FALA, CERVEJEIRO!

Em sua edição de ontem (12.8), o jornal O Povo publica, em página inteira (Comes & Bebes) do caderno Vida & Arte, intrigante (para mim!) matéria intitulada UMA CERVEJA PARA  CADA TIPO DE PAI, contendo sugestões de preciosidades (“excentricidades” para quem – eu – a perfeita composição de uma boa água, malte, lúpulo e leveduras, envasada preferencialmente em garrafa e mantida em temperatura polar, já pode ser consumida como cerveja que agrada o pouco exigente paladar etílico) do universo cervejeiro de expressiva qualidade, todas elas – raridades, ao meu singular prazer – com elementos identitários que desbordam da capacidade leitora de um monolíngue ou monoglota, como queiram, ó respeitáveis leitores. Trata-se de produção textual construída de imagens e palavras, com assinatura de João Filho que, em face do mostruário e do fraseado, demonstra ser profundo conhecedor do assunto. A dúvida que ainda paira em mim, depois desse palavreado todo, é se ele – o autor – incorpora perfil de “cervejólogo” (estudioso, conhecedor, produtor artesanal) ou de “cervejófilo” (amante, apreciador, degustador). Quanto a mim, reconheço que este rótulo se me ajusta bem mais que aquele.

Meditabundo em minha rede de varandas, apreciando os efeitos antiabrasivos de intermitentes ventos que ainda carregam em suas invisíveis e perceptíveis entranhas um pouco de ar puro, em pleno mês tido popularmente como “do cachorro doido”, até por já abrir o período de calor que, aos poucos, vai se intensificando, mas (o ser humano também é antitético na essência) consagrado a muitas agraciadas versões de Maria (Senhora da Assunção, em Fortaleza; dos Prazeres, em Caucaia; da Palma, em Baturité; só para citar as três de meu mais profundo e fervoroso relacionamento cristão) – conforme as características das múltiplas visões –, venerável mãe de quem governa e manda nisto tudo, aqui e além, ao derredor e alhures; além de experienciando uma era de magríssimas vacas cuja resiliência exemplar as mantém de pé, embora (que, no caso, não pode nem deve derivar de “em boa hora”, a expressão originalíssima; e que me perdoem os lapidadores da língua mátria) já só lhes sobrem o couro e os ossos, deixei-me vaguear por ambientes em que aquelas “preciosidades” enfeitam expositores – estrategicamente localizados e certamente sob rigorosa proteção – e, em natural reação, assustei-me com os preços que se lhes referem. Saudades do tempo (anos 1970 e seguintes) em que a Astra Pilsen dominava, com exclusividade, os bares da minha terra natal, da minha bem vivida juventude!

Logo uma lembrança e uma preocupação me assaltaram (e, como sói acontecer em todo e qualquer assalto, me assustaram).

Lembrei-me dos idos tempos em que, pré-adolescente e já aborrecente, em meio à tempestade que me desnorteou, me desorientou, tão logo se manifestavam os danosos efeitos da orfandade precoce, cometi uma das mais absurdas e imperdoáveis impertinências de toda a minha peculiar existência, qual seja a de acolher, nas até então saudáveis entranhas, e alimentar, da forma que até mesmo não podia, o vício do fumo. Àquela época, “solto na buraqueira” de uma irresponsável caminhada vital, desprovido de recursos que bancassem os desatinos, que sustentassem os desvarios – esse, em especial –, mas sendo empurrado “ladeira abaixo” cotidianamente, já praticava aquilo que a ciência econômica logo definiria como “opção por substituto de preço mais acessível em tempos de inflação”. Assim, se o dinheiro que dispunha só se fazia suficiente para a aquisição de meia carteira ou meio maço de cigarros Continental (ainda não havia a versão “com filtro”), cuja inebriante fumaça maltratava os pulmões dos que frequentavam ambientes elitizados, os quais empesteava, adquiria uma/um de BB (pejorativamente conhecido como “beiço de burro”), para, assim, assegurar um tempo mais longo de consumo. Grande vantagem! Santa idiotice! E o pior: nem a tosse seca e espirros, que foram adquirindo constância e tornando-se crônicos, nem os soluços e engulhos, que tanto incomodavam, nem a catinga bem característica, que exalava da boca, dedos e roupas, nada disso me fazia/fez abandonar tal vício por quase três décadas adiante. Até hoje ainda pago pelos seus estragos, bem mais sentidos nas vias aéreas. Se arrependimento matasse…!

Preocupou-me, na sequência, a possibilidade de alguém dos que me têm como pai – filhas, genros e netos, principalmente –, estimulados pelas sugestões de João Filho, mesmo sabendo que não gosto de “fortes emoções”, que nada em mim me revela ser “elegante”, que não me incluo entre os “colecionadores” e que muito menos sou “aventureiro”, entenda querer agraciar-me com, por exemplo, “um kit com a Abyssal versão tradicional, versão coffee e versão coconut”. De mais a mais, todos sabem que amo leitura, que gosto de cerveja, mas isso não sugere sequer que apreciaria receber, como presente do Dia dos Pais, os – ou um dos – livros ali indicados (LAROUSSE DA CERVEJA ou A MESA DO MESTRE CERVEJEIRO). Assim, espero que eles não façam tábula rasa dos meus conselhos; no caso, o que ressalta uma das minhas idiossincrasias: entre receber presentes, o que me imporia dá-los em outras situações (e isso não sei!) e usufruir de presenças (o contato humano mais me humaniza!), prefiro a segunda opção. E, por falar em preferência, satisfaz as exigências do meu “eu” cervejeiro qualquer destas alternativas: Antarctica original ou subzero; Brahma 100% malte; ou ainda Itaipava puro malte. Tim-tim.  

Desejo, por oportuno, um apreciável e saudável dia a todos os pais que sabem sê-lo. 

Imagem enviada pelo autor do artigo.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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