FALANDO E CANTANDO COM PEDRO GURJÃO – POR PÁDUA LOPES*

Apresso-me em levar ao seu conhecimento a minha opinião, ou simples observações, sobre as primeiras 200 páginas (cerca de 1/3), porque vejo que o livro tem um ritmo ou desenvolvimento que não se perderá ao longo das suas copiosas 600 páginas.

​​O certo é que o livro me surpreendeu na originalidade temática, na inovação estilística, na elaboração da escritura; resumindo, em todos os sentidos. Anima-me assim entusiasmo pela obra. Não que eu duvidasse, sequer por uma fração “quântica” de um segundo, da sua capacidade inventiva e do seu talento, do que você deu inúmeras provas no decorrer da vida. Contudo, o novo, o bem escrito, a criatividade da arte, enfim, sempre nos surpreende.​​

​​Verifiquei, de saída, uma coincidência intelectual conosco pelo amor aos clássicos, pelo estudo das civilizações grega e romana, tanto por sua história quanto por sua rica mitologia. Que coisa rara de acontecer: cultivar esse passado esplendoroso para provocar renascimentos!

​​Os amplos paneis do livro estão estruturados de tal forma que constroem um conjunto coerente e harmônico como se fossem atos de uma peça teatral ou partes de uma sinfonia. Nem parecem ter sido eles elaborados em semanas diferentes, em circunstâncias específicas, com fatores dissonantes. Subsiste uma unidade requintada entre eles, ainda que o cenário mude abruptamente do interior do Ceará para as cidades da Europa. Talvez seja o resultado de o livro transitar com naturalidade entre o erudito, o popular e o folclórico. As linguagens usadas – a poesia, a crônica, a memorialística, o jornalismo e o anedotário – aparecem no lugar certo e no momento apropriado, a lembrar a canônica obra Ulisses, de JAMES JOYCE. Por trás da narrativa, jorra um fio condutor, uma argamassa invisível, de metal nobre, agregando os temas.

​​Ressalto, em particular, o Item 1.5, “E com o passar do tempo… o que acontece” (p. 52-56). Esse entrecho, por si mesmo, é um Romance completo e acabado; compacto tal um conto, sim; mas oferecendo uma análise psicológica dos dois personagens: Valentino, o latin lover, e ela, anônima, de sentimentos à flor da pele, sem entender a perda amorosa.

​​Não poderia deixar de mencionar a sua vasta cognição musical, na condição de compositor e musicólogo. Nas citações musicais, parece se ouvir a voz do autor, dedilhando as cordas do violão, e se pressente o eco dos sons da lira e do canto de Orfeu. As trovas autorais são pertinentes, amenas e bem humoradas (posso citar MILLÔR?), repletas de achados espirituosos, o que somente o coração do verdadeiro Poeta consegue. Pois, “se a poesia se faz com palavras, o poeta se faz com a alma”.

​​Algo extremamente útil à compreensão cabal dos textos (o leitor não terá jamais o conhecimento enciclopédico do autor) são as denominadas Notas Ilustrativas e Bibliográficas. Pela rigorosa precisão histórico-científica, elas devem ter exigido muita paciência para a pesquisa exaustiva.

​​Creio que basta, para quem não se propõe a ser um crítico, mas apenas alguém que não deseja pecar pela omissão e deixar de se manifestar sobre um acontecimento relevante culturalmente em Fortaleza: o seu livro. Estas impressões foram colhidas en plain air, ao sabor deste momento, como nas telas do Impressionismo.
​​Fez o autor muito bem, em transpor para o suporte livro (físico, de papel, com páginas sensíveis ao tato) o conteúdo armazenado na Internet. Como não tenho acesso às redes sociais, não soube antes, e nem saberia nunca, acerca da sua produção eletrônica para os seus felizardos seguidores ou leitores virtuais.
​​Por último – ou deveria vir em primeiro? -, agradeço ao Amigo ter vindo à minha casa entregar o livro, com uma generosa dedicatória, em minhas mãos. Foi um reencontro de amigos, que precisavam de falares, que gostam da convivência recíproca e que puderam, então, reatar e atualizar conversas antigas. Abraço,

* Pádua Lopes, advogado, jornalista, escritor, servidor público.

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