Idiotas inúteis, sr Presidente? por EMANUEL FREITAS

Menos de 48 horas depois de ver seu eleitorado fiel, e barulhento, responder positivamente a seu chamado de ir ás ruas defender “seu governo” – na verdade, defender sua persona -, o presidente Bolsonaro deu mostras de que não havia encampado a pauta que mobilizou seus eleitores.

Se nas ruas havia sido visto um clamor contra tudo o que “atrapalhava” o “messias” – imprensa “vendida”, Rodrigo Maia, o centrão, o STF e a retomada do COAF pelo Ministério da Economia -, no Planalto o presidente deu com os ombros para essa pauta.

Para “dar atenção à voz das ruas” (obviamente, daquela “rua” que lhe interessa), Bolsonaro propôs um café da manhã com ninguém menos que Maia, Toffoli (de quem os manifestantes pediram o impeachment, conforme eu mesmo vi na Praça Portugal) e Alcolumbre, o que talvez fosse impensável para seus seguidores, acercados que são da autocerteza de pureza. Saiu de lá apregoando um “pacto” a ser selado entre os Poderes, dos quais se deve destacar o Legislativo presente na Câmara, onde o bom e velho “centrão” dá as cartas. Esse pacto terá tais atores como protagonistas, Jair? Já combinou com seus eleitores?

Não bastasse isso, Jair enviou uma carta ao Senado pedindo que a MP que trata sobre a reestruturação do Governo seja aprovada tal e qual saiu da Câmara, para não perder a validade, garantindo que o COAF saia das mãos de Moro, permanecendo na pasta de Guedes, contrariando, assim, a tal “vontade das ruas”. Sendo assim, já que para seu séquito o COAF fora das mãos de Moro significaria nada de investigação contra corruptos, terá nosso messias contemporizado? Para espasmo maior do leitor, até Moro foi contra “as ruas”, ratificando o pedido de Jair ao Senado.

Enquanto as “ruas” rejeitam o STF, e Toffoli sobretudo, seu líder com ele sela um pacto; enquanto as “ruas” rejeitam o centrão, seu líder pede o empenho deste na aprovação de seus desejos; enquanto querem que o COAF permaneça com Moro, nem este sem Jair mobilizam-se por sua vontade; enquanto fala de imprensa “vendida”, seu líder trata de “conversar” com outra mídia, aquela que, de tanto lhe entrevistar amigavelmente, recebe consideráveis cifras em publicidade, sendo “vendida” de outro modo.

Aos sujeitos que compareceram às ruas no último dia 15 de maio, por lhe serem desafetas, Jair referiu-se como “idiotas úteis”. Sua “utilidade” era ser manipulada por “elites” que dominam as instituições de ensino. Pois bem, parece que os sujeitos que foram às ruas no domingo, cidadãos de bem e o “verdadeiro” povo brasileiro, segundo Jair, nem “utilidade” têm para mobilizar seu líder, uma vez que sua agenda não tornou-se a de seu líder. Seriam idiotas inúteis, senhor Presidente?

A ser assim, não haverá problemas para eles pois, como nos lembra um vídeo viralizado durante a campanha, eles nos responderão: “prazer, eu sou o robô do Bolsonaro”.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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