FLOR ERVA-DA-TRINDADE – Atiçador de memórias

“As lembranças se materializaram lentamente, como bolhas vindas à tona da escuridão de um poço sem fundo.” (Dan Brown, em Inferno; Ed. Arteiro, 2018; parágrafo inaugural).

PARTE I

Manhã de sexta, 16 de junho.
O sol já manifesta, pela claridade que invade e preenche todos os espaços e pelo calor que irradia e nos contagia de esperança, saúde e vida, a sua inquestionável soberania.
Levanto-me, preguiçosa e entediadamente, após uma longa e difícil madrugada, em desgastante e inútil enfrentamento da insônia que insiste em manter-me num indesejável e inconsequente distanciamento das sempre disponíveis e recepcionáveis deidades gregas – Hypnos (do sono) e seu filho Morfeu (dos sonhos). E, para me castigar por isso, o insensível e retilíneo Cronos (do tempo), parece pretender – sem as mesmas causas e efeitos do ato praticado por Apolo (do sol; a quem cabia o comando do Universo) para usufruir dos atrativos físicos da mulher do mais importante general ateniense, posto à frente de sangrenta batalha contra espartanos na Guerra do Peloponeso, e assim fenecer heroicamente – impor-me a improvável interrupção do tempo. Acho até que todos os relógios – os digitais e os analógicos, incluindo o infalível que faz badalar o famoso sino Big Ben, na torre das casas do parlamento britânico, em edifício de estilo gótico às margens do rio Tâmisa – deixaram de exercer, sincronicamente, as suas funções básicas: a ininterrupta sequência de segundos, minutos, horas.
Levanto-me. Com andar ainda claudicante, titubeante, apoiado na bengala – instrumento recentemente incorporado, por imposição das circunstâncias, ao meu cotidiano de reclusão domiciliar (agora, lembrei-me, ligeiramente, do enigma egípcio proposto pela Esfinge e a ser desvendado por mortais, muitos deles desventurados, a saber: que criatura anda de quatro patas de manhã, de duas ao meio-dia e de três à noite? O homem!). Sinto-me velho, mas permaneço vivo; e isso é o que importa. O perigoso escurecimento da visão – que já deixa de ser episódico, passando a expressar-se com bem mais frequência – alerta-me: índice glicêmico em viés de queda (quem é diabético sabe o real significado disso), já em nível bem abaixo do limite inferior conceitualmente recomendável.
Apresso-me, da forma como ainda me é permitido, a recorrer ao procedimento emergencial à disposição – o desjejum, seguido da medicação prescrita e de exercícios fisioterápicos específicos. Antes, porém, procedo à verificação dos sinais vitais: glicemia, pressão arterial (sístole, diástole), batimentos cardíacos e oxigenação sanguínea (algo que remete à crucial época da pandemia; e que Deus sempre nos livre e guarde!), e, no conjunto de resultados, forma-se, à minha frente, um quadro de advertência, afinal todos se posicionam abaixo das respectivas linhas ideais, regulares, embora aceitáveis porque recuperáveis mediante o tratamento medicamentoso e o modus vivendi aplicáveis em situações da espécie. Mesmo assim, o glicêmico preocupa-me: 76! (Ouvi, de voz vinda do corredor do hospital, entendimento carente – pelo menos pra mim – de comprovação científica: “A hipotensão é mais perigosa que a hiper”).
Aos poucos, vou percebendo a favorável evolução do quadro; algo me assegura – e me reconforta, aqui no aconchego da minha rede de varandas jamais esquecida, – que o pior já passou. Logo, logo, entro no módulo “ação”. Povoa-me a reflexão, momentânea que seja, frase ouvida em programa de rádio local, em que o entrevistado, cientista social e analista político, defendia a atuação rápida e enérgica da Suprema Corte no caso da irracional afronta à República e à Democracia, na triste tarde/noite de 8 de janeiro último, arrimando-se, imagino eu, em Tomás de Aquino: “A ordem do ser é a ordem do agir”. Celebro, então, o mais que sonhado retorno à normalidade (quase, por enquanto, e que sempre se me faz tão essencial), após cerca de um mês enclausurado em quarto de hospital, só não mais confortável devido ao frio artificial, exagerado para os padrões que julgo normais, suportáveis. Eu que nasci e virei gente geograficamente bem aquinhoado: entre o pé da serra e o sertão.

“O poema de Dante (…) falava menos sobre as agruras do Inferno e mais sobre a capacidade do espírito humano de suportar qualquer provação, por mais aterrorizante que seja.” (Idem, ibidem; Epílogo).

Agora, a minha septuagenária nau navega tranquila e serena por mares sobejamente conhecidos, singra águas ora remansosas, ora um tanto quanto procelosa. E o leme retorna à experiente governança de sempre. Aporto-a em praia de calmaria; adentro a minha ilha de criação; faço funcionar os seus principais e básicos instrumentos: o notebook (vital à sobrevivência virtual) e a impressora “de tanquinho”. E o velho e calejado espírito se regozija por permanecer encapsulado em corpo quase ressurrecto. E parece efusivamente anunciar aos que se interessar possam: “Olhem aqui eu de novo!”.
E lá vamos nós, fundidos – um não existe sem o outro – naturalmente: Bol, caixa de mensagens, perfil no Facebook, página do WhatsApp. É essa, como sempre, a rota recorrente. Acesso o editor de texto – Word – com a pretensão de produzir, ao meu peculiar estilo, mensagem de agradecimento aos familiares e amigos que se manifestaram – e, com certeza, muitos ainda se manifestariam – sobre a postagem da noite anterior (15, quinta), por meio da qual comuniquei o término da hospitalização e consequente retorno ao meu saudoso e saudável aconchego, nos termos a seguir transcritos literalmente:
Amigas e amigos,
Em casa, graças a Deus! Foram exatos 32 dias (28 dos quais sem autorização para sequer sair ao corredor) de muita reflexão, de muito agradecimento a Deus, aos familiares e aos(às) amigos(as), num retorno a leito hospitalar, por causas distintas – “pé diabético” e pneumonia – e o/a diabetes de permeio), com o acompanhamento diuturno da minha eterna parceira (que todas as vezes em que eu a aconselhava a ir até à nossa casa, ela dizia, recorrentemente, “Só saio daqui com você!”. Juro que passei a agradecer mais ainda ao Ser Supremo, Aquele que tudo pode, a felicidade de tê-la como eterna parceira.) E o velho guerreiro retorna ao campo de batalha. Ainda não tão “firme e forte” como antes, mas convicto de que as vitórias nós as conquistamos em etapas, sem pressa, sem antecipações. Um abraço fraterno.

E é assim que me expresso, com as devidas adaptações a cada caso:
Muito obrigado por tudo! E que o Deus de bondade, Senhor Supremo de todos e tudo, nos conceda a necessária resiliência (força e coragem) para corresponder, com serenidade e altivez, os seus desígnios, em especial as provações – e que estas, quando vierem, se revistam de intensidade proporcional à nossa capacidade de reagir). Assim seja!

A casa é toda silêncio. A mulher e os netos dormem o sono de recuperação de uma noite de efusivas manifestações: é que eu estava de volta ao seio da família, de onde nunca pretendi sair. O telefone toca. Atendo. Do outro lado, uma voz que me é muito conhecida: ex-colega de ofícios profissionais – múltiplos, cotidianos – e ex-aluno de cursos promovidos pelo banco, conforme os seus anuais programas de treinamento do pessoal da Casa. Após as interlocuções de praxe, obviamente centradas no “evento do dia”, formula-me duas questões de língua portuguesa, servindo de intérprete de dúvidas, segundo ele, da: 1) MULHER – “Professor, há alguma diferença entre as expressões ‘tendo que’ e ‘tenho de’? Se, sim, em que situações devo empregar uma ou outra?”; b) da FILHA – “Diz a minha filha ter ouvido, em conversa com amigos da faculdade, que comete erro quem usa os artigos definidos – o, a, os, as – antes de pronomes possessivos – meu, minha, e por aí vai. O “crítico” sustentou, ainda, que ‘quem assim age é porque não conhece a própria língua’. Pergunto: o que o mestre tem a dizer a respeito disso?”.
Sento-me. Relaxo e assumo o natural ar professoral:
– Você dispõe de tempo para me ouvir?
– Sim, professor.
– Por acaso, já tem em mãos papel e caneta para eventuais anotações?
– Sim.
– Então, por favor, amigo, preste bem atenção no que vai ouvir, até porque ora não disponho de recursos didáticos que me possam auxiliar na explanação. Certo?
– Ok.
E, prazerosa e pausadamente, leciono, conforme o meu atual modus operandi ou do jeito que costumo tratar assuntos de igual jaez, mais ou menos nestes termos:
– Amigo, não percebo, nos dois casos, vestígios sequer de agramaticalidade, ou seja, de afronta a regras fundamentais da Gramática. Assim, não recorro a ela, muito menos aos usuais comandos paragramaticais (Pasquale e outros que tais – muito em voga no passado recente, até porque atendiam muito mais a interesses do mercado editorial.). Pois bem. No primeiro caso, há diferença, sim, entre as expressões trazidas à apreciação, mesmo que isso não se revele aparente. Valho-me, para efeito didático, do vocábulo “obrigação”. Em “tenho que”, o obrigar-se a fazer algo se restringe ao verbo “ter”; nele se concentra, digamos assim. Agora, se se pretende revestir de ênfase o fato comunicativo, opta-se por “ter de”, com a inserção (ou não, já que ela é, no caso, plenamente recuperável) entre os dois vocábulos da palavra “obrigação”. Por exemplo: “Eu tenho que ir ao banco” em confronto com “Eu tenho (a obrigação) de respeitar as leis”. Por favor, anote as duas frases e compare-as. Embora tal construção possa carregar alguma dosagem de pleonasmo, é assim que se faz. Alguma dúvida, amigo?
– Não, mestre!
– Podemos prosseguir?
– Sim.
– Vamos, pois, ao segundo caso. Também aqui prefiro olhar com as lentes de correção da Semântica, que trata, em última análise, do sentido das expressões frásicas. É claro que ao usuário funcional da língua cabe valer-se de todos os recursos, sob seu domínio e do interlocutor circunstancial, capazes de dotar o propósito comunicativo da recomendável robustez argumentativa. Eu já devo ter dito em situações anteriores que quem convence é o argumento, e toda comunicação visa ao convencimento. Assim, a opção pelo pronome “solitário” ou pelo “enlace” artigo e pronome vai depender, a meu estrito entender, exclusivamente da ênfase ou intensidade que se pretenda atribuir ao que se diz. Na escrita, certamente a percepção disso tende a zero; já na fala, não. A escrita sempre sofreu de “carências” de recursos para representar graficamente a fala, apesar dos sinais diacríticos – acentos, til, cedilha –, da paragrafação, bem como de outros recursos disponíveis na digitação – itálicos, negritos, entre outros. Há, sim, uma diferença – sutil que seja – entre, por exemplo, os segmentos de frase “A minha mãe” e “Minha mãe”. Percebe-se que, nesta, a inflexão da voz se dá no substantivo “mãe”; naquela, o fenômeno ocorre no pronome “minha” (mais precisamente na sílaba “mi”, nasalizada pelo “nh” que lhe segue); disso resulta, amigo, que aquela é enfática e esta não. Por favor, amigo, compare estes dois exemplos: “Minha sogra produz docinhos finos e saborosos” e “A minha sogra é exímia cozinheira”. Tudo bem?
– Tudo tranquilo, professor.
– Duas “coisinhas” a mais. Caso queira enfatizar mais ainda, recorra à locução expletiva – que só serve pra isso – “é que”. Agora, se a hipótese levantada pelo colega da sua filha decorre do duplo emprego de determinantes (artigo e pronome) antecedendo um único substantivo, o que dizer então de “A minha linda filha” (artigo+adjetivo+pronome, os três determinando, deliminando o mesmo substantivo “filha”?!). Não defendo, como se vê, a hipótese dele. Entendido? Ficou claro?
– Entendido. Mais claro que isso, mestre, só água do poço do Narciso…
– Nada de desfecho mitológico… nada de sucumbir de fome e sede ao pé da fonte…
– Um abraço, professor.
– Outro, amigo. Disponha sempre.

PARTE II

“Quem já teve um professor de verdade? Um professor que vê um aluno como material bruto mas precioso, uma joia que, com perícia, pode ser polido e brilhar?”. (Mitch Albom, em A Última Grande Lição – O sentido da vida; Sextante, pág. 183).

Volto à minha ilha de criação; o andar já mais confiável. A tela do notebook “em descanso”; então, a viagem agora é outra. Revisito, em atiçamentos de memória, professores que mais marcaram a minha trajetória de formação escolar e acadêmica.
A primeira parada se dá, obviamente, nas atuações primorosas de d. Enedina Moreira, a minha mãe e alfabetizadora, que ultrapassou os limites dessa fase ao me conduzir pelas sendas da leitura e da escrita, bem como do raciocínio aritmético, de elementares conceitos geográficos e de fatos históricos, ao ponto de, submetido ao “exame de nivelamento” da época, no Grupo Escolar Monsenhor Manuel Cândido, o único da rede estadual, ter sido eu admitido já no 2º ano primário, algumas etapas adiante do que sugeria a faixa etária.
Na seguinte, estimulou-me, já na pré-adolescência, a louvável capacidade educadora de d. Maria de Jesus Castelo Branco, que acumulava as funções de diretora e professora do 5º ano primário, responsável por preparar os seus aprendizes para a inaugural experiência das rigorosas “avaliações de desempenho” – outras viriam no curso da vida estudantil –, o “funil”, a “peneira” do Exame de Admissão, o pórtico ou vestíbulo para ingresso no ginásio. E, no interior da época, isso adquiria mais complexidade em face de a “demanda” superar, em larga escala, a “oferta”. Dona Maria de Jesus, quando soube da minha aprovação no Vestibular da UFC, presenteou-me com exemplar do livro Comunicação em Prosa Moderna que lhe teria servido de referência em curso promovido pelo Governo do Estado (ela era servidora da Secretaria de Educação), em convênio com a UECE, o qual a qualificava para o exercício de ensino do Português em escolas de 2º Grau (atual Ensino Médio) no interior.
No ginasial, no colégio dos salesianos, sobressaíram-se três exemplos de formação educacional juvenil. Logo nas duas primeiras séries, surpreenderam-me a facilidade e agilidade do raciocínio lógico, abstrato, e o didatismo com que o Irmão Alípio tratava o ensino da Matemática, sempre apoiado em livro do “imortal” Osvaldo Sangiorgi. Nas duas últimas, coube ao Padre Luís Sávio Prata, que já acumulava as funções de diretor e professor, mostrar-se, na condução da disciplina, ser tão competente quanto o seu antecessor. Devo-lhe o fato de ter-me tornado professor cenecista, ao indicar-me, com a assunção da responsabilidade irrestrita por tal ato, caso se fizesse necessário, para substituí-lo no atendimento ao convite então formulado, pessoalmente, pelo dr. Ilídio Silveira, “eterno” diretor do Centro Educacional Joaquim Nogueira. Já em Português, reservo o topo do pódio ao Padre Antônio da Silveira Paixão que, no primeiro contato com os apreensivos – até pelo porte físico do mestre – aprendizes, advertiu-nos: “Não sonhem com a possibilidade da nota 10; só vou até o 9,8, conceito por mim obtido na prova de qualificação para o ensino do Português”. De tudo fiz, até que consegui alcançar tal “barreira”, não a ultrapassando em função de uma vírgula omitida ou mal posicionada, erro por ele inventado com esse desiderato meio escuso. (Nada demais; alguns anos depois, o Poetinha se utilizou de uma única vírgula para também “assinar” música composta por Toquinho e Jobim). Ainda me lembro da frase com que concluí um conto (atividade de redação) por ele enaltecida em classe pelo valor poético: “Foi um susto que lhe salvara a vida.” Após escandir – contagem de sílabas contidas num verso – o saudoso mestre exclamou: “Decassílabo… Métrica clássica de dez sílabas!”. Ali começava a estimulação para as minhas narrativas de hoje.
E a viagem a portos do passado prossegue. Bato às portas da Faculdade. Muitas experiências vivenciei enquanto “sonhava” com a graduação, que só veio no final do século passado e início deste. Todas concorreram, de uma forma ou de outra, para a minha formação demasiadamente humana. Registro, apenas para atender o propósito deste alongado texto, duas delas, cujos protagonistas foram: 1) o professor Stênio, no Português I, ainda no Básico de Economia, aí pelos idos de 1976. Estávamos na reta final do semestre, e eu já conquistara uma certa “admiração” dos colegas e, em especial, do mestre de alvas cãs e perfil de sofrimento, refletido no todo facial, pela tragédia (perda de mulher, duas filhas, um genro e um neto, em acidente automobilístico: capotagem do carro em viagem ao interior do Piauí) cujos efeitos danosos – na carne e no espírito – cumpria-lhe enfrentar com resiliência. Numa de suas concorridas aulas, cobrou-me ele a explicação do capítulo introdutório de livro publicado por estudioso da língua, versando sobre as carências da escrita em relação ao amplo universo à disposição da fala. De pé, ao lado da carteira, atraí, com um olhar panorâmico, a atenção de todos, optando por estratégia de alto risco, qual seja a de ressaltar “o pouco” de um para, na sequência, elevar “o muito” do outro a patamares inalcançáveis. Na primeira tentativa, ele me interrompeu, advertindo-me que devia cingir-me ao texto lido. Na segunda, nem bem comecei a minha desastrada participação, mandou sentar-me, recomendando a releitura com mais zelo e confiando a uma colega o mister antes a mim confiado. Ah! Nessa fase, o presente de d. Maria de Jesus revelou-se-me ser demais útil. 2) a professora Hebe Macedo, da UFC/Letras, tanto na graduação quanto na especialização. Competente, dedicada, acessível, estimulou-me a priorizar a língua em uso – variações linguísticas e preconceitos. Por sua indicação, li pelo menos estes livros do filólogo, linguista, escritor e professor Marcos Bagno: Preconceito Linguístico: o que é, como se faz (a edição em que o autor tem a coragem de postar na capa, foto dos sogros – gente simples e alvo desse tipo de discriminação); A Língua de Eulália: Novela sociolinguística; Português ou Brasileiro? – Um convite à pesquisa; A Norma Oculta: Língua e poder na sociedade brasileira: e Dramática da Língua Portuguesa – Tradição gramatical, mídia e exclusão social.

EPÍLOGO

“É preciso estar acordado para contar um sonho”. [Michel Montaigne, citando Sêneca (Epístolas Morais a Lucídio), em Ensaios (A propósito de Virgílio); pág, 796].

Ah! Desculpem-me pela minha lerdeza, ó indulgentes leitoras e leitores! É que somente agora consigo relacionar o rumo dessa prosa com o fato que lhe deu origem, que disparou o “start” do fluxo da narrativa, que funcionou como o “atiçador de memórias”.
Pois bem. Na madrugada do último dia de hospitalização (15, quinta), ainda sob o já acabrunhante e irritante efeito de antibiótico, além de um mix de outros fármacos, já de sobreaviso sobre alta hospitalar que logo depois se confirmaria, tive um sonho pouco enigmático, mas de muita significação para mim.
Sonhei que dava os últimos retoques na minha recém adquirida banca de venda de livros – exclusiva para o meu Sinfonia – em prosa – d’uma existência (prodigiosa), na parte mais alta (cinco ou seis degraus de acesso) do patamar lateral direito da igrejinha de Cristo Redentor (Alto da Capela, Putiú, Baturité), no lado oposto à casa dos meus pais e palco de muitas das minhas traquinices da pré-adolescência (O Sabará e o Zé Milton que o digam).
Surpreendi-me, então, com a aproximação, lenta e serena, de um velho amigo, parceiro de ofícios, a cofiar o negro bigode, a calvície apenas anunciada, passadas comedidas, a postura sóbria e tranquila de pastor protestante. Exímio professor de Matemática e Estatística, ótimo domínio do raciocínio lógico e abstrato, carisma de educador, disponibilidade para o outro, capacidade reflexiva de monge tibetano, exemplo a ser seguido, a ele devo, principalmente, a minha preparação para rigoroso concurso interno do banco, nos conteúdos dessas áreas do conhecimento e constantes do respectivo edital. Obtive a tão desejada aprovação, para júbilo dele também.
Desci aos pulos os degraus e, ali mesmo, usufruímos de um caloroso e fraternal abraço – o meu de agradecimento; o dele de reconhecimento dos méritos do pupilo.
Tratava-se, isto mesmo, do professor/educador José Miranda Filho, certamente incluído no rol dos aqui resgatados da já envelhecida memória.
A ele dedico o que ainda de melhor consigo produzir: esta narrativa.

“Ao apagar a luz de leitura, voltou os olhos uma última vez para o céu; Lá fora, na escuridão que acaba de cair, o mundo havia se transformado. O firmamento era agora uma reluzente tapeçaria de estrelas”. (Dan Brown, em Inferno, parágrafo de fechamento da obra).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

1 comentário

  1. FRANCISCO LUCIANO GONÇALVES MOREIRA

    O que houve com os meus “comentários”? Não foram aceitos? Tem ou outro “link” de acesso?