EU SOU NORMAL! por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Respeitáveis leitoras e leitores!

Vocês têm ou já tiveram algum bicho de estimação? Se sim, certamente sabem, por experiência própria, a exata significação do arroubo, do desvelo, do encanto, do saudável jogo de conquista que sempre causa no ser humano esse tipo de relacionamento.

Eu vivenciei algo parecido em tenra idade, já lá se vão seis décadas. Aprendi a “estimar” um gato – o Jussy –, presente de minha madrinha de batismo. Exímio caçador, amigável, inteligente e leal, desfilava, com a natural leveza no andar, patas de plumas, a sua robusta e silenciosa elegância – de finas listras negras em pelagem cinza escuro e olhos arredondados de verde esmeralda com uma fenda preta ao centro – por onde quer que passasse, o que acabou despertando a inveja mórbida, doentia, covarde, em quem lhe impôs um trágico fim na vida (à inexplicável ingestão de uma bola de carne e vidro fragmentado, seguiu-se um processo doloroso, excruciante e torturante, que culminou num tiro de misericórdia dado pelo meu pai que, como todos nós, já não mais suportava ver tamanho sofrimento) e em mim extirpou, de vez, qualquer desejo de revivescência do gênero.

Muitos animais domésticos já tentaram aproximação. De várias formas. Não os repilo. Também não os estimulo a prosseguir no jogo de conquista. Eu não os mereço. Algo sempre me trava. Eis que exsurge a imagem recorrente do Jussy se contorcendo em dores lancinantes, a expelir sangue até pelas narinas, com miados carpidos que mais parecem gemidos lamentosos, o olhar que mescla pedido de clemência e certeza da despedida derradeira, inevitável. Eu já não me dou o direito de correr esse tipo de risco.

Recentemente, venho percebendo o comportamento inesperado de um animalzinho, um pequeno réptil de quatro patas e rabo alongado, trepidante, buliçoso, como se pretendesse me conquistar. Assim que me deito em minha rede de varandas, na área coberta do meu lar, ele se aproxima e põe em prática as suas artimanhas. Dou-lhe o tratamento do desprezo. Faço de conta que não o vejo. Ao perceber que não há a desejada correspondência, que não consegue despertar em mim o mais ínfimo dos interesses, afasta-se lentamente, com andar de frustração. E desaparece no primeiro esconderijo no quintal. Vou vencê-lo pelo descaso ou pelo cansaço.

Hoje, mais uma tentativa. Dispensei-lhe um pouco de atenção. Dei-lhe até um nome: Tix (leiam “tiques”). Deriva de “lagartixa”; o que, na verdade, é. O animal que no Xamanismo representa otimismo, adaptabilidade, regeneração, sonhos, renovação, transformação. Há quem assegure até que, através desse animalzinho aparentemente inexpressivo, manifesta-se a certeza de que “alguém no céu o ama, protege-o com energias positivas, controla as pragas da sua casa e da sua alma.” Percebi que com ela – a lagartixa – poderia comunicar-me por transmissão de pensamento. [Eu sou normal!]. Suas respostas – ou reações – se expressavam por movimentos corporais. Quis saber se gostara do nome que lhe dera. Recolhi um leve meneio de cabeça, um dar de ombros; e interpretei: um “tanto faz” sutil, quase inânime. E, se antes eu a desprezava, ela agora me desdenhou. Retesou o rabo, esticou a fina ponta para o alto, elevou todo o corpo mantendo apenas as patas ao rés do chão, balançou freneticamente a cabeça, cruzou apressadamente a parte cimentada do quintal e escalou naturalmente o alto muro bem à minha frente. Teria ido embora? Certamente. Iria fixar-se em outra freguesia? Talvez. Deixei-a de lado.

Cerrei os olhos. E a minha mais atual e crucial preocupação me tomou de assalto. Em quem votar?! Como exercitar a cidadania numa situação de alta complexidade como a que ora se me apresenta?! A encruzilhada. Que rumo tomar? Até há bem pouco tempo defendia uma posição firme, cantada em versos de rimas pobres: Já fui um “vacilão”. / Um marginal mirim / Me definiu assim. // Agora sou um “isentão”. / Desci até ao rés do chão, / E, convicto, reitero: “Neles não!”.

Sinto, agora, haver descido do muro. Muro?! Que muro?! E lá estava, no topo do alto muro, Tix (leiam “tiques”), a lagartixa. Lá de cima me olhava com ar superior, instigante – “Pergunte e eu responderei”. Aquiesci. Mentalizei: voto em alguém? Ela reagiu: arqueou o rabo, a ponta fina esticada para o alto, alteou as patas dianteiras, elevou o peito e, num esforço extremo, meneou sutilmente cabeça e cauda. Gingou, por assim dizer. Entendi: se fosse com ela, nada de voto em quem quer que seja. Fixei nela o olhar perscrutador: devo anular o meu voto? Tix retomou a sua postura natural e balançou a cabeça, positivamente, repetidas vezes. Decifrei: vá lá, aperte o 12 e confirme. Isto: confirme o seu voto do primeiro turno. A terceira via a que o povo brasileiro negou acolhimento; preferiu a polarização.

E ela, então, se foi. À procura de quem se dispusesse a lhe dar mais atenção, melhor tratamento.

E eu adormeci. Sob o assovio mavioso – quase imperceptível – do vento que me acalentava o corpo e acalmava o espírito, sonhei com Michel de Montaigne* me advertindo: “Não acho certo nem honesto, entretanto, quando as agitações subvertem o país e o dividem, permanecer-se hesitante entre os partidos, sem manifestar preferência ou simpatia nem por um nem por outro.” E, com a voz de Tito Lívio** tomada de empréstimo, o respeitável filósofo francês sussurra ao meu ouvido: “Não significa isso seguir um caminho intermediário, significa não seguir nenhum; significa aguardar os acontecimentos para aderir a quem se beneficie com a vitória.” Retorno à encruzilhada. Que caminho seguir? À direita? À esquerda? Que dilema para quem, em termos de política, é ambidestro!

Agora, amigas e amigos, encontro-me numa sala de boa iluminação, clima ameno. O olho fixo na tela de uma urna eletrônica. Digito o número 13. As imagens que capturo refletem alguns personagens do passado recente de nossa história: Lula e o semblante enfezado, raivoso, irascível; Zé Dirceu e o agir ardiloso, pusilânime; Palocci e as artimanhas danosas, nefastas; Gleisi e o nariz arrebitado; Lindberg e a petulância arrogante; dólares na cueca; reais enlameados. Corrijo. Digito, então, o número 17. E o que vejo? As ilusões das armas: a ditadura recriada. A violência pela violência. A ufania do macho em face de um conceito já ultrapassado sobre a fragilidade da fêmea. A exacerbação do ódio. O discurso desprovido de nexo. Os retalhos de plano de governo tão disformes, tão díspares, que não se conjuminam. A incompetência. A intolerância. A intransigência. O extremismo. E o brilho da foto de Ustra, o torturador, amedronta-me. Corrijo. Digito, agora, o número 12. E ouço a voz global de Bial: “Isentão! Legalzinho!”. Corrijo.

Respiro fundo. Relembro Montaigne. Cumpre-me manifestar preferência, simpatia. O conceito de cidadania me impõe ser responsável no agir. Lembro-me de que, há quatro anos, para manter o não-voto em Rousseff, acabei optando pelo mineiro Neves. Que opção! Decidi-me, enfim. Votei. Com esperança no porvir.

Na saída, senti o peso de olhares de censura. Eu tinha demorado mais do que me era permitido. Lá fora, um amigo que também sente prazer em proteger a pele com o “manto sagrado” me interpela:

– Conte-me aí, amigo meu!

– Cumpri com a minha missão.

– Treze ou dezessete? Doze?!

– O voto é secreto, me’rmão.

E o que era apenas um sonho transmutou-se em pesadelo. Mas… eu sou normal!

Notas do autor: * Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Coleção Os Pensadores, volume II, pág. 144. ** Titus Livius (59 a.C – 17 d.C), consagrado historiador romano.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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