Eles não passarão!

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.”

Jean-Paul Sartre  

No momento em que começo a escrever este artigo há uma forte tensão social no Brasil.

Em muitas regiões brasileiras, os caminhoneiros, segmento que transporta as mercadorias brasileiras de norte a sul num país que abandonou o transporte ferroviário de cargas de longas distâncias (o mais racional em termos de economia e ecologia, e obedecendo aos interesses da indústria automobilística e petrolífera) resolveram desrespeitar a vontade eleitoral de 60 milhões de brasileiros.

Mas não estão sós.  

O mutismo do Presidente da República, Boçalnaro, o ignaro, que mantém (quebrado, agora) um silêncio ensurdecedor perante o Brasil, sem que saibamos quais conjecturas e conversas ocorrem nos subterrâneos de um projeto ditatorial elitista e ditatorial que foi derrotado, estimula os seus fanáticos seguidores a querer fazer valer a força bruta em contraponto à força das urnas.  
Assim, confirmando aquilo que vaticinamos em outro artigo, dizendo que o Brasil nunca esteve tão perto de uma guerra civil como agora, vemos barricadas nas grandes vias rodoviárias e conflitos de populares que querem desobstruí-las; decisões judiciais de desbloqueios não obedecidas; perspectivas de desabastecimento; sofrimento de pessoas em ônibus parados e sem alimentos; e palavras de ordens raivosas de tal segmento contra a eleição de Lula.  

Os fanáticos bolsonaristas aplaudem, como se não tivessem aceitado o jogo eleitoral pelo qual se elegeram e diante do qual se submeteram, agora demonstram que o processo eleitoral somente valeria se eles tivessem eleito o maior genocida da história mundial mais recente (responsável inequívoco por cerca de 300 mil mortes por covid, em face  de sua negligência em comprar vacinas com a maior brevidade possível).

A máscara de caráter democrático dos boçalnaristas caiu solenemente!

Mas, felizmente, o Brasil tem características especiais no contexto mundial.  

A primeira delas é a importância continental na qual existe a maior floresta tropical do mundo, e que num momento de aquecimento global causado pela emissão irracional de CO² na atmosfera graças a um processo de produção industrial alavancado mundialmente por energias sujas (petróleo e carvão), tornamo-nos o pulmão do mundo, e a política bolsonarista de deixar passar a boiada amazônica, junto com a predação madeireira, mineral, e domínio do tráfico de drogas, tornou seu governo pária mundial.  

Eu nunca aceitei de bom grado o fato de que os países capitalistas que detêm a hegemonia econômica mundial sempre receberam Lula de braços abertos.  
Eles sabem perfeitamente que Lula é um social-democrata-trabalhista mais próximo do trabalhismo inglês do que outros modelos de social-democracia mais progressista. Lula aceita a contradição relativa do capital/trabalho (uma categoria é a gênese da outra, daí a contradição ser apenas relativa) como relação social a ser humanizada (um equívoco histórico da esquerda institucional).

Mas diante de um Boçalnaro, o ignaro, energúmeno pretendente a ditador orientado pelo falecido dublê de filósofo de almanaque e astrólogo de quiromancia Olavo de Carvalho, Lula está sendo considerado pelo G7 como a bala de prata da democracia burguesa, num momento de depressão econômica mundial na qual todos os integrantes deste grupo de donos do PIB mundial veem escorrer pelos dedos o capital e sua correspondente substância, o valor representado pelo dinheiro que se desvaloriza.  

Os fascistas brasileiros, conscientes e induzidos por uma cantilena patriótica ultrapassada, e como se fossem os paladinos do combate à corrupção da qual sempre foram partícipes ou acomodados coniventes, agora resolveram radicalizar e externar o seu ódio elitista.  

A segunda questão, que nos beneficia, e que se soma à questão do desmatamento e uso criminosos da Amazônia brasileira, é a nossa natureza político-econômica, que nos empresta uma importância mundial, avessa a projetos ditatoriais tupiniquins como este misto de nacionalismo patriótico ultrapassado com liberalismo clássico dos Chicagos boys que deu com os burros n’água.  

Nunca fizemos uma reforma agrária digne desse nome (que é bandeira capitalista, feita há mais de 200 anos nos Estados Unidos), e por termos água abundante, sol tropical e terras férteis, os latifúndios brasileiros terminaram
por descobrir que temos uma vocação agrícola de produção de alimentos em escala e, com isso, tornamo-nos competitivos e o segundo produtor de alimentos vegetais e animais do mundo.  
Mas temos também minérios, sendo as nossas reservas de ferro das Minas Gerais e amazônicas uma riqueza capaz de desenvolver a nossa indústria metalúrgica que já começa a se tornar vigorosa (no Ceará a Cia. Siderúrgica do Pecém já detém 52% do valor de todas as exportações cearenses, e as filas de navios em São Luis do Maranhão demonstram que somos nós que sustentamos em grande parte a indústria chinesa que usa tais artefatos).  

Temos, também, um parque industrial paulista que transforma São Paulo na meca do capitalismo latino-americano.  
Somos, portanto, uma simbiose de país com vocação agrícola, cuja produção não agrega valor substancial de riqueza abstrata, ainda que tal produção seja vital em riqueza material não valorizada (basta dizer que o país de maior produção de grãos do mundo, e que detém o maior PIB mundial, os Estados Unidos, o setor agrícola representa menos de 2% do seu PIB), com país urbano industrial, e reside nisto também a nossa importância mundial, capaz de preocupar as lideranças mundiais mais expressivas com os destinos da democracia burguesa brasileira, vez que um projeto ditatorial militarista ultrapassado não interessa a ninguém.  
Lula cai como uma luva neste processo.  
Nem é o radical de esquerda capaz de questionar o capitalismo decadente; traz nas suas consignas a simbologia da estrela socialista encarnada da qual já se afastou com suas conciliações políticas ao centro; e pratica o jogo político republicano que interessa à manutenção da autonomia do Estado burguês como força reguladora e regulamentadora da vida capitalista.  
Acredito que Boçalnaro, o ignaro, aconselhado por seus ministros militares, e sentindo o termômetro da temperatura de clima de guerra civil ora criado e antes incitado por ele aos seus correligionários fanáticos, é uma temeridade, e deverá aceitar a derrota, para junto com a forte bancada parlamentar que lidera, fazer oposição  ferrenha ao projeto lulista, que, obviamente, sofrerá  as agruras próprias de um país devastado economicamente, e ainda mais sendo periferia de um capitalismo mundial depressivo.  

A tendência, pois, é que os recalcitrantes bolsonaristas mais exaltados arrefeçam os seus ânimos belicosos, e aceitem a voz da razão, momentaneamente, para aglutinar forças num futuro mediato.  

Dalton Rosado.  

PS: são 16:30 minutos quando terminei este artigo, e vou aguardar o pronunciamento presidencial programado para logo mais. Espero que seja o momento da antevéspera da despedia.  
Às 16:40. Pás de cal no governo Bolsonaro. Seu pronunciamento, visivelmente constrangido e breve questiona a lisura do processo eleitoral e das urnas e justifica as revoltas populares de contestação do resultado como manifestação de civilidade, mas contraditoriamente agradece os 58 milhões de votos, e aceita implicitamente a derrota, de modo indireto. Não parabeniza o seu adversário, como é do seu estilo deselegante e grosseiro.
Na falta disso, o seu Ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira é encarregado de fechar o caixão. Alívio pelo desestímulo à guerra civil ansiada por alguns energúmenos.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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