EMPRESÁRIOS E TRABALHADORES: REFÉNS DA MESMA CRISE – Parte 3 – por Osvaldo Euclides

Uma coisa é certa para trabalhadores. Os salários vão parar de subir e em termos reais podem cair, pois não há ímpeto para reivindicações no momento. Os sindicatos e os negócios em geral estão enfraquecidos e os empregados temem perder o emprego.

Uma coisa é certa para empresários. A demanda está baixa e não há no radar de curto e médio prazo nenhuma sinalização firme de retomada vigorosa. Salários (principalmente), juros e aluguéis estão pressionados. E tem muita gente desempregada e sem renda. E, entre os que têm renda, uma parte expressiva não tem estabilidade, não tem a velha “carteira assinada”, que dava confiança e estímulo ao consumo.

Empresários e trabalhadores são, portanto, reféns da mesma crise, que já se alonga por três, quatro ou cinco anos, dependendo de onde você quer colocar o ponto de virada (se 2014, se 2015, se 2016). E, a julgar pelo discurso do novo governo e de seu ministro da economia, o Estado vai encolher-se. Vai privatizar, vai reduzir a carga tributária e não aponta nenhuma política de estímulo de qualquer tipo, para qualquer setor ou região. Fala vagamente em retomada dos investimentos, não diz onde, nem como, nem por quem. Se é dinheiro para privatizacão, ele não ajuda no crescimento. Se for para parcerias público-privadas e concessões de coisas novas, o processo é longo e lento.

O Estado (liberal ou não) interfere na economia mesmo quando não tem intenção. Um exemplo: o desastre ambiental de Brumadinho traz efeitos negativos, e uma parte possivelmente expressiva de responsabilidade cabe ao mau desempenho da regulação e da fiscalização, por omissão, imperícia ou negligência. Outro exemplo: a greve dos caminhoneiros. A política de preços excessivamente radical para o óleo díesel levou o país a sentir o calor do inferno, o bafo do caos. O Estado tem o poder de causar problemas quando se move, quando não se move e quando faz uma coisa ou outra de forma ou na hora errada.

É nessa crise que há uma oportunidade. Melhorar a qualidade do serviço público pode melhorar a economia. Melhorar a qualidade do serviço público pode melhorar a produtividade das empresas (quanto de produtividade perde a empresa porque o ônibus diário do trabalhador é ruim e o trânsito é lento?). Melhorar a qualidade do serviço público pode melhorar a qualidade de vida do trabalhador e de sua família (boas escolas e bom serviço de saúde, assim como boa iluminação e polícia na rua, trazem satisfação para os membros da família). E, para fechar: serviço público de qualidade é salário indireto. Salário indireto tem alto poder motivador no ambiente de trabalho e de produção. E não sai diretamente do caixa da empresa (ou já saiu quando a empresa pagou seus impostos).

A oportunidade seria o lado bom de uma crise, se isso é possível. Agora imaginem o lado mau. Imaginem todos os serviços públicos funcionando mal. O efeito no trabalhador, na sua família e na produção e na produtividade da empresa pode ser devastador. Essa má qualidade pode explicar até parte substantiva da violência.

Um exame da identidade estratégica (missão, visão e valores) das entidades empresariais (a começar por aquelas do Sistema S), dos partidos políticos, dos sindicatos e da imprensa aponta para o compromisso com a questão da qualidade de vida do trabalhador e de sua família, diretamente conectada com a qualidade do serviço público.

O Brasil pode estar vivendo um exato momento decisivo na qualidade do serviço público e a lei 13.460 pode ser o ponto de partida para uma inflexão. O que vamos ter? Uma queda rápida e acentuada ou uma recuperação vigorosa da qualidade?

Quem ganha com a queda da qualidade? Ninguém. Quem ganha com a recuperação da qualidade? Todos, mas principalmente empresários e trabalhadores. Numa quadra de país dividido e tenso, convém fazer alguma coisa pela coesão social.

Hora de agir. Quem vai dar o primeiro passo nessa articulação?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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