Guerra santa

O antigo Israel teocrático deixa marcas indeléveis quando se trata da influência na mensagem cristã ao longo de pouco mais de dois milênios de existência. O tema da guerra santa é um deles. A saga começa no Pentateuco, mas vai se estabelecer como padrão prático no livro histórico de Josué. O foco de uma guerra santa é o de manter Israel afastado de contaminações pecaminosas e o de trazer benefício para o expansionismo territorial do seu povo, como aconteceu na batalha de Jericó, primeira etapa da conquista da terra de Canaã.

Zeloso no culto ao seu deus nacional, Israel compunha uma sociedade teocrática na qual adotava uma postura aniquiladora, normal para os padrões da cultura dos povos de seu tempo, em relação aos povos indefesos e transgressores por pecarem na prática de culto a outros deuses (Js 6, 19-24). Em seus ataques a tais povos, promovia o abate populacional total, a partir do qual o culto à divindade israelita seria preservado e expandido (Fonseca Junior, Joel Theodoro. Guerra santa e interdito em Josué. ReBíblica, Rio de Janeiro, 2022).

No bojo da guerra santa havia um item em especial, denominado interdito divino, que separava para a divindade a parte primeira dos frutos de uma batalha que estava inaugurando uma nova fase, uma nova campanha militar. O resultado imediato eram oferendas às divindades: vidas e objetos de valor – ouro, prata, ferro – que eram entregues e depositados como parte da aliança assumida por aquele povo com sua divindade. Israel chamava essa prática de herem. Mas existia uma diferença: no caso dos hebreus havia a possibilidade de salvar vidas e acolher aqueles que acenassem com a conversão ao deus israelita. O interdito separava na sua totalidade bens e gente para Yahweh. A não entrega dos bens e a não morte das pessoas significava suprimir do Deus israelita aquilo que lhe pertencia por direito divino (Op. cit.).

A guerra santa portava como pano de fundo um ensinamento claro: tanto a obediência quanto a fidelidade permanente do povo ao Deus de Israel. Não apenas Israel aprendia a ser obediente a seu Deus, como também aprendia que Yahweh estendia misericórdia às outras nações pagãs, acolhendo o inimigo que se passasse ao lado hebreu e do seu Deus. Como se verá no futuro, a mensagem evangélica cristã receberá influência direta desta diretriz judaica: “Ide pelo mundo e pregai o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado” (Mc 16, 15-16).

Outro aspecto importante a destacar sobre a guerra santa trata-se do nascimento de um gênero especial próprio na literatura bíblica do Antigo Testamento: os incentivos de guerra. Como em todos os conflitos de guerra estão envolvidos inimigos e o temor em relação a estes. Fazia-se assim necessária uma consulta a Yahweh antes da batalha, além do envio antecipado de espiões para colher informações e avaliar as condições para se realizar ou não o ataque, como ocorreu na batalha de Jericó (Js 6). A proclamação do incentivo dava-se, geralmente na véspera da batalha, por meio do sacerdote (Moisés, Josué, Calebe, Neemias e outros) ao anunciar a resposta de Yahweh à sua consulta. O general da guerra, com base em tal incentivo, alimentava o espírito da tropa. Todos os incentivos procuram eliminar o temor diante do inimigo, apontando para o auxílio militar de Yahweh: não temer e confiar na sua intervenção. Tais incentivos seguem uma sequência bem definida de expressões, formulações, imagens que se repetem constantemente.

Assim, a guerra santa caracteriza-se como um instrumento eficaz para alimentar a fidelidade do povo: “Se transgredirdes a Aliança que Yahweh, vosso Deus, impôs, e se servirdes a outros deuses e vos prostrardes diante deles, então a ira de Yahweh se inflamará contra vós e bem depressa desaparecereis da boa terra que ele vos deu (Js 23,16). Dessa forma, cada fiel israelita deveria se juntar às guerras santas pela honra e devoção a Deus. A presença de Deus na guerra seria a garantia constante de vitória. O único senão quanto a essa garantia era a situação pecaminosa de Israel, que traria uma espécie de resultado reverso contra o próprio povo, numa clara intenção de manter, por meio de uma teologia nacionalista, o alinhamento de Israel ao seu Deus único e nacional (Dt 20, 1-4).

O sociólogo brasileiro Piero Leiner assinala em seu livro “O Brasil no espectro da guerra híbrida” (Alameda, 2020), que para o universo militar toda guerra gira em torno da noção binária de santidade/diabolicidade: “Amigo (Bem) x Inimigo (Mal)”.  Desenvolvida a partir de uma relação sistêmica, na qual uma organização hierárquica comanda as relações das pessoas que aderem a este sistema de guerra, produzindo uma doutrina por meio da qual os fiéis militantes serão formados para desenvolverem total obediência e fidelidade aos comandos hierarquizados.

No Brasil, um pequeno consórcio de militares começou a guerra híbrida dentro da caserna para depois iniciar operações “abroad” (externamente). Ou seja, a doutrina da guerra híbrida brasileira, da qual resultou o Golpe de 2016 com a derrubada da presidente Dilma Rousseff, e a posterior eleição do capitão fascista em 2018, começou no núcleo militar, por uma série de movimentos e mensagens subliminares para a sociedade, a partir das ações do Mensalão e da Lava Jato, com o apoio da grande mídia empresarial corporativa. Para isto foram realizados cursos, palestras, entregas de medalhas, condecorações e toda sorte de reuniões como parte deste expediente, na luta ideológica, outrora anticomunista (Golpes de 1930 e de 1964), agora antipetista, com intuito de gerar adesão (fidelidade) e mobilização (obediência) de segmentos sociais, tendo como foco a geração de um clima permanente de confrontação social a partir da doutrina neofascista e das inversões da realidade por eles desenvolvidas.

No segundo turno da eleição presidencial de 2022, em 30 de outubro, cerca de 69% dos eleitores de matriz cristã evangélica e mais 41% de matriz cristã católica votaram no candidato do fascismo, não obstante todo o histórico dos quatro anos de devassidão e violência promovido por ele à frente do governo federal desde 2019. Apesar da derrota por mais de dois milhões de votos, parte dos extremistas de direita recusam-se em aceitá-la, alimentados pela estrutura hierárquica que comanda os movimentos do gado fascista, criando desde então um clima terrorista de confrontação violenta – real e simbólica – nos diversos níveis da escala social.

No domingo passado, 20, no Rio de Janeiro, mais uma série para integrar a cesta de fatos de crimes a pessoas comuns e ao tecido social promovido pela direita fascista. Por ocasião do Dia Nacional da Consciência Negra, chegou a minhas mãos um documento de uma associação católica denunciando diversos casos de racismo sofridos por membros integrantes daquele movimento religioso: uma mulher negra, dirigente da referida associação, foi seguida de perto por um segurança de um supermercado durante todo o processo de compra de produtos, sendo somente liberada após deixar o estabelecimento; outra dirigente negra ao ir visitar uma companheira, só lhe foi permitido ter acesso ao apartamento pelo elevador de serviço, negado utilizar-se do elevador social; uma adolescente negra sofre ameaças regulares de colegas racistas por ser a única negra em sua sala de aula; outra jovem adolescente vem sofrendo ameaças de morte em razão da cor de sua pele. Como sempre, ataques da maior gravidade!

Há de se questionar por que inexplicavelmente o referido documento não menciona registro de encaminhamentos, por parte de sua direção, das agressões e ameaças para instituições de Defesa de Direitos Humanos ou para órgãos de Justiça e Polícia a fim de incriminar os sujeitos criminosos perpetradores de tais violações humanas. A Lei 7.716/89 pune todo tipo de discriminação ou preconceito. Por exemplo, no seu artigo 11, reza como crime: “Impedir o acesso às entradas sociais em edifícios residenciais e elevadores de acesso aos mesmos. PENA: de um a três anos de reclusão”. Lembrando que crimes praticados contra pessoas com idade inferior a 18 anos, a pena é agravada em 1/3.

Calar diante do fascismo, por medo, por insegurança ou por conveniência religiosa, implica ser conivente com suas práticas e crescimento do ovo de sua serpente. Infelizmente, é isto que estamos podendo comprovar amargamente depois de quatro anos de governo fascista no Brasil. Se não desenvolvermos mecanismos permanentes de defesa social e institucional, o fascismo com sua ideologia aniquiladora não perdoará a ninguém e dizimará a todos que se apresentem contrariamente aos seus vis projetos de dominação violenta. Oxalá aqueles dirigentes acordem e ajam diante dos fatos por eles denunciados. A Justiça é uma espada, não um lenço. No dizer de Guimarães Rosa, a vida requer coragem, não hesitações.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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1 comentário

  1. Valdenir de Oliveira viana

    Vamos e tamos vencendo aos poucos somos luz numa treva que teima em assolar nosso país. O evangelho não é isto que estamos a vivência eu faco minha parte na minha comunidade e inspiramos aos demIs companheiro a fazerem o mesmo por um país melhor e justo mas humanitário a todos

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