HÁ DESENHOS NA AREIA PORQUE O MENINO NÃO ERA SUFICIENTE PARA A VIDA! – Jair Cozta

Quando pequeno, tomei gosto pelo desenho e pela pintura. Aos quatro anos já sabia desenhar copiando de outros desenhos e já fazia corpos ou representações preenchidas (quando o corpo tem volume ao invés de cinco palitinhos conectados e a bolinha no topo). Hoje eu consigo entender o que dizem ser dom:  algumas criaturas nascem e adquirem uma capacidade específica graças a afinidade e o contato com determinado tipo de experiência ou saber. O dom nada mais é do que um acaso primordial. O dom sem trabalho, sem estudo, sem prática, sem seriedade, pode se tornar o maior sucesso da mediocridade. Na arte também é assim.

Na minha infância, o desenho passou a assumir uma função essencial para minha autoproteção. Virou um vício. Desenhar e pintar era uma prática cotidiana. Se eu não a fazia, entrava em desespero. Quando acabavam-se as folhas de cadernos, eu saía à procura dos cadernos antigos das minhas irmãs, usados em anos letivos anteriores, os quais eram guardados por minha mãe em uma antiga estante de madeira. Eu aproveitava cada pedaço limpo das folhas, cada lado não usado. Quando não havia mais, eu usava meus cadernos, mas já tive momentos completamente sem papel. Uma crise me acometia. Era a minha vida, minha fuga, minha única realização infante quando o peso da vida oprime as omoplatas de uma criança delicada como eu fui e, ouso dizer, ainda sou. 

Meus pais não tinham dinheiro. Vivíamos da agricultura e da  pesca de meu pai e das costuras feitas pela minha mãe. Havia um bar que só existiu enquanto minha mãe tentava administrar, afinal eram sete filhos, sete bocas, sete corpos, sete espíritos, sete indivíduos, sete vidas.

O pai bebeu o bar como a sociedade bebeu a autonomia de minha mãe pensar sobre si mesma acima de qualquer ser humano na Terra, como o amor levou de mim a alegria que me iludiu nos últimos anos. A sorte (não sei se esta é a palavra) é que podemos jogar a tinta branca na tela e começar o quadro do desastre da nossa infância novamente. Vai borrar um pouco, demora para secar tantas camadas de tinta, mas é possível repintar algumas coisas. Outras podem ser aproveitadas. Nada é permanente na crueza do mundo.

Nessa perspectiva, a infância como desenhista e pintor autodidata me ensinou precocemente o significado da ausência e de como lidar com ela criativamente: quando não havia papel dentro de casa, eu ia para o alpendre, cujo piso não era de cimento, mas todo coberto de areia fina. O pai gostava de deitar na areia fria no começo da tarde e chamava os filhos – ele dizia que era saudável para a imunidade e que, quem não andava descalço, crescia fraco, sem forças. Mal sabia ele que era verdade. Pescadores são como grandes sábios, grandes mestres do saber ancestral. As melhores qualidades do pai eram traços da cultura indígena, legado dos potiguaras. Os defeitos eram todos da ascendência portuguesa, evidentemente. Muito embora um péssimo marido, um pai de afeto duvidoso, ele tinha qualidades. Esta é a primeira vez que me refiro a ele como pai. A memória trai a nossa língua, nos fazendo entender o quanto somos capazes de aprender e entender com nosso passado e com nós mesmos. Salve a arte!

O pai não sabia, mas criou um ambiente perfeito para que eu pudesse desenhar nos finais das tardes ou inícios das manhãs, na hora do café, cerimônia sagrada minha e da mãe até hoje. Primeiro eu passava o pé calçado no chinelo para tornar a areia plana, lisa como uma tela ou como uma folha de papel. Depois, como quando Olorum criou o Orum e depois ordenou a criação do Aiyê, eu pegava um palito qualquer do chão e começava a desenhar, geralmente figuras femininas de minha imaginação, talvez não realização, ou desenhando personagens de animes e outros desenhos animados da TV. 

No processo de desenhar, eu narrava em voz alta a aventura construída por minhas divinas mãos. A mãe vinha da cozinha saber que alarida era aquela e eu explicava que estava criando uma história. Ela dizia: “Faz mal falar sozinho, menino. Tu ainda é pagão!”. Eu tinha que parar e fazer tudo em silêncio, sussurrando baixo ou apenas pensando as palavras da narrativa ou as falas de cada personagem dentro de mim, de forma sem graça, sem emoção, sem verdade. Aos 11 anos me batizei, mas aí eu já tinha estratégias para lidar com os controles da mãe e ia para debaixo dos cajueiros brincar com minhas estórias, sem censura e com a maior licença poética que possa existir (e com toda a sexualização que a indústria farmaco-pornográfica do pós-guerra pode possibilitar à humanidade nos anos 90). Lá, eu era a Tempestade, a Mística, a Mulher-Maravilha, o Magneto, a Sakura, a Xena e a Calisto num mesmo embate (lutar consigo é algo que domino desde criança) e por aí vai. Debaixo dos cajueiros eu voava em uma alegria pueril que, sei bem, nunca mais sentirei igual na minha vida.

Do desenho, comecei a pintar também. Em alguns momentos ganhei muitos pincéis, canetinhas, lápis de cor, giz de cera, tintas e mais tintas. Criei outras coisas, ganhei prêmios que um filho de pescador e de costureira jamais se imaginaria capaz, descobri coisas, tive certeza de outras e abri meus olhos para mim. Vivi com o desenho e com a pintura a beleza e descobri além. Hoje apenas exercito minha habilidade, mas sem muita técnica ou identidade próprias. Ilustro coisas para mim e penso em desenhar mais. Penso em fazer tempo para isso não acabar em mim. A vida nos tira até o dom.

Eu desenhava na areia porque desenhar era urgente e não havia papel, ou às vezes tinha o papel, mas não tinha caneta. Às vezes faltam coisas que só fazem sentido juntas, que nem quando se ama e não se tem mais o amor do outro – a gente fica com um amor imprestável dentro de nós, a gente ama mas não serve para nada e não há conforto para o amor verdadeiro. Por isso é bom fingir e contar histórias para si e para o mundo. O mundo precisa das histórias pintadas, desenhadas, escritas, musicadas, fotografadas, encenadas… sem as histórias morremos. Sem narrativas, sem a arte, nossa existência será, sempre, dispensável ou, se não o for, ao menos feia, horrível, esdrúxula.

Eu desenhava na areia para sobreviver 27 anos e contar essa história para você que me lê.

Pergunto: você acredita nas histórias que conto?

Dedico este texto a minha mãe, Conceição, e a meu pai, Getúlio, os quais me amaram como puderam, me educaram como aprenderam e com os quais tenho aprendido a força de perdoar as injustiças sistêmicas da vida.

 

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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