Filhos da Esperança: As paredes derrubadas pelo cinema

O cinema é uma forma de olharmos para o mundo. E esse olhar, mesmo quando parte do exercício cinematográfico como adaptação, leva doses de um trabalho que derruba uma parede a mais em nosso modo de vermos um filme. Essa camada é composta de uma série de elementos que vão desde a perícia com que direção e estória se imbricam na potencialização da experiência do cinema. Da união desses elementos é que surgem obras como “Filhos da Esperança” (2006).

Dirigido pelo realizador mexicano Alfonso Cuarón o longa, que se passa em 2027, conta a estória de um mundo caótico onde há cerca de 18 anos atrás uma onda de infertilidade atingiu as mulheres e desde então, nenhuma nova criança fora gerada nesse intervalo de tempo. Em meio a isso, Theon Faron (Clive Owen), um ativista inglês tenta transportar uma milagrosa mulher grávida a um santuário fora da cidade de Londres.

Baseado no romance da escritora inglesa P. D. James, Filhos da Esperança é um daqueles trabalhos que conseguem se construir na base certeira do equilíbrio. Na modulação exata do filme que extrai para sua base a estória escrita em forma de romance e se expande a partir dos códigos que só o cinema detém como uma arte de linguagem.

Falamos das maneiras que a arte cinematográfica tem de colocar seu fazer na prática, ou naquilo o que ela dá por meio de seu suporte primário: a imagem. E no filme, Cuarón vai além da exposição naturalista das ações que compõem a obra na sua totalidade. Ele se vale das elipses. Na síntese imagética que apresenta os fatos de forma muito condensada mas extremamente precisa.

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Cuarón vai além da exposição naturalista das ações que compõem a obra. Na síntese imagética, apresenta os fatos de forma muito condensada mas extremamente precisa.

Numa sequência de 5 minutos ele coloca toda a questão de norteia a trama: numa realidade distópica¹, a humanidade deixou de gerar novos seres humanos. Dado o conflito, ele insere as personagens na mesma lógica. Não precisamos saber do passo de Theon ou da gestante que passa a representar uma espécie de nova esperança da humanidade.

Esse é um ponto interessante porque ele nos leva para a questão da lógica envolvendo personagens a partir da ideologia do star system. Na gramática cinematográfica ela diz que falamos de heróis geralmente retratados por um casal com uma missão maior no filme. Mas em nosso longa a carga de relevância do modelo se alia com o conjunto da obra e sua carga dramática como um todo. E Filhos da Esperança é antes de tudo um filme dramático.

Tenso, ele nos toma para dentro de si por meio de sua forma e conteúdo. E nesse ponto, são os múltiplos planos sequência, como na angustiante cena da perseguição no carro de quase quatro minutos aliada ao tema da violência que é tão inerente quando pensamos cenários distópicos. Além das atuações e criações de cenas numa proposta bastante naturalista.

Aqui, vale pontuarmos o trabalho do brilhante diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (O Regresso, Birdman, Gravidade). Sua perícia vem das referências e na forma como conduz a estória na afirmação do cinema como uma arte que, é sim, iminentemente uma linguagem.

E isso se evidencia desde os longos takes que revelam economia e perícia no olhar ou das frenéticas cenas de ação com o sangue que respinga na tela e nela permanece até que nosso olho o assimile e pense: não estamos mais em um filme.

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A estética realista do filme pelas lentes do fotógrafo Emmanuel Lubezki salta na tela com o sangue que impregna a câmera. Estamos na ação.

Realizado há exatos 10 anos, Filhos da Esperança é o sexto longa-metragem de Cuarón e deixa uma semente de um cinema que mais do que contar estórias, inquieta e nos põe um estar reflexivo acerca das diversas formas que nosso futuro pode vir a ter em função de um tempo de intolerância, cerceamento de direitos e da violência que sufoca o mundo todo ao longo de nossa história.

Um realizador versátil, Cuarón ousou em sólidos trabalhos como em “E sua Mãe Também” (2001), passando por trabalhos mais “leves” como em “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban” (2004) e chegando de fato ao mainstream com o hollywoodiano “Gravidade” (2013). Múltiplo, Cuarón faz um trabalho que leva a gênese do que a realização em audiovisual deve ser: diversa e potente.

1 – A distopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma “utopia negativa”. As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Children of Men

Tempo de Duração: 109 minutos

Ano de Lançamento (Reino Unido): 2006

Gênero: Drama, Ficção Científica, Thriller

Direção: Alfonso Cuarón

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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