Gestos abjetos

Desde o primeiro momento, na campanha presidencial de 2018, quando o candidato da extrema-direita tomou nos braços crianças indefesas para monstruosamente instrumentalizá-las, fazendo com que elas fossem induzidas por ele a reproduzir com as mãos, publicamente pela rede de comunicação digital e de televisão aberta, o símbolo central de sua violenta doutrina fascista – uma arma apontada para terceiros – caberia aos Juizados da Infância e da Juventude, espalhados pelo Brasil afora, cuja atribuição é defender e julgar causas de interesse das crianças e adolescentes, inclusive aplicando medidas de proteção às suas existências,  impedir terminantemente esta atitude nefasta à vida da infância e da política brasileira. Como afirma o dito popular, ao calarem os juízes pronunciaram o seu consentimento automático a tal aberração, permitindo que a propaganda fascista ampliasse sua área de influência nos corações e mentes brasileiras.

O gesto da arma apontada para terceiros foi assim, aos poucos, ganhando as ruas, chegando ao cúmulo, como atesta reportagem do Uol, em 17 de outubro de 2018, que “funcionárias da Arquidiocese do Rio de Janeiro, vestidas com camisas amarelas, posaram para fotógrafos fazendo sinais de armas de fogo com os dedos da mão diante da imagem de Jesus Cristo”, dentro das instalações daquela instituição, durante a visita que o então candidato fazia ao arcebispo Dom Orani Tempesta. Portanto, além do silêncio de magistrados, houve a mudez de clérigos e adesão de fiéis cristãos ao gesto abjeto desenvolvido como marca registrada da violência bolsofascista.

Como lembra a autora da obra “Origens do Totalitarismo”, Hannah Arendt, foram os fenômenos outrora tidos como insignificantes e desprovidos de importância na política mundial, como o antissemitismo, que se transformaram em agentes catalisadores do movimento nazista alemão criando com ele o mal radical e absoluto, materializado na implantação genocida dos campos de extermínio de humanos. Não por acaso é o que vemos atualmente na reação de sulistas e sudestinos brasileiros, eleitores de Bolsonaro, ao externarem pela internet todo ódio e preconceito contra os humanos naturais do Nordeste do Brasil, sem que haja uma reação determinada do Estado brasileiro para punir tais crimes hediondos de racismo. O ódio a Lula (pernambucano e metalúrgico) e a seus eleitores é desenvolvido pelo bolsofascismo justamente devido à importância histórica e política de Lula na vida brasileira.

O tempo presente requer que busquemos uma profunda compreensão de suas razões. Compreender significa encarar a realidade sem preconceitos e atenção redobrada para podermos agir acertadamente diante dela. A política totalitarista usa e abusa de seus próprios elementos ideológicos até que se dilua completamente em sua base. Essa política, inicialmente parte da realidade dos fatos, permitindo aos ideólogos fascistas substância para a sua ação propagandística na qual utilizam-se da mentira estruturada para alcançarem seus objetivos.

O Terror bolsonarista ataca sem provocação preliminar e suas vítimas são inocentes. Qualquer pessoa hoje no Brasil, pelo simples fato de ter a pele preta, pode tornar-se vítima do terror policial. E um dos objetivos desse terrorismo de Estado é imprimir o medo nos corações e mentes das pessoas, além de lhes indicar sua condição inferior no estrato social. O estabelecimento de um Regime Totalitário requer o uso do terror como instrumento necessário para a realização da ideologia bolsonarista, que visa obter a adesão de muitos militantes. Essa ideologia precisa para tanto definir quais grupos são de seu interesse ideológico ser atacados: nordestinos, pretos, pobres, homossexuais, militantes de esquerda etc.

Como lembra Maquiavel em sua análise sobre a ação político-religiosa do frade dominicano Savonarola (1452-1498), autodenominado Profeta, criador das “fogueiras das vaidades”, que declarou Florença como uma Nova Jerusalém, uma ideologia que quer persuadir e mobilizar as massas não escolhe suas vítimas aleatoriamente, porque essa ideologia precisa tornar-se um dogma político para essas massas. Exatamente como faz Bolsonaro.

Platão, no livro Fedro, descobriu que a arte de encantar os espíritos nada tem a ver com a verdade, mas com a conquista de opiniões. A opinião decorre antes da persuasão (por exemplo, a campanha condenatória diária contra Lula perpetrada pela Globo no passado recente) do que da verdade. E é pela aparência que se consegue persuadir, passando de uma verdade para o seu contrário (fake news) permitindo facilmente a crença na ilusão. Os sofistas antigos manipulavam a lógica; os sofistas contemporâneos manipulam os fatos (Bolsonaro, Moro e Dallagnol), destruindo a história e sua inteligibilidade, deformando indevidamente os fatos, visando tornar verdadeiras as suas opiniões. Caso típico aconteceu recentemente, dia 8, quando um sacerdote franciscano, utilizando o altar religioso numa celebração da missa católica transformou-o em seu palanque político, afirmando para os fiéis de todo Brasil, via internet, que a melhor proposta para o Brasil é Bolsonaro. Só faltou ao frade reproduzir o gesto abjeto da arma com a mão. Este é o absurdo que precisa ser encarado e enfrentado se não quisermos chegar a uma situação ainda mais devastadora no Brasil. O segundo turno da eleição é decisivo para retomarmos as rédeas de nossa história, retirando de vez o fascismo do poder.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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