Garças de Jacarecanga – Heliana Querino

Jacarecanga podia não ser um paraíso perdido, mas seus arredores tinham quase tudo de que se precisava. Para alguém de cidade pequena, recém chegada à Capital, nos anos dois mil, em um bairro que por si próprio contava muito da História de Fortaleza, era fácil alimentar a minha fome de saber. As pessoas andavam tranquilas pelas ruas e conversavam nas portas de casas antigas, sobrados com janelões e a Praça Gustavo Barroso. Os mais antigos falavam muito em Philomeno Gomes, os mais jovens brincavam de fantasma envolvendo o cemitério São João Batista, que era centro, mas perto de Jacarecanga.

Quando eu descia os três andares do apartamento no condomínio onde morava, Núbia Sampaio, o cenário ali era uma espécie de pequena grande ilha iluminada. Um livro antigo, relíquias. Do portão eu avistava o Liceu do Ceará e o Corpo de Bombeiros. Era só atravessar a pracinha e lá estava eu puxando conversa com os funcionários do Liceu: Apontava a parede cheia de fotos ilustres: “quem é aquele?  E esse aqui?” Eram os diretores antigos, grandes personagens do Ceará. Uma professora me perguntou se eu estava fazendo alguma pesquisa para trabalho acadêmico, que nada -,  no ano seguinte ainda iria me matricular para concluir o terceiro ano do ensino médio. Eu estava sempre com uma bolsinha e uma pasta com documentos e currículo para encontrar o primeiro emprego em Fortaleza. Por outro lado, a curiosidade me acompanhava todo o dia.

De fato, eu fazia mesmo uma pesquisa, mas era pessoal e não acadêmica. Queria saber de muita coisa. Ia para o centro entregar currículo nas lojas, mas antes eu gostava de entrar no Liceu e conversar e perguntar. Um dos vigias, de rosto redondo e jeito engraçado, ria e imitava o meu “bom dia ou boa tarde”, ficamos amigos. Ele sempre me ensinava as paradas dos ônibus e os lugares. Só que eu gostava de ir a pé, fazia todo o percurso da rua Guilherme Rocha, deixando para trás, Jacarecanga, o meu prédio, uma pousada muito muito antiga, à direita, igreja de um lado, Francisco Sá às minhas costas e mirava rumo ao “progresso”.  Foram muitas idas e vindas Jacá/Centro/Santos Dumont e um bocado de bolhas nos pés até encontrar o mundo colorido dos estúdios fotográficos da Aba Film. Um outro capítulo.

Com a primeira quinzena salarial da “Aba Film Photo Studio”, eu fui comemorar na banca de comidas típicas do Silvestre, na pracinha do Liceu. Fiz cara desconfiada antes de comer o vatapá, mas gostei do que provei. A sorveteria Castelinho, já era dela os meus fins de tardes, e o mercadinho dos miojos, água mineral, cervejas, picolés e um troço chamado cigarro Derby ou Carlton, para a amiga fumante que morava comigo. Uma locadora de vídeo com uma promoção “aluga 3 filmes e leva mais 2 para assistir de graça todo o fim de semana”, era sempre cheia, com dezenas de moças e rapazes, as futuras amizades das mais novas moradoras de Fortaleza.

Tirando a saudade de casa, o resto era uma história perfeita. Descobrir um bairro de cidade grande, a vizinhança, o cheiro do mar que dobrava a esquina e entrava pela janela do meu quarto, para me lembrar que eu estava longe do Cariri. Apagava as luzes, trocava os lençóis e dormia feliz, imaginando o que conhecer no dia seguinte e quem foram os habitantes antes de mim que dormiram naquele mesmo quarto.

Ao início do dia, o bairro precisava acordar, sentia-se o cheiro de café da padaria e os moradores dos condomínios,  das antigas casas e dos sobrados encantados faziam pequenas filas para buscar o pão quentinho. O regresso ao trabalho agora era feito de Topic, nada de suar o pescoço andando a pé e nem gastar os saltos finos dos meus sapatos. Usava farda, cabelos escovados e maquiagem impecável para fotografar gente rica e gente “pobre”, artistas, políticos e anônimos.

Se era fim de semana, a pracinha do Liceu nos ganhava somente no fim de tarde, as manhãs eram todas dedicadas ás areias do mar, e só pisava na academia Progresso, da rua São Paulo, a partir das segundas-feiras. Domingo de manhã, o bairro estava mais calmo, mas havia gente nas ruas. Quando descia as escadas, falava com o porteiro e desenhava na mente, ilustrações do mar com cores que surgiam transbordantes. As janelas do bairro,- histórico -, deixavam entrever vidas e delirantes prazeres dos barzinhos, barris, rodas de samba ou capoeira… Aos olhos de uma mocinha, aquelas possibilidades eram a entrada para um mundo imaginário, mas não sem limites ou deslumbrados!

Entrava na Topic cinquenta e dois, rumo à praia, e sempre encontrava uma senhora que usava um lenço amarrado na cabeça e logo pegava a mochila da cadeira e dizia: “senta aqui, guardei lugar pra você”. Muitas vezes quis perguntar sobre o lenço, mas desistia toda vida. Ela parecia ser boa gente, um pouco triste, e falava bastante. Estava separada do marido, um senhor de alguma patente já aposentado. Eram também moradores de Jacarecanga, ele se envolvia com moças, escrevia pequenos contos sobre suas transas com elas e vendia para um “escritor”. A mulher descobriu… Nunca soube de algo parecido antes.

Self service era uma palavra nova para mim, todo mundo durante a semana, no trabalho, usava o termo na hora do almoço: “Tu vai querer self service ou prato feito?” “Eu vou querer isso não, eu quero só o almoço mesmo”. Então, na topic cinquenta e dois, enquanto a mulher do lenço me contava sobre o marido, o cobrador embalava a conversa com trilha quase sonora: vamo, vamo, quem vai? É Santos Dumont, Monsenhor Tabosa, Papicu, Praia do Futuro, Caça e Pesca e Serviluz.

Era confusão na minha cabeça, além de self service, esse tal de Serviluz, até dia de domingo? O que será?  Será que Serviluz é também um self service? Logo descobri que não. Não era “meu Jacá”, mas era bairro também.

Depois da praia, voltava para casa e, antes de entrar, olhava a vizinha, nem tão majestosa, pintada de rosa antigo, duas grandes janelas, a velha pousada, sempre quieta e fechada.

Um dia, eu e duas amigas, tomávamos sorvete na Castelinho e avistamos um bando de Garças brancas vindo em nossa direção. Tinham porte firme e cabeças erguidas, nariz para frente, andavam com passos largos e iguais, usavam boinas, ternos alvos que nem goma de primeira linha e sapatos brilhantes, eram muito jovens e bonitos.

Os marinheiros chegaram!  Vão ocupar a pousada. Bethânia, moradora do prédio vizinho, a menina mais esperta e bem relacionada, sabia tudo do bairro e dos costumes. Eram os meninos da Escola Aprendizes de Marinheiro, que ficava a poucos metros de onde morávamos, e eu nem sabia. Todo ano chegavam novos rapazes e se hospedavam na antiga pousada da rua Guilherme Rocha, vizinho ao Núbia Sampaio. Ficavam a temporada de um ano e depois partiam para seus destinos. A cena das Garças brancas foi uma das mais bonitas que Jacarecanga me proporcionou. Meninos do Rio, São Paulo, Piauí, Maranhão, Bahia…de vários lugares do Brasil.

Algumas coisas me marcaram bastante, eu lembro que não era proibido conversar com ninguém. Nem com os marinheiros, nem com os vizinhos, nem com os banhistas da Praia da Barra, ou os clientes da Aba Film, as meninas dos sambas ou os mestres de capoeira… Assim, como era livre a conversa, o meu trânsito também não tinha medo ou punição. Era tudo liberdade. Eu comia pastel na pracinha ou Sushi no Iguatemi. Gastava o salário no shopping, no centro ou no “beco da poeira”… o resto, guardava para férias ou mandava para meus pais.

Andava a pé pelo bairro, sem medo de nada, mesmo que fosse à noite, quando voltava do cursinho.

Tenho carinho especial pela lembrança das Garças brancas de Jacarecanga, os meninos que namorei, a tia Lourdes e dona Mazé, uma querida vizinha que fazia nosso almoço de vez em quando. Sim, dona Mazé é a cara de Jacarecanga. Tia Lourdes é sua própria história, e mora lá até hoje, com um milhão de coisas para contar. Os filhos e filhas, netos e netas delas, eram nosso amigos e parceiros de muitas festas. Nos clubes, na Marinha, na Praça… no condomínio… Em 2017 eu voltei ao Liceu do Ceará, como jornalista, estava fazendo uma pesquisa sobre Hermínio Barroso para a biografia de Parsifal, eu queria ter encontrado a professora que me explicava sobre as fotos na parede, a zeladora que me dava café num copinho da cantina e o vigia de cara redonda que gostava do meu sotaque e dizia: “vá de ônibus, pela sombra, e depois volte pra Jacarecanga”.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

Mais do autor - Twitter - Facebook - LinkedIn

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.