EM DEFESA DO CEARENSÊS OU A DESGRAMÁTICA DO “MACHO VÉI” 

 

Qualquer trabalho que pretenda dar conta do linguajar de um povo deverá se esteirar na cultura do dia a dia, longe das gramáticas normativas e das regras cartesianas que produzem o estabelecimento do sistema. A língua é um organismo vivo que é invocado pelos sujeitos falantes para expressar suas sensações/ emoções/ desejos. Diante disso, esta reflexão quer contribuir para se pensar como um linguajar precisa reconhecer essa vibração e essa desordem como pertencimento de um povo e não de uma língua que se sobrepõe pelas normas gramaticais.

 

Por isso, um trabalho que queira estabelecer um regramento para sistematizar um dialeto deve compreender os fatores que constituem a vida do povo e se aplica a qualquer linguagem representativa. No caso específico do cearensês, há de se pensar na molecagem cearense, o humor escrachado, o efeito carnavalizante da fala, o ritmo anárquico da criatividade que transforma os signos da língua(gem), em palavras criadas ou “distorcidas” pelo povo, incorporando um sem número de significados. Até parece que neologizar é uma forma de mangar da própria fala.

Cada um de nós carrega consigo um pequeno mundo, cheio de idiossincrasias, que nos identifica e que nos insere dentro de um mundo pequeno das relações cotidianas. Essas relações fazem parte do processo de construção da vida em casa, na rua, no bairro, na cidade… no mundo.

Cada grupo que se forma é identificado pelas semelhanças e tende a instituir, às vezes, minimamente, um código próprio, diferenciador de outros grupos, pela linguagem. Assim são os grupos técnicos, os surfistas, os policiais, os marginais, os da zona norte, os da zona propriamente dita etc., todos, no entanto, têm contato uns com os outros através da língua comum que nos une, no caso a língua portuguesa. Ora, mas será que falamos língua portuguesa? Mas qual língua portuguesa? Certamente a nossa é uma superposição de línguas que vêm desde a galega, passando pela moura (que veio do Oriente) mais as neolatinas, vizinhas de Portugal, mais as africanezas, mais as indígenas e as inúmeras outras que deixaram palavras e expressões misturadas ao nosso portuguezinho arrastado. E arrastar o português já seria falar uma língua variante, que José de Alencar queria fosse a língua brasileira.

E o que dizer ao se ouvir um diálogo entre um gaúcho (pode ser de sete facas), um paraibano e um caipira mineiro? Dá a impressão de que um ou outro não entende e não se faz entendido para o que ouve. Dá pra repetir? Como? Não entendi. Esse estranhamento é o que batizei de língua do terreiro. A linguagem, produto desta língua, leva muito tempo para se construir, mais de uma geração até. Como geralmente a gente leva a casa pra rua, a rua pro bairro e o bairro pra cidade, tem-se, ao longo desse processo, uma linguagem característica de uma determinada região, que levou um tempo considerável para ser construída e que a globalização imposta pelos meios multimídias não conseguirá desunir.

O que o cearense fala diferente da norma culta é uma decorrência do modo cearense de ser. Assim, do gentílico cearense surge, por analogia, o cearensês, a língua falada no Ceará. Como não resistimos a um neologismo, os cearenses falam numa linguagem alegre, moleque, relaxada dos gramaticismos, apesar dos “intelectualóides” e dos “debilais”, com um agravante, que se usa como atenuante, ou vice-versa, tanto faz. Mais vale uma piada na boca do que uma boca piada.

Os desvios linguísticos produzidos pelo cearensês tornam o falar mais solto, livre das peias e das armaduras gramaticais da norma culta. O povo não quer saber de gramáticas, teorias, tratados, artes poéticas. O povo gosta de rir e de passar bem. Como passar bem virou obstáculo quase intransponível nesse país de políticos voltados para privilégios, resta ao povo fazer troça da miséria alheia, que é a sua própria miséria.

No Ceará, há algumas publicações que registram esse vocabulário criado, adaptado, parodiado, parafraseado, palimpsesteado, mas que faz a diferença na hora da gente abrir a boca pra falar. O mais recente e mais completo manual de vocábulos e expressões sobre a linguagem típica do Ceará foi publicado pelas Edições Acauã/ Livro Técnico de Fortaleza, no ano 2000, é o Super Dicionário de cearensês. A maior parte das expressões e vocábulos coletados nestas publicações, fazem parte do acervo do cearense anônimo, simples ou intelectual, nesse ponto tudo fica nivelado pela molecagem. Basta ver nos shows de humor, nas rodas de bate-papo do bairro, na praia, nas praças, nos botequins ou no alto soçaite, quando aquelas peruas, com as bolsas cheias de salgadinhos, comentam entre si, com os lencinhos sujos de gordura e batom e que delicadamente levam até à boca: “Tá vendo aquela sirigaita, querida, dizem que ela tá largada do Armando, agora amancebou-se com o Ludovico, aquele fuleragem que tem bafo de jaula. Oh, mulher do meu abuso!”. Tudo isso, afora os escritores que dão uma contribuição fenomenal através dos neologismos desde Alencar até José Alves Fernandes, o estudioso mais aloprado no assunto.

Então, cabe aqui uma pequena pergunta muito simples: Que língua se fala no Ceará? Primeiramente, devemos lembrar que a língua é um produto e é produzida pelo povo, portanto, quem nasce no Ceará participa da produção de uma linguagem recheada de cearensismos. A língua, para o cearense, é mais do que um instrumento da cultura, é, antes, um instrumento da lambedura. Por ela, ele revela o seu modo de ser e de agir diante de determinadas situações.

Refazendo um processo inverso ao da colonização europeia, que trouxe a contribuição de todas as línguas estranhas ao Tupi, Guarani, Jê, Ianomâmi etc., o cearensês é um contributo arretado para o enriquecimento da língua portuguesa aqui misturada, neste rincão, onde Iracema se banhou nos verdes mares bravios, escutando o canto alegre da jacaúna, no coqueiro, depois indo tirar o sal na bica do Ipu; onde Conselheiro reuniu seus beatos e partiu para fundar o verdadeiro Brasil; onde Padre Cícero pregou para libertar o povo da miséria, do Cariri para todo o Nordeste; onde Bárbara de Alencar, resoluta, disse não aos poderosos e amargou um calvário frio na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção; onde um jangadeiro disposto desafiou os mares de Netuno e venceu a distância que separa o sonho do real, tornando-se um verdadeiro Dragão do Mar; muitos mais poderiam ser lembrados, como os anônimos que, após quatro tardes nubladas, viram o sol saindo preguiçoso na Praça do Ferreira e meteram a vaia. Ou os homens de pés rachados que plantam, ao menor sinal de chuva, a esperança para as nossas mesas. Este é o povo do Ceará. Um povo humilde e brincalhão, moleque e trabalhador. Um povo que, apesar das adversidades todas, ri da tristeza e gargalha na alegria. Um povo que fala a língua com a voz do coração.

 

 

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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2 comentários

  1. Flávia Ramalho

    Esplêndido, professor, viva a diversidade , não ao preconceito e respeito a todas as manifestações linguísticas , obviamente, a nordestina incomparável, pois é movida pela comicidade do sofrimento o que resulta a resiliência do povo cearense.

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