FORTALEZA – O QUE NOS AGUARDA NO SEGUNDO TURNO

Uma eleição balizada pela pandemia, em que máscara, álcool em gel, distanciamento entre os eleitores e horário preferencial para os idosos tiveram efetiva participação no primeiro turno, como candidatos à proteção da saúde das pessoas, os eleitores cearenses deram demonstração de civismo e cidadania política. Isto porque, com uma expectativa de abstenção de até cinquenta por cento, em Fortaleza, o não comparecimento dos eleitores foi de 21,84%, e, em todo o Estado, deu-se uma continência de apenas 16,93%, sendo a terceira menor no Brasil.

Passada a primeira fase, na qual elegemos os 43 vereadores do Município, com 46% das cadeiras renovadas (20 dos atuais vereadores não se reelegeram), as atenções se direcionam para o segundo turno, no próximo dia 29, quando vamos escolher aquele que terá a responsabilidade de governar uma cidade com a complexidade social e econômica como é Fortaleza. Esta, além dos altos índices de pobreza extrema, desigualdades sociais, desemprego, bem como extensas áreas sem qualquer urbanização, densamente habitadas pela maioria da população trabalhadora, registra um dos mais agudos índices de violência entre capitais no País.

Aqui eclode o apartheid econômico e social, que persiste e resiste no tempo, com múltiplas evidências, não só do descaso do poder público, como também pelo preconceito, discriminação e racismo estrutural, da parte de uma elite “neo-insensata”, cuja ação dos gestores, no decurso da história, teima em não priorizar políticas efetivas de inclusão para as pessoas mais pobres, em acelerada pauperização, decorrência do ativo agravamento na pós-pandemia.

O mais preocupante, para não dizer trágico, é que, quando se examina o cenário de curto prazo, com base no debate em curso pelos grupos de poder e seus candidatos em disputa para eleições, nsegundo turno, o que se observa são promessas nem sempre viáveis ou compatíveis com a realidade, em sua maioria vazias, travestidas de propostas para resolver problemas complexos. 

Não é exagero e nem fora de propósito afirmar que, em geral, são as mesmas mofadas ideias, defasadas no tempo, não oferecendo qualquer perspectiva de mudança dessa vergonhosa e perversa realidade.

Nessa perspectiva, a reflexão que se impõe sobre os graves problemas econômicos e sociais que enfrentamos – e que deverão se agravar na pós-pandemia – diz respeito ao desemprego, a exigir uma inadiável ação de geração de renda para esse estrato da população, o que consideramos o mais grave e urgente. 

Aqui o objetivo é cobrar, dos candidatos, que debatam e ofereçam ideias e soluções para os problemas em seus programas de governo, no guia eleitoral, e pelas mídias sociais, a respeito de como pretendem resolvê-los, para que as conheçamosestabeleçamos juízo de valor comparativo entre as propostas.

Com uma visão para os altos índices de desemprego em Fortaleza que, ao lado de tantos outros, é o mais grave o futuro prefeito tem o dever político e social de estruturar e executar um amplo programa de geração de trabalho e renda para acudir esse contingente da população e atenuar seus efeitos.

Em texto publicado recentemente pelas mídias digitais, o professor Renato Dagnino nos ensina que “[…] a geração de renda para os mais pobres deve se dar através de um modelo de economia solidária, e não apenas em ‘distribuição de renda’, promovida por medidas compensatórias; faz-se necessária uma ação substantiva para  a reorganização do potencial socioeconômico e produtivo das pessoas em situação de vulnerabilidade, mediante um amplo e bem estruturado  programa de empreendimento solidário focado no ideário pretendido.

Conforme é facilmente perceptível, são desafios de soluções difíceis, não explicitadas em nenhuma das duas propostas de governo oferecidas pelos dois postulantes, e que, a meu sentir, não serão desequilíbrios resolvidos. Decerto, faltará resolução por parte do populismo de extrema direita e pretensa valentia militar voluntarista, manifesta ocasionalmente, em que paralisa e deixa a cidade entregue à violência, a pretexto de defender interesses corporativos. Tampouco, da outra parte, os problemas vão desaparecer por via de um discurso continuísta do legado de Roberto Cláudio, que, por mais substantivo que seja e sob certos aspectos o é também se mostrou insuficiente para encaminhar soluções que atenuassem a miséria e as condições subumanas em que vive parcela significativa da nossa população.

Pelo que vimos na televisão e pelas mídias digitais durante o primeiro turno, assim como pelo que está escrito nos programas de governo dos pretendentes, no geral, as duas propostas são coincidentes e simplistas em quase tudo. São velhas ideias com a pretensão de resolver históricos e contemporâneos problemas, com algumas poucas variações de formas, mas com os mesmos conteúdos e objetivos.

Uma diferença que demarca bem as duas proposições, e que o eleitor deve prestar bem atenção, reside nas ideias políticas e nos valores, defendidos por parte dos candidatos postulantes.

De um lado, temos um concorrente que, apesar de ter negado três vezes o mentor, patrocinador e inspirador de sua candidatura, representa o negacionismo, o populismo com todo o vácuo de ideias que caracteriza a obscura realidade que vivemos no País, movido pela crença de que o militarismo das forças de segurança armada do Estado, algumas vezes induzidas e colocadas contra a cidade e sua população – e até oposta à Constituição – é a maneira pela qual se pode governar e garantir “segurança” para a população.

Do outro, tem-se um aspirante que, mesmo ainda não tendo sido testado como gestor de uma cidade com a multiplicidade de problemas de natureza diversa como é Fortaleza, tem vasta experiência legislativa, como vereador e deputado estadual, por sucessivos mandatos, conhece bem a pauta político-administrativa da cidade, tem um discurso moderado, integra um grupo político que lhe oferece quadros técnicopolíticos com longa experiência de governo, no âmbito estadual e municipal, e como médico, cuja atuação profissional no serviço público de saúde, foi forjada atendendo a população pobre da cidade o que afirma), tem conhecimento da realidade desse setor, que é um dos mais importantes dos serviços continuados oferecidos pela Prefeitura, especialmente nesses tempos de pandemia. Se não cumprir com o que está prometendo não poderá alegar falta de conhecimento.

Em tais circunstâncias, está demarcada a grande diferença entre as duas propostas e as percepções que cada postulante oferece, inclusive perfil político-administrativo no qual ambos estão ancorados, para enfrentar a realidade que o eleito vai deparar.

Atentemos, por oportuno, para o que ensina Aristóteles de Estágira:[…] o objeto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade”. Esse, entretanto, não parece ser o princípio defendido por um dos candidatos.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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