A ESCOLHA DE SOFIA, por Rui Martinho

A escolha de Sofia é um filme no qual uma mãe, prisioneira dos nazistas, é forçada a escolher um dos filhos para a câmara de gás. Ouço de leitores a queixa de que não têm em quem votar. Faltam candidatos e partidos qualificados. O voto criterioso deve considerar a experiência administrativa, a necessária habilidade para lidar com o Congresso, equilíbrio e moderação indispensáveis à pacificação da sociedade, probidade, renovação dos quadros políticos, força, impetuosidade e coragem para romper com os velhos vícios da vida pública, quebrando o mecanismo da corrupção, qualificação intelectual, plano de governo e uma base partidária sólida para governar.

Tudo isso junto seria como se a mãe do filme aludido pudesse salvar ambos os filhos. Escolher alguns dos critérios, renunciando aos demais é uma “escolha de Sofia”. Experiência administrativa e política não anda de braços dados com a renovação da vida pública. O chamado sangue novo não é certidão de capacidade administrativa nem de aptidão para difícil negociação com o Congresso, governadores, prefeitos, variados grupos de pressão e outros atores políticos. Já se disse que o Brasil não é para principiantes. Renunciar à renovação das lideranças e das práticas políticas em nome da ruptura com as velhas práticas é uma escolha difícil.

Optar pelos experientes, hábeis na negociação, veteranos do jogo tradicional do político esgotado, com todos os seus vícios, é jogar fora a oportunidade histórica de mudar o que deve ser mudado. A habilidade política da experiência é uma certidão de envolvimento com os vícios do patrimonialismo caracterizado pela troca de favores e a indiferenciação do patrimônio público em face do privado.

A indispensável probidade é uma exigência diante da qual só sobrevivem os estranhos no ninho da política. Estes, não tendo praticado jogo sujo, não tiveram acesso a cargos no Executivo nem na liderança do Legislativo. Não revelaram “habilidade política”. Permaneceram no baixo clero do Congresso ou não passam de neófitos na política. São despreparados. Podendo ser impetuosos. Representam renovação de condutas e a quebra do mecanismo apodrecido da política. Estas qualidades geralmente não andam em companhia do preparo intelectual, do equilíbrio e da moderação. Poderá, um ator com perfil de “rompe mato”, apresentar planos feitos por algum técnico. Mas isso pouco ou nada significa. Já a base partidária sólida e a promessa de governabilidade é também um compromisso de continuidade de tudo que a nação não suporta mais.

Não temos escolha indolor, seja com uma liderança personalista do tipo impetuoso, seja um conciliador de atitudes lenientes. Crise da continuidade de um modelo que já não funciona ou crise de uma ruptura: eis a escolha de Sofia.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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