Elevando o nível

 

Neste mês de julho tivemos a oportunidade passear pelo sul do Brasil, num repouso que se fazia necessário devido a sobrecarga acumulada de trabalho ao longo dos últimos anos. Encantadoras as duas cidades-irmãs, Canela e Gramado, onde pudemos contemplar a diversidade da cultura da civilização brasileira presente na arquitetura, no vestuário, na música, no trato acolhedor, nas expressões linguísticas, no clima temperado, bem diferente do calor tropical de Fortaleza. No entanto, não obstante toda a diversidade, comíamos no almoço arroz, feijão, carne, aipim (macaxeira); escutávamos nos restaurantes e cafés da cidade canções de Fagner, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Lenine; assistimos a danças de capoeira jogadas por jovens locais; participamos de celebrações religiosas cujos cantos conhecíamos a todos. Essa unidade na diversidade foi um dos pontos altos dessa parada.

 

Entretanto, é impossível deletar da mente as imagens do percurso de subida da serra. Durante todo o trajeto contemplávamos outro tipo de encontro não menos importante e bastante significativo. A  magnífica mata plantada sobre rochas das quais brotavam lençóis de água límpida e corrente. Aquela fotografia de natureza viva, harmoniosamente entrelaçada, provoca uma verdadeira contemplação cujo resultado era uma sensação de paz, de tranquilidade, de alegria pela beleza do encontro entre realidades vivas. Aos poucos fomos entendendo o porquê da abundância da natureza nesta região. A existência prática do cuidado com as riquezas naturais , que devem ser preservadas para o bem de muitos, tanto nativos quanto visitantes.

Esse mesmo zelo fomos encontrar na urbs. Se tivéssemos de expressar a cidade de Gramado em uma só palavra, não teríamos dúvida alguma de exclamar: Cuidado! Certamente que ela também poderia ser expressa pela palavra Beleza; contudo, sem uma política alimentada pelo cuidado, a sua beleza não se sustentaria, a exemplo de outras belezas de outros centros urbanos que sofrem pela falta de uma filosofia política que os tornem atraentes para o espírito humano como o é a cidade de Gramado.

 

Cuidado é o que se opõem ao descaso e ao descuido. Cuidar é mais que um ato, é  uma atitude de ocupação e responsabilidade permanente de envolvimento afetivo com o outro. A civilização, por ser inclusiva, diferentemente da barbárie, requer a presença do cuidado em todas as dimensões da vida política e social. Implica a passagem de um pensamento economicista para um pensamento ecológico amplo, que contemple uma ecologia político-social, cultural, mental no qual a centralidade seja o cuidado para com todos. Precisamos acabar com os maus tratos que perpetramos diariamente ao outro, seja ele humano ou natureza. Afinal, o que nos faz humanos é  justamente a presença do outro. Aqui, neste breve descanso, pudemos contemplar que o cuidado como atitude é um fato real.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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