Enquanto a pipoca vai acabando… – Sérgio Costa

 

“- Amigo, quanto custa o combo com a pipoca grande?”

Nas últimas décadas, devido a inevitáveis acontecimentos mundiais (como a alta do dólar, o aquecimento global, o impacto da geopolítica ocidental na Moldávia, a gripe aviária e – não menos importante – aquele título que o Ceará perdeu em 2014 na Copa do Nordeste), a frase acima costuma ser a última coisa que você pronuncia conscientemente antes de uma das 3 alternativas a seguir acontecerem: 1 – você sofrer um colapso nervoso e desmaiar ali na fila mesmo; 2 – sair gritando em desespero e nunca mais querer comer nenhum derivado de milho ou 3 – ceder em copiosas lágrimas à pressão neocapitalista e à sua própria gula (ou de quem estiver te acompanhando) e acabar por comprar o mísero saco de pipoca criminosamente caro em qualquer sala de cinema do país.

É por essas e outras que isso está se tornando um lazer não muito fácil e muito menos acessível, apesar da arte do Cinema ser uma das mais populares e encantadoras por unir em uma experiência mais que moderna (sim, com tantos 4K-Ultra-HD-Power-Blaster-3D-Surround-Num-Sei-O-Quê) praticamente todas as outras artes: música, fotografia, dramaturgia, etc. E nem vou entrar no mérito dos serviços de streaming ou a decadência das videolocadoras, porque de crítica mercadológica aqui já basta o desabafo subjetivamente desesperado no parágrafo anterior dirigido à “máfia da pipoca”. Ah, e se você se perguntou, nunca me ocorreu nenhuma das 3 alternativas – se bem que, certa vez, jurei dar na cara do atendente, mas prometo que foi só da boca pra fora!

Daí você sobrevive à compra e entra todo empolgado pra assistir ao filme que tanto esperava. Procura seu lugar e se acomoda – por favor, deixe o maldito celular no silencioso! – para começar o filme. Começa também o seu ataque à bendita pipoca, que agora ainda está quentinha e rindo da sua cara por ter assaltado algumas dezenas de reais do seu cartão de débito. Aliás, só pra reclamar mais um pouco: é tão caro, mas tão escandalosamente caro que se você pagasse no crédito deveriam era te fazer acumular milhas! Com certeza, em menos de um ano de tanta pipoca de cinema, você conseguiria passagens de ida e volta para a Moldávia – que eu não sei nem onde é que fica.

Sim, mas onde estava? Ah sim, no começo do filme. Pois bem, aí você mal espera os trailers e já vai começando a comer. A pipoca ainda tá quentinha, macia, cheia daquilo que chamam de manteiga (dica: não é!) e com um tiquinho do sal que você botou no topo do pacote. O filme começa e você nem presta mais tanta atenção à pipoca: só trata de mandar ela pra dentro enquanto assiste hipnotizado ao início do arco da história.

Na verdade, o que eu quero dizer – num comparativo meio superficial mesmo e metido a engraçado, é que o nosso (ou pelo menos o meu) próprio senso crítico quanto ao gosto pelo cinema vai, com o tempo, evoluindo que nem a pipoca que você devora no filme.

Quando comecei a frequentar, gostava de assistir tudo! Ir ao cinema valia muito mais por ser empolgante do que analisar qualquer aspecto dos filmes. Ainda criança, minha mãe me levava pra ver filmes de ação/infantis que eu realmente achava o máximo – apesar de algumas vezes o roteiro ser sofrível. E a experiência nessa “primeira idade” se comportava justamente como o topo de um pacote de pipoca: ver qualquer filme era sempre macio, quentinho, gostoso e com gosto de novo.

Chegando lá pelo meio do lanche – onde, em no nosso comparativo existencial aqui proposto, é quando você já envelheceu um pouquinho mais, a pipoca já não está tão quente ou macia, e você começa a sentir mais o sal que polvilhou pelo topo e agora se esparramou pelas outras camadas do pacote. Começo a procurar novos tipos de gêneros: um drama aqui, um terrorzinho acolá (apesar de não curtir muito) e algo mais pensado/filosófico agora com mais frequência, já que, enquanto mais crescemos, naturalmente mais questionamos tudo ao nosso redor, e a arte traz combustível indispensável a isso. Somos seres inconformados – e isso é importante.

Agora quando o filme avança, a pipoca vai acabando e seu pacote finalmente fica mais leve, restando aqueles grãos queimadinhos e não-estourados no fundo. E muito, muito sal. Você precisa, então, começar a escolher o que ainda dá pra comer. Em paralelo, é aí que seu senso crítico pelas películas também aprende a ficar seletivo: não é qualquer coisa que você, literalmente, “engole”. Não é todo roteiro que convence. Não é todo elenco de superestrelas caríssimas que ganha a audiência. E os efeitos especiais acabam virando commoditie ou mero plano de fundo como detalhe estético.

Em exemplos práticos: detestei o segundo e terceiro filmes do já clássico “Matrix”. Achei um baita desperdício de tempo e dinheiro – além de uma tremenda pretensão – fazer do adorável “O Hobbit” uma trilogia. Confesso que não curti e nem ao menos entendi o premiadíssimo “Birdman”, apesar de respeitar e muito sua técnica de ser rodado praticamente todo em plano sequência – talvez, como no longo subtítulo dele, eu tenha mesmo me rendido à tal “inesperada virtude da ignorância”. Mas… Acontece. Também somos seres ignorantes e seletivos. E gosto é gosto, afinal!

Falando nisso, é claro que ao longo do tempo aprendi a construir minhas preferências: filmes de herois dos quadrinhos, dramas, sagas épicas, filmes históricos, entre outros. Mas criei uma declarada paixão bem recente pelo cinema argentino – que, se não fosse bom, certamente não rimaria com Tarantino. Nessa dobradinha, claro que sou fã do Quentin e tive ainda a felicidade recente em me descobrir apaixonado pela genial simplicidade de Ricardo Darín (não tem como não ovacionar a obra-prima “O Segredo dos Seus Olhos”). Apesar de não acompanhar tanto, o cinema francês vez em quando também me encanta por suas produções leves e cheias de fofura – “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” e “O Garoto da Bicicleta” que o digam.

Enfim, a pipoca acabou. Mas não é por isso que eu ou você precisamos beber imediatamente 2 litros de água pra passar o gosto, pra tentar esquecer. Parte da jornada é o fim, em qualquer história que se preze. O que importa é a viagem em si, é curtir o cinema e se nutrir com ele, mesmo quando o final é salgado e intragável. O que fica é o aprendizado e o aguçar dos seus sentidos para entender e sentir cada tipo de história. Não importa tanto o gênero, a sua frequência ou forma de assistir, e nem precisa ser crítico (de crítica, basta abrir o Facebook) nem assistir a todos os clássicos do mundo inteiro.

O que fica de bom é quase sempre aquela sensação de deixar a sala do cinema se sentindo mais leve e emocionalmente rico – por favor, jogue o saco de pipoca no lixo, beleza? Somos seres cultos e educados! Assim, só desejo a você que está lendo que se alimente sempre de cinema, cultura, de muitas e muitas cenas inesquecíveis, trilhas sonoras arrebatadoras e lágrimas que inundam a alma. E de uma boa pipoquinha também, pra acompanhar. Ah, e só pra não fechar sem reclamar de novo, fica uma dica: no supermercado ela é bem mais barata!

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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