se contorna naturalista, mas que a cada nova sequência vai se moldando de maneira diferente. Progressivamente, notamos que Grace transita em distintos espaços fílmicos, locais intertextualidades das próprias obras de Lynch.

Naquilo que corresponderia à sua apresentação, enquanto personagem da obra, logo nos damos conta que essa mesma figura vai se inserindo em outras “realidades” que o longa vai abarcando. E aí é que a viagem começa. Transitamos com Grace pelas camadas intertertextuais que o realizador teceu. E acredite, perder-se aqui é facílimo.

No longa, transitamos nas camadas intertertextuais que o realizador teceu. Como na inserção de cenas do curta Rabbits (2004)

Entretanto, esse perder-se na verdade é o caminho mais prodigioso que o cinema pode transmitir para si próprio. Essa nos parece uma linha mais sólida na construção de uma arte que iminentemente sela um compromisso com a reflexão em nosso tempo. E, acima de tudo, nos desloca do nosso lugar espectatorial. É, portanto, um generoso gesto desse fazer artístico que também se reconfigura a partir do nosso olhar e modos de o interpretarmos.

Esse é o lugar da cinematografia contemporânea, seja ela de origem norte-americana ou asiática. É o lugar do inventivo. Do cinema que se vale da criatividade em forma e conteúdo, cuja ousadia jamais vai pressupor a subestimação do olhar de quem assiste e se lança na experiência que o filme deve ser. E essa é a experiência de estarmos diante de um universo tal qual o criado por David Lynch.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Inland Empire

Tempo de Duração: 170 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2006

Gênero: Drama, Thriller

Direção: David Lynch

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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