ENTREVISTO-ME: RESPONDEM OUTRAS VOZES, por Luciano Moreira (Xykolu)

 

Já revelei aqui, neste generoso espaço em que me alargo no que sinto, penso, vejo, lembro, vivo, sou, algumas manias que, no curso da vida, revestem circunstancialmente o meu bem peculiar modus vivendi, ora ressaltando a principal delas – na verdade, parodiando um verso de música do cancioneiro popular –, qual seja “dentre as manias que tenho, uma é gostar de viver.”

Num bem significativo recorte deste gostoso viver, ouso afirmar que ninguém – ninguém mesmo! – detém competência ou capacidade em nível que o permita avaliar, com precisão inquestionável, até porque não deixo transparecer a mais mínima e insignificante emoção que possa concorrer para tal desiderato, a grata satisfação que me invade a alma – e, por lá mesmo, nutre-se e esparge seus efeitos gloriosos, dadivosos, rejuvenescentes –, quando ouço alguém me chamar de “professor”, não porque tenha dedicado, como deveria, a minha vida profissional a tão nobre arte, mas certamente porque em todas as oportunidades em que me confiaram uma sala de aula e, mais ainda, em mim acreditaram ser capaz de despertar em circunstanciais pupilos a certeza de que todos nós – os Homo sapiens – podemos sempre aprender, desde que queiramos, dediquei-me integralmente ao mister, fui bem além de minhas possibilidades, agi à Filgueiras Lima – “Ensino como quem reza, com a alma genuflexa”. Embora, a meu estrito sentir, o aprendizado dependa mais do aprendiz – solo a ser semeado – do que propriamente do condutor do processo, do facilitador, do semeador: o professor.

Num outro não menos significativo recorte deste viver gostoso, ressalto que o conceito de “escrevinhador”, alguém que também brinca com as palavras, que as trata como se bilros fossem a bailar nos hábeis dedos da rendeira, e, com igual habilidade e criatividade, tece textos que o revelam por inteiro, só recentemente senti-me por ele – o conceito – agraciado. E o batismo, sem derramamento de água, sem imposição de cruzes e sem mergulhos de qualquer ordem, aconteceu em agradável ambiente e benevolente acolhida, ali no Montese, mais precisamente na escolinha Grilo Feliz, de ensino fundamental, quando pude conversar com dedicadas e zelosas professoras – as “tias” da gurizada, em cujas vidas se eternizarão – sobre o meu peculiar processo de criação e produção textual, explicitar o processo de transubstanciação do escritor em sua escritura, a que se segue um natural desejo antropofágico em relação ao leitor com “fome” de conhecimento, conforme tese defendida por Rubem Alves, e revelar que a lapidação, no meu exclusivo caso, perpassa todo o curso da fase produtiva, o que significa releituras, rearranjos, paradas e retomadas em incontáveis vezes. Ossos do ofício. E que ofício!

Recolhi aquele momento como a marca de um estágio de vida; afinal, dava-se ali o sempre tão desejado reconhecimento de quem, com insuperável devotamento, luta por tornar matéria, algo palpável, o que antes eram apenas vivências, experiências e saberes coligidos ao longo da jornada vital, privilégios de mim mesmo.

Confesso, por oportuno, que comigo convive, entre muitos e vários sonhos irrealizáveis, o de ser entrevistado, tanto na condição de “professor” quanto na de “escrevinhador”. Sofro o autoflagelo do senso crítico tão aguçado em mim. Que público se interessaria por isso? O que poderia eu oferecer, diante de tantos bem mais capazes, mais influentes e influenciadores, bem mais interessantes?

Nada que me desestimule. Sou, antes de tudo, um teimoso.

Assim é que decidi entrevistar-me. Isto mesmo. Só que, para que se dê mais amplamente a fuga ao convencional, ao tradicional, e evitar que eu repita a reação que a mesmice impôs a Carlos Drummond de Andrade, em Responde a perguntas (Cadeira de balanço) – “Diga a seu professor que vá para o inferno. E vocês me deixem em paz, senão eu jogo uma bomba em cada colégio do Rio, tá?!” –, às questões por mim formuladas, que só dizem respeito a mim, responderão “vozes” consagradas na sublime arte de escrever.

Amáveis leitoras e leitores, debrucem-se, na sequência, sobre mais estes espasmos de lucidez que dão contornos poéticos à minha pródiga existência terreal.

XYKOLU: Você emprega algum método específico ou algum padrão exclusivo no seu processo muito peculiar de produzir textos? Algo que pudesse, por exemplo, compor o seu manual de procedimentos? E, ainda, são reais ou imaginários os fatos que norteiam a sua escritura?

JORGE AMADO: “Parto, em geral, de uma ideia, de um fato, de uma impressão ou emoção. (…) Parto de minhas experiências de vida para a criação. Invento muito, mas nunca invento no ar, minha inventiva tem sempre algo em que apoiar. (…) Eu escrevo como me agrada; não há escritor mais livre neste país. Não tenho compromissos senão comigo mesmo: nem com modas, nem com escolas, nem com circunstâncias, nem com academias, nem com editoras, nada.” (Em De corpo inteiro, de Clarice Lispector).

NÉLIDA PIÑON: “Descobri que sou cheia de truques, capaz de inventar pretextos que adiem indefinidamente o trabalho já iniciado. Assim, produzo mesmo resfriada, cansada, indiferente, lenta, deslocada do eixo mais ardente da criação. Sob esta decisão, perco respeito pelas minhas idiossincrasias e medo. E cada texto que resulta desta peregrinação em torno de mim mesma, solitária diante da máquina, sujeita-se invariavelmente a seis e sete versões, num trabalho de pinça. (…) Todo método, porém, é questionável e flexível, serve às conveniências pessoais.”

XYKOLU: Você não esconde o amor que nutre por sua “eterna parceira”, chegando até a modificar uma das regras fundamentais da união conjugal, ao sustentar, quase poeticamente, “até que a morte não nos separe!”. O que você diria a ela, agora, caso aqui ela estivesse?

MOREIRA CAMPOS: “Temos até o direito / (e isso é o mais autêntico) / de nos zangarmos um com o outro / pela certeza antecipada do perdão, / se somos um, indivisível, intrínseco, confundível. / Único. // Quero ficar contigo sob a morna laje, / para, a nosso modo, / sem palavras, / só presença, / conversarmos pela Eternidade.” [Em Momentos (Eternidade)].

XYKOLU: É comum encontrar em sua produção textual referências às suas “reações sinápticas”, às festejadas “caraminholas”, à “já desgastada memória quase septuagenária”. Isso traduz uma realidade ou faz parte de suas fantasias, de suas invenções? Como vai mesmo a sua memória?

CHICO BUARQUE: “A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética ou por assunto.” (Em Leite derramado).

XYKOLU: Nos seus textos, não raramente você insere, de entremeio, causos recolhidos em suas andanças, em suas vivências. Não deixa de ser uma estratégia válida, a meu ver, na conquista de seus leitores; afinal, quem não gosta de saborear uma “historieta” envolvendo a vida dos outros? Dê-nos o prazer de conhecer, agora, pelo menos dois causos – inéditos, de preferência.

JOÃO GUIMARÃES ROSA: “Sei de um caso que se passou, há muitos anos, contado por meu pai, que quando moço foi campeiro de um tal Leôncio Madurêra, no sertão. Leôncio Madurêra era um homem herodes, que vendia o gado e depois mandava cercar os boiadeiros na estrada, para matar e tornar a tomar os bois. Pois meu pai contava que, quando ele morreu, e os parentes estavam fazendo quarto ao corpo, as vacas de leite começaram a berrar feio, de repente, no curral. Coisa que o garrote preto urrava:

Madurêra!… Madurêra!…

E as vacas respondiam, caminhando:

Foi p’r’os infernos!… Foi p’r’os infernos!…” [Em Sagarana (O burrinho pedrês)].

(…)

“E no brejo, os sapos coaxavam agora uma estória complicadíssima, de um sapo velho, sapo-rei de todos os sapos, morrendo e propondo o testamento à saparia maluca, enquanto que, como todo sapo nobre, ficara assentado, montando guarda ao próprio ventre:

– ‘Quando eu morrer, quem é que fica com os meus filhos?…’

Eu não… Eu não! Eu não!… Eu não!…

(Pausa para o sapo velho soltar as últimas bolhas, na água de emulsão.)

– ‘Quando eu morrer, quem é que fica com a minha mulher?…’

É eu! É eu! É eu! É eu! É eu!…” [Idem.

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(A volta do marido pródigo)].

XYKOLU: Entre muitos temas abordados nos seus textos, aqui e acolá, você “encara” a morte, de uma forma até natural. Se, não há como evitá-la, que a posterguemos! Enquanto isso for possível. Gostaria de, aqui e agora, acrescentar algum “ingrediente” nessa “receita”, de cujo forno ninguém escapará?

ZIGMUNT BAUMAN: “Permitam-me também repetir que embora nós, os seres humanos, compartilhemos com os animais a consciência da aproximação da morte, e o pânico que esse conhecimento provoca, só nós humanos sabemos muito antes de ela chegar (na verdade, desde o próprio início de nossa vida consciente) que a morte é inevitável; que todos, sem exceção, somos mortais. Nós, e só nós entre os seres conscientes, somos obrigados a viver nossas vidas inteiras com esse conhecimento. E só nós demos à morte um nome – colocando em curso um cortejo virtualmente infinito de consequências que se mostram tão inevitáveis quanto eram (e ainda são) imprevistas.” (Em Medo líquido).

XYKOLU: Quem já se dispôs a ler toda a sua obra que, convenhamos, tanto se mostra múltipla – “miscelânea textual”, a seu ver – quanto já com alguma amplitude, em pelo menos três momentos você oferece aos seus leitores histórias de Natal, todas revestidas de muito humanismo. Há alguma outra, de seu conhecimento, não publicada por você?

RUBEM BRAGA: “Às sete horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendazinha. O temporal pegara-os na estrada e entre os trovões e os relâmpagos, a mulher dava gritos de dor:

– Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

(…)

– Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava.

(…)

– Eh, mulher, então vamos botar o nome de Jesus Cristo.

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulhinho de trapos:

– Pai, vem vê.

– Uai! Pera aí…

O menino Jesus Cristo estava morto.” [Em Os melhores contos (Conto de Natal)].

XYKOLU: Recentemente, você revelou que uma de suas manias consiste em ler primeiramente os últimos parágrafos dos textos sobre os quais se debruça. Em todas as obras já lidas, certamente você já deparou com muitas que contêm algo com que se identifica. Em alguma delas, você chegou a destacar algum excerto, registrando à margem “EU!”?

IRVIN D. YALOM: “Conforme envelheço, penso cada vez mais em propagação. Como pai de família, sempre pago a conta quando janto em um restaurante com a minha família. Meus quatro filhos sempre me agradecem, corteses (depois de oferecer uma pequena resistência), e eu sempre digo a eles: ‘Agradeçam a seu avô Bem Yalom. Sou apenas um veículo da generosidade dele. Ele sempre pagava a conta para mim.’ (E eu, por sinal, também oferecia apenas uma pequena resistência.)” [Em De frente para o sol – Como superar o terror da morte (Superando o terror da morte através da ligação)].

KHALED HOSSEINI: “Minha mãe morreu de hemorragia durante o parto. (…) Baba moldou o mundo do jeito que quis. O único problema é que o mundo, para ele, era pão, pão, queijo, queijo. E precisava decidir o que era pão e o que era queijo. Não se pode amar alguém assim sem ter medo dele também.” (Em O caçador de pipas).

XYKOLU: Arrisco-me a dizer ser quase recorrente – explícita ou implicitamente – em seus textos a expressão nietzschiana “demasiadamente humano”. Há, entre as suas muitas manias, a de anotar à margem das páginas de livros o tipo de emoção sentida ao lê-los. Você se recorda de algum caso que se enquadre nessa “categoria”?

OSVALDO ARAÚJO: “Eu perturbei o espírito de meu pai quando ele estava às portas da eternidade, do mistério, um momento importante, uma transição em tudo singular, uma conjunção entre duas coisas infinitas, acima da capacidade humana de compreender, talvez mais longe e mais alto do que se possa imaginar. Eu não devia ter provocado aquela inútil turbulência num processo para ele sagrado, para o qual, creio, meu pai estava pronto, ele preparou-se, espiritualmente falando. Ele não provocou, mas não lutou contra. Ele deixou-se levar, entregou-se. Posso apenas imaginar a beleza e a amplidão de uma passagem desse tipo. Quanto mais imagino, mais belo fica o cenário e mais solene o instante exato…” (Em Um homem de jornal – e uma história de amor).

XYKOLU: Você já confessou que fala pelos cotovelos e, como a sua produção textual é, a rigor, a extensão da sua fala, seus textos são invariavelmente longos. No trajeto da escritura, já ocorreu de sentir a vontade de parar antes do fim ou o desejo de alcançar o fim é o que, na verdade, preside o seu caminhar?

DAN BROWN: “Então se lembrou de um antigo provérbio grego atribuído a alguns dos primeiros mergulhadores a caçarem lagostas nas cavernas de coral das ilhas do Egeu. Quando se está nadando em um túnel escuro, chega um momento em que não se tem mais fôlego para voltar. A única alternativa é seguir nadando rumo ao desconhecido… e rezar por uma saída.” (Em Inferno).

XYKOLU: Diante de situações aparentemente definidas por quantos se declaram conhecedores do assunto, você costuma propor que sempre dispensemos “um outro olhar” sobre tudo, sob o argumento de não haver a “verdade absoluta” nem o “pronto e acabado”, que não possa ser alterado, modificado, recriado – exceto a morte, obviamente. O que o motiva a assim agir?

ALDOUS HUXLEY: “A essência da nova maneira de olhar as coisas é a multiplicidade. A multiplicidade de olhos e a multiplicidade de aspectos vistos. Por exemplo, uma pessoa interpreta os acontecimentos em função de bispos; outra em função do preço das camisolas de flanela; outra (…) em função de divertimentos. E depois há ainda o biólogo, o químico, o físico, o historiador. Cada um vê, profissionalmente, um diferente aspecto do conhecimento, uma diferente camada da realidade. O que quero fazer é olhar com todos esses olhos ao mesmo tempo. Com olhos religiosos, olhos científicos, olhos econômicos, olhos de homme moyen sensuel…” (Em Contraponto).

XYKOLU: Embora defensor incorrigível da democracia, você se diz crítico ferrenho dos políticos – todos eles, sem exceção – e “demolidor” de partidos que, a seu ver, inexistem como tal. Considera-se cidadão participativo, contribuinte espoliado e eleitor responsável. Tem o hábito de, antes de definir o seu voto, declarar o seu “não-voto”. Como você age quando se vê numa indesejada encruzilhada, como a do segundo turno da última eleição presidencial?

ÉRICO VERÍSSIMO: “No dia das eleições, quando chegou a sua hora de votar, ele próprio, Tibério Vacariano, hesitou por um instante dentro da cabina. (Não se habituava com o voto secreto, que chamava de ‘voto de covarde’.) E, para não ‘embromar’ a marcha da eleição, soltou um ‘que bosta!’ e, num impulso sentimental, votou em Getúlio Vargas. Deixou a cabina meio desenxabido, como quem vai dum quarto de banho completamente nu para entrar inadvertidamente numa sala cheia de senhoras.” (Em Incidente em Antares).

XYKOLU: Qual seria a sua última vontade? O que você espera do após “o suspiro derradeiro”?

THOMAS MANN: “A destruição do cadáver pelo fogo – quanto mais limpa, mais higiênica, mais digna e mesmo mais heroica não era essa visão, em confronto com o costume de abandoná-lo à lamentável decomposição e à assimilação executada por organismos inferiores! O próprio sentimento se conformava mais facilmente com (…) a necessidade de permanência, peculiar aos homens. O que sucumbia à ação do fogo eram as partes inconstantes do corpo, que já em vida estavam sujeitas ao metabolismo, ao passo que as outras, que menos participavam desse fenômeno e acompanhavam o homem quase sem modificação, através da sua existência de adulto, eram também as que resistiam ao fogo e formavam as cinzas, com as quais os sobreviventes recolhiam aquilo que o falecido possuíra de imperecível.” (Em A montanha mágica).

XYKOLU: E, para encerrar essa longa caminhada, qual é, para você, a sua melhor definição hoje?

EU: “Você sabe, por experiência ou por vivências, o que significa ser pai? / Seja forte e disponha-se a curar, sem o auxílio da farmacoterapia, / a dor lancinante que aflige um filho. / Você tem ideia do que se exige de alguém que se diz ser pai? / Seja forte e enxugue a lágrima que teima escorrer pelo suave rosto de uma filha. / Eu sou pai! / E nada dói mais em mim que a dor que insiste em doer / no peito de uma filha minha. / Eu sou pai! / E, pra mim, pouca valia tem o prazer quase divino do sopro da reprodução: / Ato mais animal / Que racional… / Eu sou pai! / Porque no meu peito bate o coração de minhas filhas, / No compasso poético das suas inesgotáveis experiências, / Na tristeza dolente das suas mais profundas “sofrências”, / Na alegria contagiante das suas humanas efervescências. / O que seria de mim sem elas? / No mínimo, pai não seria. / E eu sou pai! / Sei que sou. / E, se na dor sou, na não-dor muito mais fácil é ser…” [Em My book of the face 2 – O meu livro do atrevimento (SOU!!!).

 

Nota do autor: “Homme moyen sensuel” – título de um poema do consagrado modernista estadunidense Ezra Pound. Tradução (do francês): homem médio sensual.

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Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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