Idioma de pedra – por RENATO ÂNGELO

Quando se chega a uma determinada altura na estrada da vida é comum às pessoas fazerem indagações sobre sua origem. É que ter uma clara noção de traçados, destinos e pontos de partida sempre colorem o gris da existência com algo mais. Nossa doce ilusão de controle. É nossa vida clamando por ordem, modelos ou sentido… isso! Sen-ti-do! Aquilo que, por existir nos homens e mulheres, há nas cidades, na linguagem e no tempo.

Outro dia, caminhando por nossa cidade, lembrei-me daquilo que lera em Wittgenstein “-  nossa língua pode ser vista como uma cidade antiga: um labirinto de pequenas ruas e praças”. Compreendi que se a língua é como a cidade, esta também seria como um enorme idioma de pedra. Isso me trouxe a sensação de caminhar por dentro de um livro com pautas de asfalto, páginas de cimento e margens pedregosas.

Um passeio por dentro da cidade é como uma viagem ao coração de nossa linguagem, de nosso tempo, e de quem somos em estado coletivo. Um amalgama de potências em conflito, horrores, belezas, domicílios e o avesso destes. Sua estrutura, seus elementos, usos, lacunas. Porém – sempre há um porém! – há páginas faltando neste livro. A pluralidade arquitetônica de Fortaleza fora mexida, assim como nosso passado, nossa vida e trajetória. Li o centro da cidade como a um capítulo reescrito. A beleza de algumas palavras sufocadas por novos verbos como farmácias-conceito e estacionamentos… sim! Estamos farmaciando nosso passado coletivo, suprimindo vocábulos pétreos os quais abrigavam a virtude de nos delatar quem somos e quem fomos. A conjugação desse verbo intransitivo-intransigente – “farmaciar” –, à medida que não flexiona no pretérito perfeito, desnuda a identidade de nosso livro, roubando-nos as raízes, apocopando nosso futuro, aceitando a doença que nos toma de assalto.  Empórios, sobrados, oficinas, pequenos conectivos em belle époque, diminutas cápsulas do tempo em idioma de pedra, filhos de um modo imperativo que, agora, substituímos pela incerteza de nosso subjuntivo caótico urbano.

Sua leitura é difícil e irregular por conta de tantos buracos, tantas lacunas… Temos a impressão de vivermos em outros tempos, com outros arquitetos a traçarem o fio de nossa existência. O desenho de uma sociedade de extremos… polarizada… dividida entre os edifícios do excesso e as malocas da carência. Quem haverá planejado esta cizânia? Quem nos há ensinado diuturnamente o léxico do ódio? Quem tem transformado nossas estruturas (lingüísticas e arquitetônicas) em beligerância excludente e poder simbólico segregacionista? Não há pontes projetadas entre os extremos onde muros separam os advérbios e as conjunções das cidades e das gentes. – E como muros têm sido criados! De concreto… de minutos… de impropérios! Paredes feitas de neurônios (ou da falta deles) e até muretas cibernéticas aprisionando milhões: divisão.

Fiquei frustrado! Gostaria de falar da arquitetura da Santa Sé, Praça Barbara de Alencar, Liceus, Lord Hotel, TJA, Iracema Plaza Hotel… mas não! A beleza e o deleite foram furtados da crônica pelo crônico da doença que nos une. Sequer há poema possível quando a estética vira um sem-teto vagando absorto pelas calcadas vazias. A humanidade foi roubada da cidade… Talvez por um motoqueiro: loucoção verbal urbano… kamikaze das frases de piche da cidade-linguagem.

O leitor há de pensar que sou exagerado ou fatalista. Há de considerar, entretanto, que nossa era, a despeito de toda pompa e suposto progresso, segue obtusa e obscurantista. Vivemos tempos muito estranhos. Tempos que têm o medo e intolerância munidos de compasso e esquadro. Quem sou eu, então, para brigar com quem tem a mesma profissão de Deus? Tampouco brigarei com os engenheiros, executores fiéis dos desideratos previamente arquitetados. Reservo-me a tarefa de levantar algumas questões enquanto trilho e vejo a cidade e os dias por meio de pontes. Nesse percurso se vê que quem domina nossa linguagem – da boca, dos corpos e da mente – também o faz com nossa cultura e estruturas arquitetônicas. Sem o verbo “rebelar-se” não há levantes. Sem casa não há lares. Sem calma esfumam-se os segundos dos ponteiros. Os lotes demolidos no seio da cidade servem de berço a novas linguagens alienígenas. Estranhos ídolos de pedra falando exclusão e engolindo pessoas cujo prazer em consumir veneno, e comprar febrilmente sua própria doença, se faz flagrante dessa bizarra idolatria. Há uma equação na álgebra dos sítios da urbe que tem expurgado de seu ventre ao humano.

Procurei as ferramentas para desenhar um novo destino. Vi, na cidade, na linguagem e no relógio, espelhos do que eu não queria. Busquei refugio no bunker de minha psique. Ali não havia pilotis, salas em L nem pé direito alto. Mas resiste neste recôndito aposento a matéria bruta de novos desenhos e novas plantas baixas. Sim! A palavra é “resiliência”!

Não, querido leitor. Não nego o belo que há nos desenhos cimentados da minha cidade. Cimentos de sangue, suor e vidro. Apenas creio que é chegado o momento de gritar outras arquiteturas. O momento pede. Enquanto há momento, linguagem e estruturas de liberdade: frestas no trincado concreto dos muros, dos dias e das vidas plurais da cidade.

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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2 comentários

  1. Heliana Querino

    Eu queria falar tanta coisa sobre o teu texto, Renato… E entendo quando escreveu sobre sua identificação com o texto Meio-fio “reflete também o que penso e sinto”…
    A beleza e o deleite de ilustrar, com palavras, o espirito da cidade . Crítico-poeta-cronista

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