Estrada da Abadia – por RENATO ÂNGELO

Hoje escutei mais uma vez meu querido Abbey Road. Desnudei-lhe do plástico, da poeira e do esquecimento. Contemplei a travessia eterna daqueles quatro cabeludos sobre a célebre faixa de pedestres. Senti o cheiro e o teor do rock em conserva. A agulha sulcando estreitas trilhas de vinil que, entre um charmoso pipocado e outro, revelam um testamento sonoro tantas vezes lido pelo meu sedento escutar. O icônico LP dos Beatles está comemorando bodas de ouro! E mesmo por saudosismo, fidelidade ou diletantismo resolvi fazê-lo em uma vitrola. Nada de mp3. Gosto de datas… gosto de sons. A música, de todas as artes, é a mais cara para mim. Sou fã incondicional de bons artistas e tudo que me chega pelos ouvidos alimenta a sensibilidade. A idéia de alguém ser capaz de transformar sentimento em linguagem sonora me encanta. Esta elocução universal, a união de harmonia, melodia e ritmo, tem local de destaque em meu coração.

Com os quatro famosos de Liverpool não foi diferente. Começaram a chamar minha atenção quando, por uma grande oportunidade, tive aulas de inglês na infância tendo a música “Help!” como pretexto de aprendizagem. Grande professora Eliana! Mal sabia, a criativa mestra da língua anglo-saxã, que aquele garoto seria o que chamam de beatlemaníaco por causa dela. Não gosto do termo, mas… vá lá! Beatlemaníaco… Bem mais preciso seria “apreciador do que de melhor o rock pode oferecer”. Enfim… fui atrás da tal música. A danada só foi achada na casa de minha avó, em uma esquiva e esquecida coletânea dupla de vinil – aquela em que eles olham o fotógrafo de uma sacada de edifício – com o nome do meu tio Otávio marcado nela… como gado. A canção “help!” parecia mesmo gritar: – “socorro!” Esse é um momento-chave no qual um artista pula de uma geração a outra… fato esse que se dá, até hoje, por caminhos não tão bem explicados. Discos em casa de avós são como relíquias ou fósseis de atávicas relações familiares. Relembram que, na medida em que pessoas saem das casas dos seus pais, algo mais – além destes – deixam alojados no cômodo do passado: lá residem (a) lençóis sempre limpos esperando visitas e clamando atenção; (b) sentimentos travados de mal resolvidas relações afetivas e (c) discos dos Beatles a serem afanados por sobrinhos. ( – Opa! Eu falei “afanados”? Perdão… leia-se “empréstimo musical compulsório como tributo de uma geração para outra mais nova”). Pois bem, fiz bom uso deste fóssil musical dos anos 1960. Tanto comecei a entender melhor outro idioma, como também abri portas de sensibilidade até então ignoradas. Sim, querido leitor! Fiz as contas… Aquele Lennon que cantava pedindo socorro, o fazia no auge de seu sucesso, mas achei estranho o fato de que poucos perceberam a dor por trás de seus versos. No Verso do verso, vestido com uma fantasia iê-iê-iê, estava lá: uma dor. Admirei a coragem daquele artista: do cume da montanha do pop gritava um atestado de fragilidade, de clamor sincero por auxílio… uma obra de indústria cultural poderia ser mais que entretenimento àqueles que se dispusessem percebê-lo. E olhe que o fazia em 1965, dois anos antes de “Sargent Peppers” chegar como uma bomba no inesquecível verão londrino do amor! A questão é que, tendo uma canção levado à outra, a coletânea criava mais um fiel apreciador dos músicos ingleses.

Como qualquer objeto artístico, compreendo um disco como algo a ser saboreado, assimilado sem pressa, por sucessivas investidas. Há que se visitar e revisitar uma obra musical. É que, de variadas camadas sendo composta, guarda em si deleites arredios a absortos ouvintes. Em meu caso, por exemplo, aprecio um disco por camadas. E cada audição revela um novo conteúdo linguístico par excellence: uns circunscritos ao universo do artista, outros ao do ouvinte, ambos em transformação constante a cada encontro. No caso do Abbey Road a quantidades destas “camadas” é considerável. É o último disco da banda liverpooliana se considerarmos as datas de gravação e a ideia de conceito unitário. Ali está tudo inteiro. Brigas internas e projetos de vida diferentes já haviam separado os interesses dos artistas. Desejavam, porém, segundo palavras do próprio Sir Paul, deixar como legado um disco “pra valer”. Geniais, os cabeludos ingleses ainda nem contavam trinta anos de idade quando gravaram o Abbey Road. Mesmo assim já haviam definido os termos, forma, conteúdo e efeito sociocultural do que seria uma personalidade de artista no mundo musical pop. Mesmo com toda bajulação, distrações e percalços, souberam manter uma produção musical de alto nível e refinamento, fato corroborado por qualquer audição atenta do disco em questão. Foi o que se deu comigo.

Quando ouvido pela primeira vez o disco parece estranho. Passados apenas quatro anos da alegria contraditória do iê-iê-iê de “Help!” temos uma espécie de rap-low profile cantado por Jonh. A letra estranhíssima de “Come together” é repleta de segredos e duplos sentidos – já a partir do título – a linha de baixo cativante, o curioso groove de bateria de Ringo… tudo com a sofisticação que anunciava o que se veria nos anos 1970. Com “Something” a coisa fica ainda mais séria… Um George maduro propõe uma das mais belas canções de amor do rock mundial enriquecido com molho abstrato do único pisciano da banda. Um êxtase… deleite puro… e quando cheguei ao solo – para o qual o guitarrista testara nada menos que catorze diferentes instrumentos e timbres – eu já estava em órbita. A letra macabra de “Maxwell’s silver hammer” dilui-se no alegre arranjo. Difícil imaginar que esta foi uma das músicas do disco com o processo de gravação mais complicado. Com “Oh! Darling” sentimos toda a intensidade das relações amorosas, repletas de crises e superações, através do vocal gritado de Paul. A infantil “Octopus’s garden” e a pesada “I want you” fecham o lado A (o que é isso?) deixando no ouvinte um sentimento de contradição. “She´s so heavy” é a junção de duas músicas inacabadas… o que dizer? Quando a escutei pela primeira vez terminei tenso, suado e com falta de ar. É agonia sonora, sofrida como todas as ausências, mas verdadeira.

O lado B do Lp guarda uma transformação que não é mais possível atualmente, tempos de play lists e fragmentações. A obra de artistas musicais vendidas a retalho. O B é uma viagem musical que se inicia com a diáfana “Here comes the sun” e se encerra com a curiosa “Her majesty”. A pureza de “Lá vem o sol” é a metáfora perfeita… um sol nascendo e derretendo o gelo, os fantasmas de “I want you”… prenúncio de uma metade musical um pouco mais solar. A despedida de um grupo fabuloso. Então… vem “Because”… o que falar? Êxtase musical? Filosofia sonora? Meditação? Canto Sacro? As queixas seguintes de “You never give me your money”, com seu inicio melancólico, seu boogie woogie à inglesa e “Sun king” antecipam a maratona musical de desfecho. Acho “Sun king” a cara do disco: calmo, sofisticado, um veludo musical. A “maratona” que se segue nos deixa atônitos… “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam”… Retalhos… Jonh Lennon no saldão… É a beatlemania que está terminando… É preciso gravar… era para ser uma opera rock… mas não dá… os caras estão brigando… Então grava e vende… é tudo dinheiro, não é? A revolução sexual está nas ruas… As tropas, no Vietnam… E “She came in through the bathroom window”? Trata-se de que? Que lagoa é essa? Vem a melancolia de “Golden slumbers”… como se retorna para casa agora? A mensagem positiva de “Carry that weight”. Ei? Eu já não conheço essa melodia? Que peso é esse que teremos que carregar? O sonho está acabando? Meu Deus! Aí vem “The End”! É literalmente o fim? Solo de bateria do Ringo? Sério? Duelo de guitarras? Teclado infantil… Está no fim… a banda, a era, o sonho… “E no final o amor que você recebe é igual ao amor que você faz”… É isso? Acabou? O disco, a banda e o sonho? Paul está morto? Billy Shears? Quem é? Eu vi seu sósia na capa… John é o espírito de branco, George o coveiro e Ringo o pastor… Ah! Dá um tempo! Esse sósia do Paul é bom! Canta, toca e compõe igualzinho ao Paul. É dele “Hey Jude”, “Let it Be”, etc… Posso imaginar um bicho grilo ouvindo o disco na época… E levando um susto com os 17 segundos que separam “The End” do real the end do disco: sua majestade… um recorte de música, vagando no espaço escuro do vinil… um final abrupto – como foi com a geração, a banda e o sonho. Curioso notar que os dois lados acabam de forma abrupta, como várias coisas de nossa vida. Depois disso haveria “Let it Be” mas… falemos sério: Abbey Road é a despedida… “Deixa Estar” é um comércio… os filhos que vendem a casa após a morte de seus pais.

“Eles” foram só uma banda de rock. Aquilo era só um disco.  Mas dentro de um “só” muita coisa cabe. Já se passou meio século e o caras ainda estão lá… atravessando aquela bendita faixa de trânsito da estrada da abadia.

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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