FALSIDADES DELIBERADAS

Conta-se que numa cidade medieval, uma sentinela de confiança estava postada numa guarida todas as noites para prevenir seus habitantes da aproximação de algum inimigo. Como era uma pessoa dada a brincadeiras, numa noite tocou o alarme apenas para amedrontar seus concidadãos. Obteve um sucesso espantoso. Toda a gente saiu de suas casas e espalhou-se pela muralha para aguardar o inimigo, inclusive o próprio vigilante que soou o alarme, enganado pela veracidade da mentira que criou.Moral da estória: quanto mais êxito tem um mentiroso, mais próximo estará para cair na própria armadilha.

Fiodor Dostoïevski já alertava sobre esta questão em seu livro “Irmãos Karamazov” quando o pai, um palhaço devasso e mentiroso inveterado, pergunta ao stárietz: “E o que devo fazer para obter a salvação?”. E o stárietz replica: “Sobretudo, nunca minta a si próprio”. Uma genial sentença paradoxal: para salvar-se, mesmo sendo um falseador inveterado, ele terá de ser o guardião do fio da verdade dos fatos aos quais ele se destinou a falsificar deliberadamente, consciente de saber fazer a distinção entre o verdadeiro e o falso.

O perigo a que estamos expostos hoje com o avanço do fascismo mundial, sob a pecha de “trumpismo” ou “bolsonarismo”, é a possibilidade da mentira completa, finalidade e modus operandi da ideologia fascista, por meio da manipulação dos fatos, pela construção de imagens e narrativas, pela repetição diária da mentira a níveis exponenciais e orquestrados, ao ponto de tornar-se percebida como verdade total, como demonstrou historicamente o nazismo alemão.

Um exemplo clássico brasileiro é a recente esquematização da mentira deliberada, nos porões da justiça de Curitiba, por parte de Sérgio Moro (codinome Russo), Dallagnol (vulgo Deltinha) e Rede Globo, utilizando-se da assim chamada operação Lava Jato, com o objetivo da consolidação do Golpe de 2016 e da prisão tirânica do ex-presidente Lula em 2018, para viabilizar a chegada do projeto fascista brasileiro ao poder.

Na noite de 03 de abril de 2018, o Jornal Nacional (JN) dedicou metade de sua edição (quase 25 minutos) exclusivamente a construir uma narrativa emocional-racional para a opinião pública telespectadora, por meio de imagens e depoimentos editados, contrária ao julgamento do “habeas corpus” impetrado pela defesa do presidente Lula. Buscou colocar em xeque a pessoa do ministro Gilmar Mendes, no sentido de constranger o pleno do Supremo Tribunal Federal (STF) a votar pelo não acolhimento daquela garantia constitucional, no dia seguinte. Logicamente, a última notícia veiculada naquela noite nos últimos segundos do JN foi a leitura da ameaça publicada pelo gal. Villas Bôas, comandante do Exército, em seu twitter. O resultado da votação foi aquilo almejado pela Rede Globo e pelo Exército: o presidente Lula teve negado o seu pedido de “habeas corpus”. Dois vigorosos poderes – o midiático e o das armas – ameaçando abertamente a Justiça, em vez de protegê-la.

Pergunta-se: pode a vida humana ser vivida num mundo privado de noções como honestidade, justiça, verdade? Como pode a vida humana florir em um mundo onde os homens se recusam a testemunhar aquilo que é? A justiça é um direito humano. Não há como viver num mundo desprovido de justiça. A segurança jurídica é um imperativo da convivência democrática. Envolve tanto a sua positivação em leis justas quanto em processos jurídicos justos. Graças à firmeza da defesa do presidente Lula aliada à obstinação do jornalismo investigativo, hoje está se podendo desvelar a mentira sórdida contida naquela armação fascista. Falta ainda o STF restituir imediatamente todos os direitos políticos do presidente Lula, declarando nulos todos os processos tirânicos que lhe foram imputados.

Na Caverna de Platão, o senso comum vive como simples espectador de imagens, não está envolvido em nenhuma ação em prol da construção do bem comum. 


Consequentemente, os acorrentados membros da Caverna incomodam-se quando alguém vem apontar alguma verdade falseada, alterando a rotina passiva de sua realidade de espectadores. Principalmente quando tais verdades contrariam o lucro, a cobiça e a ambição daqueles que detêm o controle da Caverna.

A tática fascista consiste em dar às suas mentiras uma base pós-facto na realidade, destruindo a verdade (como Moro,Dallagnol, Rede Globo e Cia. fizeram na Lava Jato). A mentira fascista produz uma realidade fantasiosa, com vistas a uma verdade transcendental. A fragilidade conceitual do ocidente de transformar a aparência em verdade, tornando verdadeira qualquer notícia que seja publicada na televisão ou nos jornais, sem a devida comprovação factual de sua veracidade, é a base sobre a qual o fascismo vai atuar para moldar a realidade segundo as suas mentiras.

Um poder que priva os humanos da liberdade de comunicar seus pensamentos publicamente, priva-o ao mesmo tempo da sua liberdade de pensar. A única garantia para o crescimento e correção dos nossos pensamentos está em pensarmos em comunidade com os outros, a quem comunicamos nossos pensamentos como eles nos comunicam os seus. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre a verdade dos fatos não estiver garantida e se não forem os próprios fatos o objeto do debate público. Não existe o direito de se atentar contra a matéria factual. Não se podem desvirtuar os fatos. Qual é o destino da verdade quando um oligopólio de poder tem a última palavra nas questões da verdade de fato?

Desde 2016, falar a verdade dos fatos passou a ser uma arma perigosa contra essa estrutura fascista armada no Brasil: por um lado há quem tenha medo; por outro lado, há quem se sinta bastante incomodado em seus interesses econômicos, políticos e religiosos. Mas é a verdade racional que ilumina o entendimento humano. A verdade dos fatos deve servir de matéria à formação das opiniões.

Os fascistas têm a mentira deliberada como forma de ação política. O contrário da verdade dos fatos é a falsidade deliberada. O objetivo da mentira organizada é destruir tudo aquilo que ela decidiu negar. Governos fascistas adotaram a mentira deliberada como o PRIMEIRO PASSO para poderem decretar a morte. A diferença entre uma mentira tradicional e a mentira fascista deliberada remete para a diferença entre OCULTAR E DESTRUIR. O objetivo é gerar na população uma recusa absoluta a acreditar na verdade de qualquer coisa, destruindo o sentido pelo qual nós humanos nos orientamos nesse mundo. Mas sem integridade intelectual não é possível construir convivências dignas e saudáveis, nem conhecimentos verdadeiros.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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