Elis & Tom, 50 anos depois

Disponível em streaming o imperdível documentário musical “Elis & Tom: Só tinha de Ser com Você”, montado a partir de uma série de gravações precariamente realizadas pelo cineasta e então empresário da cantora gaúcha, Roberto de Oliveira, entre fevereiro e março de 1974.*

O material, agora versado para 4K, com auxílio da IA, foi guardado por quase meio século, e é o único registro fílmico dos bastidores da gravação de um dos mais importantes discos da música popular brasileira (Elis & Tom, o disco, foi realizado nos estúdios da MGM, em Los Angeles, nos Estados Unidos).

O projeto, envolvendo dois monstros da MPB, um presente da Polygram para Elis, pelos dez anos de gravadora, só agora é tornado público em sua intimidade. Assim, o que se pensava resultado de uma parceria pautada pela cordialidade, foi um delicado processo de acomodação de forças conflitantes, não raro marcado por gestos e ações no mínimo indelicadas, o que, por pouco, não pôs a perder a memorável empreitada.

Sob este aspecto, por sinal, é digno de nota o que, para mim particularmente, serve para revelar um traço da personalidade até então desconhecido de Antonio Carlos Brasileiro Jobim — o do artista arrogante e preconceituoso: arvorando-se do que de fato foi, um compositor de qualidades geniais, e do prestígio alcançado entre os americanos, Tom Jobim mostra-se visivelmente incomodado com o fato de Elis levar para Los Angeles o então marido César Camargo Mariano.

Sobre isso, é relevante que se destaque o primeiro diálogo entre os dois, claramente resumido em depoimento do próprio Mariano: ao indagar quem faria os arranjos do disco e ouvir de Elis que seria o marido, então com pouco mais de vinte anos e para ele desconhecido, Tom Jobim faz comentários de escancarado desapreço à figura do músico paulista: “Quem, ele?”

Segundo Camargo Mariano, segue-se a essa pergunta uma série de declarações de desapreço pessoal e descrença em suas reais possibilidades artísticas.

Aos poucos, ao ver que estava diante de um músico competente, criativo e de excelente formação técnica, qualidades demonstradas por César Camargo Mariano à frente do teclado, Tom Jobim vai cedendo, mas a convivência jamais chegaria a ser algo mais que respeitosa.

É deselegante, para destacar outra passagem do documentário, como Tom Jobim reage à reconhecida simplicidade do músico paulista ao referir-se ao piano acústico como “piano de pau”: “Vejam, este instrumento maravilhoso é chamado por ele de piano de pau” (cito de cor), assevera, com deboche, o compositor de “Águas de Março”.

Esses fatos, que acrescentam uma pitada a um só tempo engraçada e surpreendente ao filme, sob qualquer aspecto, no entanto, empobrecem a beleza final do trabalho. Antes pelo contrário, uma vez que servem para realçar a importância do registro da produção de um disco absolutamente incontornável.

O documentário é inquestionavelmente um sério candidato a melhor do ano, e traz para os amantes da MPB os bastidores de um clássico irretocável: as brigas e situações impensáveis que a câmera de Roberto Oliveira expõe, portanto, são fatos prosaicos e pouco significativos em face do processo musical propriamente dito.

Revelando-se à vontade, superada a tensão dos primeiros momentos, Elis Regina agiganta-se em interpretações irretocáveis, a que se somam o dedilhar delicado do violão e os falsetes desconcertantes de Tom Jobim, numa pegada que transita do improviso jazzístico ao ritmo adocicado da melhor e mais autêntica bossa-nova.

Em rápidas palavras, é o que se pode ver nesse belíssimo “Elis e Tom: Só Tinha de Ser com Você”, mesmo em canções aleatórias cantadas pelos dois e que não constam do disco. A essa altura, a convivência entre eles, inclusive César Camargo Mariano, já era descontraída, em que pese o nítido desconforto deste com os recorrentes abraços e beijos da mulher em Tom Jobim ao final de cada interpretação. André Midani, diretor da Polygram, em depoimento, diz tratar-se de ciúme. Mas, combinemos, é coisa de resto desimportante quando se tem a oportunidade de apreciar o que o filme realmente é: uma experiência estética rara, perfeita, definitiva. Recomendo.

*Oliveira usou uma câmera de 45 milímetros.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica