HÉLIO BICUDO, HERÓI OU VILÃO? por Eduardo Fontenele

Hélio Bicudo foi um jurista e político morto recentemente, em 31/07. Bicudo ficou conhecido como defensor dos direitos humanos e homem íntegro pela direita. Um verdadeiro herói da pátria. Ao mesmo tempo em que era considerado um inimigo notório da esquerda, um traidor, principalmente do PT, partido do qual foi um dos fundadores.

Comecemos pelo lado mais conhecido pela mídia, o lado mais divulgado e positivo do ex-petista. O lado heroico do personagem, o que ficará registrado na história oficial. E não deve demorar para que surja uma biografia de Bicudo no mercado.

Nas décadas de 60 e 70, em plena Ditadura Militar (1964-1985), o jurista foi indicado pelo Colégio de Procuradores de São Paulo como responsável pela investigação de um Esquadrão da Morte, formado por policiais, que atuava clandestinamente na capital paulista.

O grupo de justiceiros executava criminosos a sangue frio. Bicudo chegou a ser ameaçado de morte durante a sua investigação, mas não recuou nem se amedrontou. É preciso reconhecer que o franzino jurista tornou-se um gigante em sua coragem de enfrentar essa perigosa milícia. Ele denunciou os integrantes do grupo parapolicial, mas teve sua missão cancelada pelo procurador-geral de Justiça no ano de 1971. Os principais envolvidos na organização criminosa não foram punidos. O resultado da investigação foi o livro Meu Depoimento sobre o Esquadrão da Morte.

Uma metáfora literária para definir a atuação de Bicudo na vida pública seria a obra conhecida no Brasil por O Médico e o Monstro (1886), do autor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894). Na novela gótica, o Dr. Jekyll usa a ciência para explorar o lado obscuro de sua personalidade, dando lugar ao nascimento do vilão Mr. Hyde, que é outra faceta de sua personalidade. O livro explora o lado cruel de pessoas supostamente do bem.

Agora, o lado sombrio do personagem Bicudo. O lado que a direita tenta esconder. Que a mídia tenta omitir, para preservar a imagem do defensor da moralidade na política. O político acima de qualquer suspeita.

Bicudo iniciou sua cruzada pessoal contra o Partido dos Trabalhadores em 2005, supostamente, por causa do escândalo do mensalão. Decepcionado com o rumo que o partido tomou, se desfiliou da legenda. Isso é o que dizem alguns. Mas há outra versão. Bicudo guardou rancor de Lula até o final da vida por este não ter lhe indicado como embaixador em Genebra, na época em que era presidente. O jurista teria externado essa vontade indiretamente, mas não foi recebido por Lula para expor sua ideia.

Bicudo usava a mídia para destilar seu ódio venenoso contra os petistas. No Programa Roda Viva, da TV Cultura, relatou, sem apresentar provas, que Lula enriqueceu durante sua passagem pela presidência da República e que possuía, junto com seus filhos, uma das maiores fortunas do País.

Como se pode ver, Bicudo não era nenhum idealista como os conservadores gostam de alardear, suas motivações eram bem mais mesquinhas do que foi propagandeado pela direita reacionária brasileira. A motivação foi orgulho! Lula não lhe deu o cargo que desejava, então voltou-se contra seu ex-companheiro de partido.

Outra metáfora perfeita para definir o personagem seria a peça trágica criada pelo bardo inglês William Shakespeare (1564-1616). A peça chamada Otelo, o Mouro de Veneza (1622), onde o personagem Iago, que é um sub-oficial do exército, se volta contra o protagonista Otelo, um general que serve o reino de Veneza, por este ter dado o cargo de tenente que Iago almejava para o personagem Cássio. Então, o vilão passa a utilizar-se da arte da intriga para destruir as vidas de Otelo, Cássio e Desdêmona, a esposa de Otelo. Qualquer semelhança com a intriga envolvendo Bicudo e Lula não é mera coincidência. Bicudo foi um personagem shakespeariano típico. Invejoso, amargo, alcoviteiro.

Nas eleições de 2010, ele apoiou Marina Silva (do PV na época), outra dissidente do PT. No segundo turno, declarou apoio ao tucano José Serra, se posicionando contra a então candidata petista Dilma Rousseff.

Bicudo foi um dos advogados autores do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2015. Juntamente com a professora de Direito Penal da USP, Janaína Paschoal, e com o jurista Miguel Reale Júnior. O ex-deputado condenado pela Lava Jato Eduardo Cunha (MDB), que era presidente da Câmara dos Deputados na época, acatou o pedido e deflagrou o processo que retiraria Dilma do cargo.

Os próprios filhos de Bicudo vinham questionando a guinada conservadora do pai no ocaso de sua vida. José Eduardo Bicudo, seu filho, em uma carta dirigida a Lula, disse: “Meu pai continua a se manifestar de maneira raivosa e grotesca”. Apenas Maria Lúcia Bicudo, uma de suas filhas, apoiava as recentes atitudes do pai. Ela apoiou o golpe que o jurista ajudou a engendrar contra Dilma.

Uma biografia ideal do Dr. Hélio Bicudo – quando for lançada e logo será, aposto -, deverá conter os dois lados de sua personalidade partida: o jurista corajoso, mas desleal; o político íntegro, mas traiçoeiro; o homem competente, mas invejoso. São dois lados de uma personalidade cindida, capaz de atos de bondade e maldade na mesma proporção.

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele formou-se em jornalismo pela Devry Fanor em 2016, publicou o livro de contos Abstrações em 2017 e é administrador dos blogs Drops de Filmes e Pensando desde 1978.

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