GETSÊMANI

Onde houver silêncio, eu ficarei cantando, para não deixar morrer o gesto humano. Belo verso do exímio compositor brasileiro Sidney Miller (1945-1980) na canção “O Navegante”. Excelsos também são outros tantos interpretados pela musa Nara Leão: “Vai, violeiro, me leva pra outro lugar, eu também quero um dia poder levar toda gente que virá caminhando, procurando, na certeza de encontrar”. (A Estrada e o Violeiro, 1967).

Afasta de mim este cálice é o embate entre o antigo e o novo, entre a velha e a nova sociedade, vivido no corpo e no espírito, suando sangue. Flagelação e Morte de Cruz eram o ápice do horror imposto a um ser humano pela tirania romana. Jesus de Nazaré, no Horto das Oliveiras, vivencia sua trágica e vigilante oração preparatória, necessária para não declinar da missão e encontrar forças para o enfrentamento solitário do terror iminente. Jesus poderia ter renunciado à sua mensagem fugindo para outra região. Ele não está fora do mundo, vive concretamente as consequências de sua novidade.

A crueldade da Flagelação ainda hoje causa calafrios só em pensá-la. Era um tipo de tortura extrema da qual muitos dos condenados à morte de cruz não resistiam e faleciam esvaídos em sangue durante as sessões do desumano massacre público. A tropa militar estava autorizada pelo Império Romano a impor ao prisioneiro o tipo de sofrimento que a deleitasse. O chicote era composto por oito tiras de couro, possuindo instrumentos de metal perfurantes e ossos de carneiros.

Por sua vez, a condenação à Morte de Cruz representava que o condenado era um rejeitado pela sociedade, morria no completo abandono. Os mortos na cruz não eram enterrados, seus corpos ficavam dependurados por dias, até que os cães e as aves de rapina fizessem dele seu alimento. Um horror. No livro do profeta Isaías, capítulo 52, descreve-se com surpreendente profetismo a desfiguração do Servo de IHWH.

Atualmente, para certas tradições, estes acontecimentos da Quinta e Sexta-feira da Paixão, que vão desaguar na Páscoa, não precisam ser compreendidos na trama da história vivida por Jesus de Nazaré com consequências política, econômica e cultural.

A Páscoa para muitos, ao longo dos séculos, foi transformada num acontecimento celestial, espiritual, sem nenhuma conexão com a vida concreta do mundo notempo presente. A alienação destes fatos históricos consiste justamente em desqualificar a vida deste mundo para viver projetados em um mundo espiritual idealizado.

Mas o Reino de Deus não cai do céu, não pode prescindir da ação humana. A novidade da qual Jesus de Nazaré é portador é conceber Deus como Pai, não como um Todo-Poderoso, Justiceiro, Implacável, com poderes de condenar ao fogo eterno. Para muitos teólogos o cerne da mensagem evangélica é a relação de Jesus com Deus-Pai Amor. E isto implica drásticas consequências na existência das pessoas e coletividades. Um Deus que ama a todos imensamente; todos são seus filhos e filhas. Isto muda o mundo e suas relações de poder.

A sua Mãe, quando grávida, já havia cantado, profeticamente, as consequências concretas da novidade trazida pelo filho: “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes; aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias”.

Jesus de Nazaré é condenado por este sacrilégio: sua relação filial com Deus a quem chama de Papai (Abba) era para mentalidade de então uma abominável falta de respeito para a majestade divina. Os sacerdotes com a sua religião não admitiam esse tipo de pecado, essa quebra de hierarquia. Com Jesus, Deus deixa de ser o Todo-Poderoso que condena eternamente, para ser o Pai que ama imensamente a todos.  Até os dias de hoje, o cristianismo patina entre essas duas concepções: Deus Todo-Poderoso (sob a influência das religiões antigas do Oriente Médio e do Império Romano) e Deus-Amor trazido por Jesus de Nazaré.

O tempo presente se reveste de flagelações modernas e sutis, por meio da adoção de medidas políticas e econômicas que penalizam grande contingente populacional com forte taxa de desemprego (no Brasil, antes da Covid-19, a taxa oficial de desemprego estava em torno de 14%); com políticas de retirada de garantias trabalhistas; com o desmonte dos serviços essenciais do Estado no campo da saúde (SUS) e da educação (Escolas públicas); com forte ataque aos programas distributivos e inclusivos desenvolvidos até 2014. Bolsonaro e Guedes querem um Estado Mínimo para os pobres, e um Estado Máximo para os ricos.

Com a Pandemia do coronavírus esse fosso entre ricos e pobres só fez aumentar. No Brasil, por exemplo, há quatro meses o governo Bolsonaro suspendeu o repasse do auxílio emergencial de R$600,00 (seiscentos reais) aprovados pelo Congresso Nacional, para populações de baixa renda. E recusou-se a manter esse valor para 2021.Propôs um auxílio de apenas R$150,00 (cento e cinquenta reais) para indivíduos e R$250,00 (duzentos e cinquenta reais) para famílias, em quatro parcelas mensais, a começar agora em abril. Portanto, se em 2019, no governo Bolsonaro, o desemprego estava em alta de 14% (ou seja, não havia postos de trabalho), agora com a pandemia esse número aumenta imensamente penalizando os empobrecidos.

Em contrapartida, muito antes da pandemia, mesmo com aeconomia sem criar postos de trabalho desde 2019, Bolsonaro continua insistindo que as pessoas devem sair de casa, expondo-se ao risco de morte pelo coronavírus. O Brasil de Bolsonaro conta, até a presente data, com o escandaloso número de 325 mil mortos.

Na Vigília da Quinta-feira Jesus tomou plena consciência do significado de sua decisão, não afastando o cálice, mas indo ao seu encontro. A Páscoa é, portanto, uma passagem do anúncio para a realização concreta. É abandonar o passado para construir um presente totalmente novo, dando uma volta completa sobre si mesmo para ver-se radicalmente com olhos novos. Uma pessoa só assume sua missão depois de um intenso combate interior: entre o passado que insiste em continuar e o futuro que precisa se construído a partir de um novo presente. Boa Páscoa a todos nós brasileiros e brasileiras, rumo a uma vida nova!Chega de tanta violência, de tanto autoritarismo, de tanta estupidez, de tanta mentira, de tamanho genocídio. Basta!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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