ENCARNAÇÃO

A noção de Logos é desenvolvida por Platão, na Atenas antiga. Segundo o filósofo inglês Stephen Tolmin (1922-2006) – em Como a razão perdeu seu equilíbrio, 2006 – o “logos” da filosofia grega incluía o conjunto da argumentação e do pensamento sobre qualquer assunto, tanto argumentos formais como argumentos substantivos, tanto da lógica como da retórica, não sendo possível fazer uma separação entre estes. Em todas as atividades humanas, o “logos” desempenhava um papel central. Dessa visão resulta um Cosmo soberanamente ordenado.Essa teoria irá encontrar divergência em Aristóteles; mas isso fica para outra ocasião.

Na tradição cristã, coube ao evangelista João, adepto da escola neoplatônica, introduzir a teoria do Logos em sua teologia, do cosmo soberanamente ordenado, permitindo assim um diálogo com a cultura helênica, conferindo ao seu Logos o poder absoluto: “O Logos (Verbo) era Deus. Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito” (Jo 1, 1-14). A grande travessia intelectual de João foi a de identificar na pessoa de Jesus de Nazaré a encarnação do Logos, demarcando sua importância acima da Lei – a Torá – do antigo testamento, dando-lhe os atributos de Luz e Vida. Muito provavelmente a doutrina paulina preparou o caminho para o prólogo joanino.Portanto, para João, o Logos se faz Carne em Jesus.

Mas Jesus não é um espírito vagante. É um homem: nasce, cresce, vive. Desenvolve a existência com sua identidade bem definida, com seu trabalho, com seus estudos, sabedor de si e sabedor da realidade do seu povo. Como homem compartilhou naturalmente das dificuldades dos seus compatriotas sugados pela realidade socioeconômica opressora imposta pelo Império Romano com a cumplicidade de judeus com o sistema de exploração dos seus compatriotas camponeses que representavam a maioria absoluta da população. Esta convivência concreta e real de Jesus com o seu povo deu-lhe as condições de produzir a sua mensagem humano-espiritual, falando o linguajar do seu povo em suas variadas parábolas.

A sua liderança é baseada no exemplo de vida, nacoerência do pensar com o agir. De fato, não se vê nos relatos evangélicos ou nos escritos paulinos episódios de encontros ou jantares de Jesus no Palácio de Herodes, ou de Caifás ou de Anás. Como não há registros de grandes e demorados conchavosdo Mestre com Pilatos. E muito provavelmente era essa a expectativa dos camponeses judeus da época: encontrar uma liderança que lhes fosse verdadeira, autêntica, coerente, capaz não de tirar-lhes a vida ou de impor-lhes incontáveis sacríficos; um líder que não fizesse concessões ao Poder Político e Econômico, mas capaz de entregar a sua própria vida por aquilo que anunciava e acreditava.

Essa liderança influenciou a muitos. Se olharmos o século XX, iremos encontrar as lideranças como a de Martin Luther King, em sua luta pelos direitos civis do povo negro estadunidense contra o poder opressor da supremacia racial branca; ou Mahatma Gandhi, com sua não-violência ativa contra a opressão colonialista britânica; ambos fortemente influenciados pelo pensamento de Jesus Nazaré.

Dar carne aos verbos, dar coerência aos discursos, dar veracidade com os exemplos às mensagens é e sempre será o permanente desafio das lideranças e das instituições.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .