Entre o Radical e o Extremo – a essência do voto útil. Por RAFAEL SILVA

A palavra radical deriva do latim e quer dizer ir à raiz da questão. Como fosse possível visualizar, escolher ir à raiz indica descer o mais profundo para encontrar a realidade mais crua possível. Contudo, “ter noção total da realidade dói” como atesta Laura Sewall1, por isso, há fuga para o extremo. O extremista opta por movimentar-se lateralmente e ficar na superficialidade dos fatos. Prefere divergir à compreender e acaba por projetar uma falsa realidade ao se apegar na defesa de sua posição, geralmente frágil. Capenga, aceita explodir-se quer seja fisicamente, quer seja intelectualmente.

Em momentos de crise política é preciso ser radical e não extremista. O primeiro ponto é agir com afeição pelo o outro. Sem o diálogo não podemos ir ao radical e somos conduzidos ao extremo. O caminho extremo impede ir à raiz da questão para manter uma suposta razão. Quem o escolhe escorrega em definições tolas, confunde valores com fatos, ideias com moral, costumes com tradição. Age sempre com ira, força e ódio. Enquanto o caminho radical promove a essência, o extremista busca a ausência. Um busca enxergar a realidade profunda, o outro tateia a superficialidade.

Como sabem, estamos atravessando o processo eleitoral mais difícil que vivemos depois da redemocratização. Pautando o discurso de ódio, beiramos a violência e arriscamos cair numa perigosa armadilha extremista. Atenção! Não podemos esquecer que o combate à corrupção exige democracia! Mas há candidaturas radicais que se propõem à realidade profunda. Vamos a elas.

Na Assembleia Legislativa do Ceará, há 46 deputados, mas apenas 1 foi ao radical das questões sociais. Não é preciosismo, sinceramente queria atestar exemplos, mas infelizmente apenas um entre eles foi capaz de escolher o caminho da radicalidade exposta no início desse texto. Por isso, É TEMPO DE RESISTÊNCIA e declaro meu voto ao amigo e colega Renato Roseno sob o número 50.500.

Para o senado meu voto vai para um pastor e uma professora. O Pastor Simões – 500 -está na periferia de Fortaleza, é militante dos Direitos Humanos e deriva da verdadeira igreja de Cristo, aquela que ama e liberta. Nessa mesma trincheira está a professora Anna Karina, 505 – que está disposta a mover-se ao radical dos problemas da educação pública. Tem meu apoio!

Tenho considerado o voto para a Câmara Federal como sendo o de maior importância, muito em função da inércia que ali se abateu, ou pela incapacidade dos seus quadros de irem ao radical dos nossos problemas. As bancadas dos fundamentalistas, dos ruralistas e da bala sufocam o espaço popular imprimindo uma agenda extremista. Mas há esperança e ela vem da garra juvenil ou da experiência da mulher. Eu explico minha dúvida. De um lado, vejo um novo e brilhante quadro surgindo na política. Rodrigo Santaella – 5020. Professor, sociólogo e militante das causas sociais. Apesar da pouca idade, Rodrigo já desempenhou importantes funções no Sindicato dos Servidores do Instituto Federal do Ceará – IFCE, demonstrando ser capaz de ir ao radical do problema. Nesse mesmo patamar, tem-se a professora Maria do Céu. Sempre combativa, estabelece sua ação no campo sindical, na luta pela universidade pública e pelos direitos dos povos do mar. Vote na Maria do Céu – 5055, e elegerá uma educadora que está pronta para emprestar sua experiência e ir ao radical dos problemas da República.

Tratando-se das eleições majoritárias2 e fiel ao meu critério de seleção – ser radical – o voto mais fácil é para governador e para presidente. De pronto declaro meu voto a Ailton Lopes – 50 – e Guilherme Boulos 50. O primeiro, já conhecido do público cearense é ousado, capacitado e tem se revelado um apaixonado pelas causas coletivas. Suas propostas não titubeiam e rapidamente lhe posiciona na radicalidade necessária. Da mesma estirpe está o presidenciável Guilherme Boulos. O seu programa de governo foi realizado a partir da sistematização com vários movimentos sociais do país. Mas não só! Vai além, ao propor uma reforma financeira ampla capaz de colocar o patológico sistema financeiro no seu lugar. É a única candidatura que tem abordado o grave problema da dívida pública e a taxação das grandes fortunas. Já estava com os mais pobres antes mesmo de ser alçado à condição de candidato. Cumpre, portanto uma tarefa e não um negócio. Por isso tem meu voto.

Contudo, é necessário registrar o “não voto”. Não é possível votar em candidatos robôs. Sem autonomia para pensar e agir. Cuidado com o voto para deputado federal. Se seu candidato já possui mandato, observe como ele votou quando o assunto era seus direitos. Verifique se foi justo ou votou contra as maiorias sociais. Cuidado com os extremistas! Bolsonaro é a própria expressão de quem não deseja ir ao radical. Suas ideias desafiam a inteligência das pessoas que, tomadas por um histerismo, acabam abrindo mão de uma reflexão mais crítica. #ELENÃO.

Por fim, eu acredito que podemos ir ao radical dos nossos problemas. O processo eleitoral é apenas um dos caminhos. Defendo claramente que poderíamos transformar o mundo. Uma utopia possível é urgente! O nosso principal desafio está na nossa coragem. Leonardo Boff, outro dia afirmou que “se não mudamos é porque há uma profunda cresça em nós de que nada pode mudar”. Isso nos imobiliza e interrompe nossos sonhos e vontades. Nossos sonhos não cabem nas urnas, mas podem passar por elas. Desejo que o gosto pela radicalidade resignifique em nós a ânsia do voto útil e nos leve à justiça e à paz.

Por Rafael dos Santos da Silva

Universidade Federal do Ceará – UFC

Professor.

1 SEWALL, L (1995) The Skill of Ecological Perception. In Ecopysschology: Retoring the Earth. Tradução de Alex Guilherme In O Tao da Libertação (p 149). Sierra Club

2 No Brasil a eleição para Senador também é Majoritária. O autor é conhecedor desse fato por isso faz questão de registrar.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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