EXTRATIVISMO MINERAL NO PANAMÁ, GREVE NACIONAL E RESISTÊNCIA COMUNITÁRIA

O mês de outubro foi de intensa resistência e protestos de rua contra a autorização, por parte do governo, para exploração de mineral no Panamá. As ruas passaram a ser ocupadas por manifestantes de todos os sexos e idades contra o Contrato Lei 406, aprovado pela Assembleia dos Deputados, que autoriza a exploração de cobre no país, um contrato entre a Mineradora Cobre Panamá, o governo e a transnacional canadense First Quantum Minerais (FQM).

Enquanto a população massivamente se manifesta, de forma ordeira e pacífica, pede diálogo e a revogação do contrato, o governo responde com intolerância, desrespeito e ostensiva violência. Tal comportamento só deixa claro que o presidente do Panamá e a Assembleia dos Deputados não representam os interesses da maioria da população, mas os interesses de grupos econômicos fortes que estão associados ao capital transnacional, os quais, para acumular riquezas, não medem esforços para violentar os povos originários, as populações campesinas, professoras e professores, estudantes e os afrodescendentes, assim como para destruir o meio ambiente transformando-o em mercadoria.

As manifestações pela revogação do Contrato Lei 406 e contra a exploração mineral no Panamá vêm servindo também para demonstrar que os políticos do país não representam a sua população e para lembrar aos senhores deputados quais os anseios dela. Centenas de pessoas carregam cartazes pelas ruas lembrando aos deputados quais devem ser os seus interesses. Os cartazes são claros: “não à mina, sim à vida”. Na província de Chiriquí, na fronteira do país com a Costa Rica, a Rede de Defesa da Água vem ocupando as ruas, como em todo o país, contra o extrativismo mineral. Portanto, a luta contra o extrativismo mineral no Panamá não é uma luta de alguns, dezenas ou centenas de pessoas contra o progresso, mas um movimento de massas composto por gente que tem uma visão crítica e um compromisso com a vida e o bem comum.
Diante da falta de diálogo e da violência intensa por parte do governo contra os manifestantes, foi iniciada no dia 23 de outubro uma greve nacional por um período de 48 horas, organizada pelos professores, estudantes, médicos e que ganhou a adesão da população. A greve nacional exigia a imediata revogação do Contrato Mineiro, que havia sido aprovado pela Assembleia dos Deputados e sancionado pelo presidente, Laurentino Cortizo, no mesmo dia. No dia 24 de outubro, em vários pontos distintos do país, os manifestantes foram intimidados, hostilizados e reprimidos pelas forças do exército. Todavia, não se intimidaram, não se rederam e fizeram um chamado nacional e internacional para exigir o respeito aos direitos humanos e a garantia do direito de protesto social negada pelo presidente Laurentino Cortizo.

Depois da greve nacional, os protestos se intensificaram e o governo radicalizou o processo de repressão atirando com balas de verdade contra os manifestantes. O dia 28 de outubro foi marcante nessa luta, as massas se mobilizaram por todo o país solicitando do governo nacional a revogação da Lei 406 e uma moratória mineira. Diversas comunidades rurais do Norte e do Sul do país vêm saindo constantemente em marcha pelas ruas contra o contrato mineiro, em defesa de seus territórios, da natureza e da vida.
A população vem demonstrando compromisso com o seu país, com a natureza, com o patrimônio comum e com a vida, assim como reafirmando sua condição cidadã, se mobilizando permanentemente para que o país se torne livre da exploração extrativista mineral. A maioria da população é contra a visão desenvolvimentista que vem promovendo a crise ambiental no planeta, produzindo desigualdade econômica e social, aumentando o número de pessoas empobrecidas e sem condições de viver, enquanto poucos acumulam bilhões de dólares, dinheiro feito da destruição da natureza, de violência, da exploração da força de trabalho de homens e mulheres e da morte. O capital acumulado na mão de poucos é a natureza, o trabalho e a vida transformados em mercadoria. Nesse sentido, a luta contra o extrativismo mineral, a luta contra o capitalismo, é uma luta de todos que têm compromisso com a vida e com o planeta. Portanto, todo nosso apoio e solidariedade ao povo do Panamá.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.

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URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.