EM TORNO DA FOME E DA MISÉRIA

Para conhecer a verdade sobre nossa pessoa e exercermos a autonomia sobre nossa própria personalidade, entre outras coisas, é preciso dominar a verdade sobre o mundo social no qual a humanidade está inserida, do qual é produtora e pelo qual é condicionada. Ou seja, dominar a verdade da sociedade implica conhecer a essência, com as contradições nela implicadas, da dinâmica social que, no caso contemporâneo, é a essência da dinâmica do capitalismo.

Sem grandes pormenores, pode-se dizer que a sociedade capitalista é movida por uma contradição básica entre capital e trabalho. Por um lado existe aquele pequeno grupo de pessoas que detém o domínio dos meios de produção (o capital), denominados capitalistas; por outro lado, a grande massa dos que detêm a força pessoal produtiva do trabalho social humano, os trabalhadores e trabalhadoras. A contradição consiste no processo de produção pelo qual os detentores dos meios de produção (capitalistas) procuram obter o maior valor pela exploração do trabalho humano contratado (trabalhadores). Os capitalistas apropriam-se do poder do Estado para estabelecer leis reguladoras e sistemas de repressão capazes de viabilizar com que a produção de bens e serviços atinja um valor máximo possível pelo menor preço (salário) a ser pago à força de trabalho social que os produziu. Portanto, essa contradição não é uma criação ideológica, mas é uma componente real estruturante do capitalismo.

Cabe ao pensamento político que dá sustentação ao capitalismo criar diversas formas de percepção (ideologia) por parte da sociedade, capazes de mistificar ou esconder esta contradição básica do sistema, exaltando o individualismo existencial; insuflando o fetiche do consumismo; desenvolvendo instituições compensatórias de solidariedade; nutrindo sistemas religiosos passivos e espiritualizados, centrados na brandura, na realidade metafísica e mantenedores do status quo; criminalizando sujeitos e organizações questionadoras das injustiças do sistema; promovendo uma cultura do descarte, do medo e da violência visando a desmobilizar a conscientização e o engajamento das pessoas e dos grupos na compreensão e mudança da realidade; alimentando o sentimento de impotência e de impossibilidade de superação da exploração produtiva, apresentando-a como único caminho, única verdade, única vida.

Nos dois últimos textos que publiquei (https://segundaopiniao.jor.br/a-mensagem-do-papa/) e (https://segundaopiniao.jor.br/o-massacre/), busquei estabelecer uma linha de pensamento analítico do tempo presente dialogando com dois documentos publicados pelo Papa Francisco.  Sendo assim, para completar essa trilogia, no presente artigo passo agora a recorrer à exegese evangélica, utilizando-a como lente interpretativa para a breve análise a que me propus com esta rápida reflexão.

Nos evangelhos vamos encontrar os milagres de Jesus de Nazaré sempre em favor de uma pessoa ou de um grupo de necessitados, a partir do seu olhar atento para a realidade do povo em torno da fome e da miséria, com o qual convive e ao qual anuncia a sua mensagem. Ele não realiza os milagres em causa própria. Para alguns exegetas, esses milagres, muito mais do que um ato de poder (Dýnamis), são sinais (Sêméion) pelos quais Jesus demonstra a possibilidade de outra realidade possível, de uma mudança de vida, por meio da fé e do consequente engajamento que ela suscita. Portanto, são sementes carregadas de sentido e abertas à construção de novas realidades e significados.

Na alegoria da multiplicação e partilha dos pães (Jo 6, 1-15), há a distribuição do alimento comum, diário, consumido por aquela gente camponesa e pescadora – pães e peixes – saciando a fome de todos, por meio da organização social e de tudo o que foi partilhado. Todo sinal é portador de um algo mais semiótico que extrapola seu veículo de enunciação. Assim, com aquela simbólica, o evangelista busca apontar para uma nova perspectiva relacional com os bens da criação e os bens produzidos pela força de trabalho, em detrimento da má distribuição e acúmulo nas mãos de poucos, como ocorria na Galileia faminta de então.

Como disse o evangelista no final do seu livro, estes sinais foram escritos para que vocês acreditem, tenham fé que é possível. A realidade espiritual (o sinal) não tem nada a ver com oposição ao material, ao concreto; muito pelo contrário. O novo êxodo, a nova libertação proposta por Jesus de Nazaré não visa estabelecer uma nova terra, mas uma nova consciência, com novos laços relacionais a partir do lugar aonde se vive, na reorganização do espaço social, a partir de novos processos, capazes de construir transformações criativas,como tão bem lembrou o Papa Francisco em seu discurso em Santa Cruz de La Sierra, em 2015.

Diz ainda o texto: “Há aqui um menino com cinco pães de cevada. Ou seja, é preciso organizar-se e começar decididos a partir de pequenas ações (menino), enquanto oprimidos (o pão de cevada era alimento dos pobres, diferentemente do pão de trigo), visando à mudança que precisa iniciar, em cada um e entre si. O caminho se faz ao andar. Trilhando e aperfeiçoando-se ao longo do trajeto, por meio da conscientização livremente compartilhada por todos. A partilha dos pães não é apenas fonte de saciedade, mas caminho pedagógico.

E é onde se situa a grande ameaça ao capitalismo: partilha e distribuição dos bens. Por isso o Império Romano condenou Jesus de Nazaré como um subversivo (morte de cruz): porque ele estava ensinando ao povo oprimido a força do caminho pedagógico da partilha.

Talvez tenha sido isto que faltou ao Programa Bolsa Família – e aos demais programas de políticas afirmativas dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT): um processo de conscientização e uma pedagogia compartilhada sobre a novidade da multiplicação e distribuição dos pães material e imaterial que estava sendo introduzida de forma inédita na política brasileira, por meio destas políticas públicas, visando a uma sociedade solidária e distributiva, semente de uma nova organização social para além do capitalismo financeiro neoliberal.

A pandemia da Covid-19 apresenta-se, dialeticamente, como uma possibilidade histórica de aprofundamento desta reflexão, capaz de favorecer uma nova postura diante do mundo, tendo em vista a reorganização do espaço social a partir organização dos oprimidos, em torno da fome e da miséria a que estão submetidos pelo Brasil afora. A Pandemia escancarou a crueldade do Mercado com seu egoísmo acumulativo e sua indiferença e incapacidade de cuidar das pessoas. E isso é só o começo. 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .